Decidi viver na estrada, de forma mais simples, vida minimalista. Andamos por aí, eu e meu marido, na nossa casinha andante, morando em praças, parques, estacionamentos e, de vez em quando, em campings. Tenho conforto, nada me falta nos 7m² do meu lar. Meus vizinhos são flutuantes, os caminhadores das praças, os corredores dos parques ou as pessoas que passam, olham, e param para conversar, para saber mais sobre a vida nômade. No entanto, meus vizinhos mais constantes são os invisíveis, os que não têm lugar. Meus vizinhos contumazes são pessoas, cães e gatos, moradores de rua ou em situação de rua, se quisermos usar um termo mais atual ou politicamente correto. Eu escolhi viver nas estradas, o que é um privilégio, meus vizinhos não. Moram nos bancos das praças, nas calçadas, sob marquises, porque foi o que lhes sobrou. Sendo de todos os espaços públicos, as pessoas da rua usam a sua fatia, a parte que ajudaram a construir com o seu trabalho ou com os impostos pagos na comida, na cachaça ou no cigarro. Esses meus vizinhos são beneficiários de alguma ação governamental ou comunitária, que lhes proporciona comida e lhes disponibiliza abrigos, mas neste momento não quero refletir sobre as políticas públicas, o que fiz por longo tempo, visto ser essa minha área de estudos. Quero observar agora, por todos os lugares, os pequenos gestos, a vida real no cotidiano. Esses meus vizinhos, pessoas, cães e gatos, são olhados de forma diferente por quem passa. Os cães, sempre muito amigáveis, andam junto aos caminhantes, às vezes, até muito longe, talvez querendo ser adotados, querendo ser levados para um lugar onde terão comida farta. Recebem atenção, os humanos cachorreiros lhes fazem carinho, conversam, se comunicam por saberem a língua dos cães, a que utilizam nas suas casas com seus pets.

Meus vizinhos felinos andam em grupos, onde há todo tipo de pelagem e temperamento. Há os que se aproximam, há os ariscos. Esses também recebem atenção de quem passa, porém, me parece que os gatos não são de muita conversa com estranhos. É comum que os habitantes da redondeza, aqueles que têm casa ou comercio por perto, providenciem casinhas e distribuição de comida para meus vizinhos cães e gatos, de forma espontânea, um afeto gerado do convívio diário da vizinhança, o que não observo com os humanos. Percebo que as pessoas que moram na rua são invisíveis, os caminhantes passam sem enxergá-los. Não vejo tanta atitude da população local como alcançar comida ou agasalho àqueles miseráveis, como fazem com cães e gatos, também para comigo, que recebo sorrisos e cumprimentos dos que passam pela porta da minha casinha. Meus vizinhos que moram na rua não ouvem os bons dias e boas tardes sorridentes como eu, não recebem sequer um olhar, não há para eles um prato de ração, tampouco são percebidos, muito menos afagados como os cães e gatos. E estes, os cães e os gatos, também incomodam às vezes, grudam nos transeuntes, pedem comida e até roubam…















Está é uma realidade vivida por quem viaja como nós, os invisíveis…
E são muitos, infelizmente!
Me tocou muito ler isso.
A liberdade de viver na estrada é linda, mas o texto nos lembra, com muita sensibilidade, que nem todos estão ali por escolha.
Que possamos ter mais empatia, mais presença e mais humanidade nos pequenos encontros do dia a dia.
Obrigada pelo teu sensível comentário.
É a força do medo.
As pessoas se afastam, ou tentam afastar os invisíveis humanos por medo.
Medo de serem atacados, roubados, terem imóveis desvalorizados ou clientes afastados.
Esta é a sensação que tenho.
Eu lamento muito, vendo em cada um a possibilidade de um futuro que podia ser meu ou de algum conhecido longe no tempo.
Lamentar não basta.
Importa batalhar por politicas públicas que busquem tira-los desta situação.
Parabéns pela sensibilidade.
Bjos e boas viagens.
Obrigada pelo atento comentário. Obrigada por estar aqui no Exempplar!
Uma questão delicada, não é mesmo? Não é fácil lidar com humanos.
A proximidade com pessoas, cães e gatos de rua é um desafio e um aprendizado constante.
Recente convivemos com alguns moradores de “onde nos deixarem ficar”. É bem isso. Pessoas que por inúmeros motivos foram viver nas ruas, são também nômades, pois nunca tem um lugar certo, onde os permitam ficar por muito tempo. Estão por sorte, muito pouco por piedade… São boas pessoas, são corretas, gentis, esperam trocar experiências, alimentos e prosa. Acolher pessoas não é simples como é o fazer com cães e gatos. Esses jamais serão ingratos ou te faram algum ato ruim ou questionável. Mesmo assim, precisamos olhar mais nossos iguais, abrir mais o espaço e dar oportunidades para contarem suas histórias e no que for possível, a cada transeunte, estender as mãos.
Eu também gosto de ouvir as histórias…de todos!
Muito bom texto… aqui tefletindo que teria os mesmos sentimentos em relação aos “vizinhos” de todos nós, nas calçadas, debaixo das marquises. E tenderia a jogar pro Estado a sua ausência, ao abandono familiar a sua falta de amor, refletiria sobre o abuso de álcool estimulado por um mercado cruel, etc.etc… Mas mais ainda, tenho que admitir, me tocam os bichos, pela sua inocência e total vulnerabilidade, indefesos e a mercê de todas as faltas humanas.
Pois é…cães e gatos são mais acolhidos do que pessoas.
Infelizmente ainda somos um país de pobres e miseráveis, e não são só os seres humanos que vivem nessa realidade. É por isso que vivemos de tempo em tempo batalhas importantes, como é o fim da jornada 6×1, a luta por melhores condições.
É isso! Só o conjunto das políticas públicas para enfrentar essa situação.
Lamentável o abandono das pessoas…em Porto Alegre então…vou te contar!…E tem gente que admira os prefeitos “direitosos” de SC e RS que “convidam essas pessoas a se retirarem se não vieram para trabalhar”…Falta de politica pública…falta de empatia…e principalmente de humanidade…faço minha parte…no verão deixo garrafinha de mineral para gelar e entrego para estes e estas…como agradecem …hoje fiz comida para levar no trabalho…e separei um pouco para dar…não encontre ninguém no trajeto…perspectiva de chuva que está acontecendo agora…sabe-se lá em que buraco se encontram para não se molhar…como diz aquela música…homem primata…capitalismo selvagem!
É isso…cada um faz a sua parte mas não basta. No modo de sociedade em que vivemos, essas pessoas são o “rejeito”….
Verdade… Mas tem um problema, quantas vezes eu quis ajudar, mas os vizinhos me chamaram e pediram para eu não fornecer mais alimentação, nem água, nada… Por não quererem que o “sem teto, sem casa, morador de rua, andarilho” permaneça por ali, por medo de uma possível agressão que, infelizmente já houve inúmeros relatos, sobre essa questão da violência. Então… E… Eu já vi, assistentes sociais vindo conversar, trazer uma alternativa de vida mais digna e eles mesmos negarem a proposta… O que acontece? Como resolver? Há solução? Qual? Quem tem que querer? Difícil compreensão.
Não existem soluções fáceis para problemas complexos! As iniciativas individuais infelizmente não dão conta…obrigada pelo comentário!