As vivências na areia das praias me são muito interessantes. Gosto de ficar observando as famílias, o pessoal que corre enterrando os pés na areia, os que jogam futevôlei ou beach tênis. Constato que pouca gente joga futebol na praia, talvez esse seja um motivo para não termos mais tantos talentos no nosso futebol profissional. Me chamam a atenção os vendedores ambulantes na areia. É fácil perceber quando estão por ali há muito tempo, conhecem todo mundo, são chamados pelo nome, vendem fiado, recebem uma nota alta de dinheiro e devolvem o troco no outro dia. Tem disso, relação de confiança na praia. Em todo lugar onde moro por um tempo, me sinto um local, não me identifico como turista, não estou em férias, sou morador daquele lugar, quero também ter proximidade com os vendedores da praia. Ofereço a sombra do meu guarda sol e uma cadeira para descansarem um pouco, quando aceitam, o papo rola solto, e eu pergunto, quero assunto, quero saber mais sobre a vida do ambulante.
Um momento desses me foi particularmente interessante: um vendedor passou oferecendo bronzeador natural. Sua voz ia muito longe, pois usava um microfone, daqueles minúsculos, com uma haste ajustada à orelha e uma pequena caixa de som pendurada a tiracolo. Falava claro, às vezes colocava uma musiquinha, provavelmente criada por IA, divulgando seu produto. Sentado ao meu lado, aliviando os pés da longa caminhada na areia, me contou que o tal bronzeador natural era fabricado em uma cidadezinha próxima, por uma amiga dele. Fábrica em casa, fórmula não sei de onde, uma mistura de urucum com algum creme ou gel. Me disse que há quase cinco anos vende o tal produto em diferentes praias, vende muito, segundo ele, o bronzeador tem alta aprovação da clientela que experimenta e compra de novo. Percebo que no rótulo só constava o nome do produto, o volume e o telefone de contato do vendedor. Nada de registro ou técnico responsável. Isso não parecia importante, o negócio era vender, e os compradores ficarem contentes com seus corpos pintados de urucum e torrados ao sol.
Só a história do bronzeador já valeria a conversa, porém, a vida do vendedor era mais interessante ainda. Me contou que havia se formado em Direito, mostrou a carteirinha da OAB, que usava como documento, disse que havia feito estágios durante a graduação e que trabalhava eventualmente em um escritório de advocacia de colegas de faculdade. Falava bem, era fácil perceber que tinha intimidade com a área, usava naturalmente termos jurídicos, tenho certa proximidade com esses assuntos, meus filhos são desse universo. O vendedor de bronzeador demonstrava ser apaixonado pelo tema, me falou das diversas áreas do Direito e sobre o que mais lhe atraía: Direito Tributário. Sobre isso falou muito, os cursos que fez, os professores que lhe influenciaram, o seu interesse era visível, seus olhos brilhavam e seu sorriso bonito estava congelado no seu rosto naqueles instantes. O doutor (assim chamados os médicos, os advogados e outros profissionais que nunca passaram perto de um Doutorado!) optou por estudar para concursos públicos, não queria dispersar sua atenção com outra atividade profissional naquele momento. Escolha difícil, caminho árduo. Para poder estudar, organizou sua vida: vende o seu bronzeador natural nas praias pela manhã, à tarde e à noite estuda. O doutor da areia não faz parte do grupo de concurseiros que pode ficar em casa o tempo todo, só estudando, sustentados pelos pais, sem a preocupação de comprar comida ou pagar boletos. Há até os endinheirados que passam a morar em pousadas, lugares próprios para estudar. Os concursos públicos são abertos a todos, porém, conquista as vagas quem consegue somente se dedicar aos estudos, e esses são os poucos privilegiados. O doutor advogado, vendedor de bronzeador, não faz parte desse grupo. Ele se mantém com suas vendas, disse que já vendeu mais de mil frascos de bronzeador em um só mês. Vende pela Internet também. Talvez o bronzeador não seja a melhor opção para a pele das pessoas, mas, certamente, está sendo a opção do doutor da praia, o entendido em Direito Tributário.
Descansado, ele seguiu adiante, com sua caixa de som, um monte de frascos pendurados no ombro, em um suporte de madeira improvisado, descalço. Já era quase meio-dia, logo ele estaria na sua casa na periferia, estudando muito para o concurso. Barreira difícil de transpor, quase impossível, eu diria. Talvez a maior barreira lhe seja a da concorrência desleal entre os concurseiros. Ele não tem o privilégio de poder se dedicar somente aos estudos, o doutor só tem o seu bronzeador, que eu não arrisquei experimentar.












