
Em torno das mesas, na casa de meus avós, a gente crescia. A família se encontrava para passarmos o domingo e almoçarmos juntos. Os parentes iam chegando e as mesas sendo ocupadas. Na copa de baixo, ficava a grande mesa retangular que acolhia de dez a doze pessoas. Todas adultas. Na copa de cima, estava a mesa redonda onde se sentavam os mais jovens.
Só ocupávamos a grande mesa quando havia, realmente, um lugar, uma cadeira vazia. Mas, mesmo assim, só iria quem fosse, dentre nós, o de mais idade, o mais velho. Não era impositivo, mas natural, como se cumpríssemos um ciclo normal das coisas. Vivia essa situação quando passava férias em Caxambu e, durante a minha estada na casa de meus avós, percebia que, a cada temporada, o ciclo se modificava. Quando criança, observava que alguns primos mais velhos já não se sentavam mais ali, mas eram convidados a comerem na grande mesa e novas crianças ocupavam os seus lugares na copa de cima. Aquilo me impressionava, pois percebia a vida passando e as pessoas crescendo e tomando assentos diferentes, na família, na sociedade e nos relacionamentos.
Quando criança, a mesa redonda era o meu mundo. Nela as coisas aconteciam e a vida “comia” ali. Alimentava-se de nossos sonhos, brincadeiras, companheirismo e laços de família. Não tinha a visão do que acontecia fora da mesa, mas, apenas, em torno dela e em cima dela.
Ao me tornar adolescente, já participava mais e investia na minha própria independência, fazendo, muitas vezes, o meu próprio prato, além de ajudar os menores com suas refeições. Passei a compreender que o mundo girava não mais e somente em torno da mesa redonda.
Quando me tornei um jovem, sabia que iria, em breve, descer e me assentar à grande mesa. Mas – meu Deus! – quando isto aconteceria? Por qual motivo e de que forma isto iria acontecer? Algumas vezes, cheguei, assim como outros primos e primas, a almoçar na copa de baixo. Mas era porque havia sobrado lugares à mesa. Já era uma batalha ganha, mas não era definitivamente a conquista final. Parecia um ensaio, um experimento, uma prova que acumulava pontos e, a qualquer momento, eu iria descer e não mais subiria. Não como antes.
E os meus primos e primas que ainda não estavam “prontos”? Apesar de uma separação temporária e geograficamente mínima, me dava um certo calafrio deixá-los. Uma, por abrir mão daquela mesa de socialização natural e espontânea que aprendi a admirar e na qual pude criar laços afetivos. Outra, por pensar se eu estaria mesmo pronto para me sentar à mesa com os adultos e me sentir um deles. Tranqüilizei-me ao imaginar que uma vez lá em baixo, nas férias seguintes, talvez, mais alguns iriam me acompanhar. Não era lei, norma ou regra, nem imposição. Tudo acontecia na mais perfeita ordem e felicidade.
Assim, a minha satisfação foi quando fui convidado, na maior naturalidade, para passar da mesa redonda, na copa de cima, para a mesa grande, na copa de baixo. Eu me senti sendo chamado a conquistar o mundo.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg












Muito bacana. A vida e seus ensinamentos que por vez se acaba com o tempo.
Parabéns
Ass. @papainoelsulmineiro
Trotta o simbolismo das mesas e suas formas remeteu-me a minha infância, quantas trocas e aprendizados.
Sucesso colega poeta!
Ah…a mesa dos adultos e a mesa das crianças! Acho que essa experiência marcou nossa geração!
Uma mesa pode provocar reflexão e poesia sob o olhar atento do escritor. Linda crônica!
Lembro bem dessa fase da minha vida, morávamos em uma fazenda e longe de tudo e de todos, mas as vezes juntávamos com vizinhos e parentes e me lembro dos adultos contando piadas, todos sentados nos bancos de madeira e até encima do fogão a lenha, minha mãe como era uma excelente quitandeira, tínhamos sempre muita broinha, rosquinha e biscoito de polvilho e muita proza!
