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Home ARA SÔ

EM TORNO DA MESA REDONDA

DE ANTONIO TROTTA

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
26 de julho de 2026
em ARA SÔ, Destaques
18
EM TORNO DA MESA REDONDA


Em torno das mesas, na casa de meus avós, a gente crescia. A família se encontrava para passarmos o domingo e almoçarmos juntos. Os parentes iam chegando e as mesas sendo ocupadas. Na copa de baixo, ficava a grande mesa retangular que acolhia de dez a doze pessoas. Todas adultas. Na copa de cima, estava a mesa redonda onde se sentavam os mais jovens.
Só ocupávamos a grande mesa quando havia, realmente, um lugar, uma cadeira vazia. Mas, mesmo assim, só iria quem fosse, dentre nós, o de mais idade, o mais velho. Não era impositivo, mas natural, como se cumpríssemos um ciclo normal das coisas. Vivia essa situação quando passava férias em Caxambu e, durante a minha estada na casa de meus avós, percebia que, a cada temporada, o ciclo se modificava. Quando criança, observava que alguns primos mais velhos já não se sentavam mais ali, mas eram convidados a comerem na grande mesa e novas crianças ocupavam os seus lugares na copa de cima. Aquilo me impressionava, pois percebia a vida passando e as pessoas crescendo e tomando assentos diferentes, na família, na sociedade e nos relacionamentos.
Quando criança, a mesa redonda era o meu mundo. Nela as coisas aconteciam e a vida “comia” ali. Alimentava-se de nossos sonhos, brincadeiras, companheirismo e laços de família. Não tinha a visão do que acontecia fora da mesa, mas, apenas, em torno dela e em cima dela.
Ao me tornar adolescente, já participava mais e investia na minha própria independência, fazendo, muitas vezes, o meu próprio prato, além de ajudar os menores com suas refeições. Passei a compreender que o mundo girava não mais e somente em torno da mesa redonda.
Quando me tornei um jovem, sabia que iria, em breve, descer e me assentar à grande mesa. Mas – meu Deus! – quando isto aconteceria? Por qual motivo e de que forma isto iria acontecer? Algumas vezes, cheguei, assim como outros primos e primas, a almoçar na copa de baixo. Mas era porque havia sobrado lugares à mesa. Já era uma batalha ganha, mas não era definitivamente a conquista final. Parecia um ensaio, um experimento, uma prova que acumulava pontos e, a qualquer momento, eu iria descer e não mais subiria. Não como antes.
E os meus primos e primas que ainda não estavam “prontos”? Apesar de uma separação temporária e geograficamente mínima, me dava um certo calafrio deixá-los. Uma, por abrir mão daquela mesa de socialização natural e espontânea que aprendi a admirar e na qual pude criar laços afetivos. Outra, por pensar se eu estaria mesmo pronto para me sentar à mesa com os adultos e me sentir um deles. Tranqüilizei-me ao imaginar que uma vez lá em baixo, nas férias seguintes, talvez, mais alguns iriam me acompanhar. Não era lei, norma ou regra, nem imposição. Tudo acontecia na mais perfeita ordem e felicidade.
Assim, a minha satisfação foi quando fui convidado, na maior naturalidade, para passar da mesa redonda, na copa de cima, para a mesa grande, na copa de baixo. Eu me senti sendo chamado a conquistar o mundo.

Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg

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Comentados 18

  1. Benedito Domingos disse:
    3 semanas atrás

    Muito bacana. A vida e seus ensinamentos que por vez se acaba com o tempo.
    Parabéns
    Ass. @papainoelsulmineiro

    Reply
  2. Elaine das Graças Frade disse:
    3 semanas atrás

    Trotta o simbolismo das mesas e suas formas remeteu-me a minha infância, quantas trocas e aprendizados.

    Sucesso colega poeta!

    Reply
  3. Maria Élida Machado disse:
    3 semanas atrás

    Ah…a mesa dos adultos e a mesa das crianças! Acho que essa experiência marcou nossa geração!
    Uma mesa pode provocar reflexão e poesia sob o olhar atento do escritor. Linda crônica!

    Reply
  4. Maria de Lourdes de Freitas moreira disse:
    3 semanas atrás

    Lembro bem dessa fase da minha vida, morávamos em uma fazenda e longe de tudo e de todos, mas as vezes juntávamos com vizinhos e parentes e me lembro dos adultos contando piadas, todos sentados nos bancos de madeira e até encima do fogão a lenha, minha mãe como era uma excelente quitandeira, tínhamos sempre muita broinha, rosquinha e biscoito de polvilho e muita proza!

