Minha morada é onde está estacionada minha casinha rodante. Pode ser à beira mar, ao lado de algum quiosque, no parque municipal, no meio fio de uma avenida central, no pátio de uma igreja, restaurante ou casa de amigos. Normalmente somos só nós dois, eu e meu marido, não costumamos viajar em comboio, assim como nossa morada em campings é muito rara. Nos lugares de apoio a motorhomes temos vizinhos nômades de todo tipo, vindos de todo lugar. Confesso que as moradas que mais me atraem são as primeiras, em cidades pequenas, onde o convívio é com os moradores do lugar. Neste momento lembro, em especial, de um vizinho com o qual convivemos por longo tempo, no estacionamento de uma grande cidade. Um vizinho misterioso. Sua casinha sobre rodas era bonita, uma van bem cuidada, pintada de um verde fosco que, à primeira vista, parecia um veículo militar. Nenhum adesivo, nenhuma referência, nada, tudo verde fosco fechado, parecendo um esconderijo, uma concha ou um banker. Meu vizinho morava ali sozinho, divorciado, sem filhos, trabalhador graduado, criador de conteúdo digital publicitário, atividade que lhe possibilitava trabalhar em casa, na sua casinha sobre rodas, que era também seu estúdio. Eu gostava de observar meu vizinho solitário. Conversava pouco, muito simpático, mesmo nos contatos monossilábicos. Aquela nossa morada era sob o sol, perto da praia. Logo cedo, muito cedo mesmo, eu ouvia seu movimento, que era sempre igual: o barulho do abrir da porta, as providências de descarte de detritos e abastecimento de água da sua casinha, uma varrição rápida ao redor.
Assim que terminava a rotina matinal do seu lar nômade, lá estava meu vizinho a fazer seus alongamentos antes de sair para a sua corrida diária. Da janela, eu o observava. Ele fazia calmamente os movimentos e posições para alongar-se, preparando-se para correr. Dia recém amanhecendo, meu vizinho se alongando e eu viajando nos meus pensamentos. Por que estaria sozinho o meu vizinho? Rapaz bonito, rosto tranquilo, sorriso simpático, corpo bem desenhado, estatura mediana. Uma certa careca se pronunciando, o que não combinava com a sua idade, certamente uns trinta e poucos anos. No que estaria pensando meu vizinho enquanto se alongava? Seria na esposa, que havia deixado em outra cidade? Seria na namorada nova que havia conhecido há pouco? Ou estaria ele pensando no trabalho que faria logo a seguir? Ou nada disso. Talvez o seu foco, naquele momento, fosse na atividade física e no cuidado que estava tendo para não sofrer lesão no joelho ou tornozelo, o que é comum em corredores pouco cuidadosos. E lá ia ele, eu conseguia acompanhá-lo da minha janela, saia no grande portão do estacionamento, e logo na calçada já começava a correr. Alcançaria o calçadão da praia em poucos minutos. Ele me fazia lembrar do meu filho, que é “do corre” também, pensava se ele estaria, como meu vizinho, saindo para a sua corrida matinal. Dava jeito de levantar-me, não tinha mais sono, mesmo ainda sendo muito cedo. Havia despertado observando meu vizinho. Enquanto meu marido fazia preguiça, eu encaminhava meu chimarrão. Em cerca de uma hora meu vizinho voltava, caminhando cansado, suado, pronto para novo alongamento, agora me via, acenava, eu não podia mais observá-lo furtivamente. Ele sumia dentro de casa, eu ouvia o chuveiro, que delícia devia estar seu banho, a endorfina liberada pela corrida na sua circulação certamente lhe dava a sensação de que tudo correria bem naquele dia, estava até sorridente o meu vizinho! Tomava seu café devagar na varanda, sob seu toldo, olhando ao longe, parecendo meditar enquanto comia. Saia logo depois, portando uma grande mochila, todo equipado, colocando um boné para proteger sua careca, provavelmente trabalharia ao sol. Onde iria meu vizinho? Não sei, só sei que voltaria à tarde, como sempre, e eu estaria na janela, observando-o. É sempre assim, enquanto viajo, observo, e ao observar, viajo!















Vizinho especial este tão bem narrado pela Élida.
São muitos que encontramos e convivemos nesta vida nômade e muitos se tornam amigos…