Querida família, chega o momento do aconchego: de nutrir a alma, renovar as energias, viver o afeto, expressar o verdadeiro amor, compartilhar a vida e doar-se. Cada instante ao lado de vocês é um presente que se transforma em memórias eternas, moldando nossa existência e fortalecendo nossos laços. Obrigado por serem a base, o refúgio e a inspiração da minha jornada.
Em situação parecida, minha família não possuía mais que uma copa, e a única mesa disponível era reservada para os avós e os pais. Por vezes, um tio ou tia se juntava trazendo mais uma cadeira. Os filhos e primos se espalhavam com seus pratos pela sala ou pela varanda. E a vida ia se concretizando para os adultos e se rascunhando com as crianças. E entre essas duas versões de vidas, a.palavra imperava formando ideias e opiniões sobre tudo, sobre todos.
Que crônica, amigo! Enquanto saboreava essas memórias tão suas, conectei-me profundamente com minhas próprias experiências. Parabéns pela escrita sensível,forte e linda!
A mesa: espaço onde a necessidade biológica da nutrição física se transforma em um ato simbólico de partilha, afeto, linguagem e comunhão humana.
Quanta saudades de primos e primas me deu ao ler sua crônica. Os laços familiares feitos em torno de momentos especiais são fortes e carregamos por toda vida. São laços coloridos de alegria, tristezas, estórias e fantasias que vão nos entrelaçando com especiais momentos. Lembranças que nos fortalecem na caminhada.
Deliciosas refeição literária. O olhar do poeta traz novas cores para as nossas memórias .
Seu texto ficou simplesmente maravilhoso! A sensibilidade com que você escreve, a riqueza das palavras e a profundidade da mensagem prendem a atenção do início ao fim. É um privilégio acompanhar o talento de um escritor que consegue tocar o coração das pessoas por meio da escrita. Parabéns por mais esse belíssimo trabalho! Que Deus continue inspirando sua criatividade e abençoando esse dom tão especial.
Congrats God bless
Há lugares que nos alimentam sem que percebamos. A mesa é um deles.
Ao seu redor, o alimento fortalece o corpo, enquanto a presença de quem amamos, uma boa conversa e os pequenos gestos de carinho vão, delicadamente, nutrindo a alma.
Talvez seja por isso que algumas refeições permaneçam para sempre na memória. Não pelo que havia nos pratos, mas pelo afeto que havia entre as pessoas.
Em torno da mesa, a vida acontece em sua forma mais simples e, por isso mesmo, mais bonita.
Impressionante,como algo tão simples, tornou-se grandioso sob à percepção sennsível do Poeta!Adoro sua maneira simples de tocar os nossos corações.Parabéns!Continuados sucessos.
Texto maravilhoso, como sempre.
Levou-me para uma viagem no tempo!
Um tempo em que ser feliz era muito fácil… Precisávamos de tão pouco.
Saudades das grandes mesas aos domingos …
A mesa é o altar onde nos reunimos ,comemos e bebemos, agradecemos!
Saudade da infância, família grande reunida, adultos na sala de jantar e crianças na copa, muita alegria nas duas mesas, tempo bom, éramos felizes…
Muito gostoso ler teus textos… Nos remete a tempos saudosos. Parabéns!
Nutrição de todas as formas…o corpo, a alma e um sonho de ganhar um lugar junto aos adultos como numa sequência crescente e natural… Acredito que muitos de nós aqui vivenciamos algo bem parecido… Na casa da minha mãe nem todos se sentavam á mesa…A criançada se espalhavam se sentando em cadeiras preguiçosas, ou bancos de madeira e até no “rabo” do fogão a lenha, com seus pratos e se fartavam das delícias, felizes… Foi uma época extraordinária e memorável!