A vida na estrada tem me levado a muitos lugares, a maioria novos lugares, onde nunca estive. O caravanismo tem sido de descobertas, especialmente de cidades pequenas, cujos nomes eu nunca ouvi falar. Gosto dessas, sem apelo turístico, sem propaganda, só conhecidas pelos seus moradores e a vizinhança mais próxima. Gosto dos encontros que ocorrem pelo interior, gosto das conversas com desconhecidos, me encantam as histórias nunca ouvidas, as paisagens nunca vistas, a cultura nunca vivida. Além de novos encontros, a vida nômade tem me proporcionado reencontros também. Se sei que algum parente ou amigo(a) de infância mora por perto, não exito em procurá-lo(a). Vou para a internet, descubro seu endereço ou telefone e vou atrás, quero encontrar. Os reencontros podem ser novidades também. Pessoas que não vejo há muitos anos me geram curiosidade, quero saber como estão, o que fizeram da vida. Contatos são fáceis de serem estabelecidos nas redes sociais, mas não é a mesma coisa.

Não abro mão dos abraços apertados, das risadas soltas, das notícias atualizadas ao vivo, em conversas intermináveis. Tenho tido ótimos reencontros, alguns me levam para minha infância na família, outros para o tempo do colégio ou da faculdade. Ao abraçar um parente ou amigo(a), parece que o tempo não passou apesar de, em alguns casos, não termos nos falado por 50 anos! Aquela amiga de infância, aqueles primos distantes, aqueles antigos colegas de trabalho, quando os revejo, todos me parecem muito velhos. Todos têm netos, cabelos brancos, rugas, uns estão viúvos, o combo completo da velhice. É claro que todos me acham velha também, mas as conversas começam com o clássico “nossa, tu não mudaste nada, tá igual”, “nem tu”. Sabemos que é mentira, mas queremos ser gentis uns com os outros, ou talvez dizer que não mudamos nada nos dê a ideia de que o tempo não passou, que ainda temos intimidade. Busco todas as pessoas que posso por onde passo, às vezes faço surpresa, quase mato o pessoal de susto, bato à porta, me apresento se não me reconhecem de primeira, devo parecer um fantasma vindo do passado. Já procurei uma prima que não tinha contato há mais de 30 anos, perguntando aqui e ali. As únicas informações que eu tinha eram a cidade, o bairro, e que ela morava no último andar do seu prédio. Para minha sorte, o bairro era planejado, com casas todas iguais e não mais do que meia dúzia de prédios. No segundo prédio em que acionei o interfone, a encontrei. Ela quase morreu de susto, cena já conhecida nos meus reencontros. Numa outra cidade pequena fui ao encontro de uma grande amiga de infância, que nunca mais havia tido contato. Só sabia o nome da cidade e que ela tinha vivido num convento, mas não terminara a sua formação. Fui direto à igreja matriz, claro! Única igreja, na praça central. De primeira, uma beata que encontrei por lá lembrou do seu nome, falou que tinha trabalhado com ela em alguma atividade da igreja. Essa foi fácil, uma quase freira que abandonou o convento certamente teria alguma recaída, trabalhando nas obras da igreja. Da conversa com a beata e mais uma ou duas abordagens por perto, cheguei a sua casa. Foi muito bom reencontrá-la, essa não achei tão velha, deve ser porque nunca casou e não teve filhos. Marido e filhos são potentes geradores de rugas e cabelos brancos. Uma vez busquei uma amiga que não gostou de me ver e eu fiquei muito intrigada com aquilo. Não que velhos amigos e colegas devam todos ficar felizes ao me ver, mas essa era tão minha amiga no colégio, vivíamos grudadas, que fiquei chocada com a sua atitude. Me deu um abraço frio, conversou em monossílabos e permaneceu com um sorriso amarelo o tempo todo. Devia estar pensando algo como “minha colega enlouqueceu, coitada, o que quer comigo a essa altura da vida?” Eu só queria reencontrá-la, ela, nitidamente, não queria o mesmo. Respeitei os sinais de seu incômodo e me retirei rapidamente para a minha casinha. Não consegui compreender por que minha grande amiga dos primeiros anos de escola não gostou de me ver, fiquei triste. Minha tristeza durou pouco pois precisava, logo, traçar o plano para reencontrar uma colega do ensino médio, do tempo do curso técnico em enfermagem. Muito fácil, comecei a busca pelo pequeno hospital da cidade…