    Reply
  5. André Esper disse:
    3 semanas atrás

    Querida família, chega o momento do aconchego: de nutrir a alma, renovar as energias, viver o afeto, expressar o verdadeiro amor, compartilhar a vida e doar-se. Cada instante ao lado de vocês é um presente que se transforma em memórias eternas, moldando nossa existência e fortalecendo nossos laços. Obrigado por serem a base, o refúgio e a inspiração da minha jornada.

    Reply
  6. Pedro Donizetti Ribeiro disse:
    3 semanas atrás

    Em situação parecida, minha família não possuía mais que uma copa, e a única mesa disponível era reservada para os avós e os pais. Por vezes, um tio ou tia se juntava trazendo mais uma cadeira. Os filhos e primos se espalhavam com seus pratos pela sala ou pela varanda. E a vida ia se concretizando para os adultos e se rascunhando com as crianças. E entre essas duas versões de vidas, a.palavra imperava formando ideias e opiniões sobre tudo, sobre todos.

    Reply
  7. Cilene Arnaut disse:
    3 semanas atrás

    Que crônica, amigo! Enquanto saboreava essas memórias tão suas, conectei-me profundamente com minhas próprias experiências. Parabéns pela escrita sensível,forte e linda!

    Reply
  8. Margaret disse:
    3 semanas atrás

    A mesa: espaço onde a necessidade biológica da nutrição física se transforma em um ato simbólico de partilha, afeto, linguagem e comunhão humana.

    Reply
  9. ANDREA MARIA DE OLIVEIRA ROCHA disse:
    3 semanas atrás

    Quanta saudades de primos e primas me deu ao ler sua crônica. Os laços familiares feitos em torno de momentos especiais são fortes e carregamos por toda vida. São laços coloridos de alegria, tristezas, estórias e fantasias que vão nos entrelaçando com especiais momentos. Lembranças que nos fortalecem na caminhada.

    Reply
  10. Acir disse:
    3 semanas atrás

    Deliciosas refeição literária. O olhar do poeta traz novas cores para as nossas memórias .

    Reply
  11. Raquel Duarte Silva disse:
    3 semanas atrás

    Seu texto ficou simplesmente maravilhoso! A sensibilidade com que você escreve, a riqueza das palavras e a profundidade da mensagem prendem a atenção do início ao fim. É um privilégio acompanhar o talento de um escritor que consegue tocar o coração das pessoas por meio da escrita. Parabéns por mais esse belíssimo trabalho! Que Deus continue inspirando sua criatividade e abençoando esse dom tão especial.
    Congrats God bless

    Reply
  12. Zelitto Alves Zelitto. Alves disse:
    3 semanas atrás

    Há lugares que nos alimentam sem que percebamos. A mesa é um deles.
    Ao seu redor, o alimento fortalece o corpo, enquanto a presença de quem amamos, uma boa conversa e os pequenos gestos de carinho vão, delicadamente, nutrindo a alma.
    Talvez seja por isso que algumas refeições permaneçam para sempre na memória. Não pelo que havia nos pratos, mas pelo afeto que havia entre as pessoas.
    Em torno da mesa, a vida acontece em sua forma mais simples e, por isso mesmo, mais bonita.

    Reply
  13. Valdéa Dias da Silva disse:
    3 semanas atrás

    Impressionante,como algo tão simples, tornou-se grandioso sob à percepção sennsível do Poeta!Adoro sua maneira simples de tocar os nossos corações.Parabéns!Continuados sucessos.

    Reply
  14. Maria Cassavia disse:
    3 semanas atrás

    Texto maravilhoso, como sempre.
    Levou-me para uma viagem no tempo!
    Um tempo em que ser feliz era muito fácil… Precisávamos de tão pouco.
    Saudades das grandes mesas aos domingos …

    Reply
  15. Ana Elisabeth disse:
    3 semanas atrás

    A mesa é o altar onde nos reunimos ,comemos e bebemos, agradecemos!

    Reply
  16. Vitória de Azevedo disse:
    3 semanas atrás

    Saudade da infância, família grande reunida, adultos na sala de jantar e crianças na copa, muita alegria nas duas mesas, tempo bom, éramos felizes…

    Reply
  17. Simone Mone disse:
    3 semanas atrás

    Muito gostoso ler teus textos… Nos remete a tempos saudosos. Parabéns!

    Reply
  18. Adony Menezes disse:
    2 semanas atrás

    Nutrição de todas as formas…o corpo, a alma e um sonho de ganhar um lugar junto aos adultos como numa sequência crescente e natural… Acredito que muitos de nós aqui vivenciamos algo bem parecido… Na casa da minha mãe nem todos se sentavam á mesa…A criançada se espalhavam se sentando em cadeiras preguiçosas, ou bancos de madeira e até no “rabo” do fogão a lenha, com seus pratos e se fartavam das delícias, felizes… Foi uma época extraordinária e memorável!

    Reply

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