
Quando menino, no inverno de Itajubá, o vento me atormentava, pois, além de forte, era frio. Ao sair às ruas para brincar ou ir à escola, dava de frente com ele e era preciso encará-lo. O vento batia gelado e, logo, o meu rosto parecia endurecer, minhas mãos ficavam frias e doloridas. Quando íamos em bando para a escola, corríamos para fugir do frio e, ao mesmo tempo, esquentar o corpo. Às vezes, conseguíamos enganar o frio, mas não o vento. Esse batia de frente, na ida; e nas costas, na volta. Do inverno até que sempre gostei, mas preferia que viesse sem ventania como complemento de estação.
A cada vez que saía à rua ou passeava pela praça da cidade, o vento parecia me acompanhar e a todos que ousavam desafiá-lo. À época, usava cabelos compridos e crespos. O vento cuidava de enrolá-los ainda mais. Aquilo sempre me incomodou, mais do que as folhas que voavam das árvores ou se levantavam do chão e vinham em nossa direção.
O vento parecia querer brincar com a gente, principalmente com as crianças. Vez ou outra, tinha que sair correndo atrás de algum papel que, literalmente, voava do meu material escolar. Parecia que aquela corrente de ar ficava espreitando a nossa ingenuidade e descuido para, logo, agarrar uma de nossas folhas e fugir com ela: “Vupt!”. Ainda por cima, parecia nos provocar como se dissesse: “ninguém me pega!”. O raciocínio e a rapidez tinham que trabalhar juntos, pois se alguém deixasse o material no chão para correr atrás de uma folha, o vento passava e bagunçava tudo. Se corresse com o material nas mãos, a dificuldade era sempre maior; além do risco de tudo ir para o chão, algumas folhas certamente se levantariam, como as das árvores, e tudo estava perdido.
Lembro-me de que valia tudo: do correr ligeiro para alcançar o papel que começava a voar até pisar em cima dele para não deixá-lo nas mãos do vento. Para quem não tinha uma mochila ou bolsa, a melhor forma era colocar todo o material frente ao peito e segurá-lo com unhas e dentes para evitar usar os pés e o desespero. Quantas provas ao vento, quanto trabalho!!! Depois de todo esforço e da reconquista, risadas surgiam para aliviar o cansaço e a tensão. O inverno ficava por conta do frio, a diversão por conta do vento.
Muitos anos se passaram, cresci e o vento acabou por se acalmar. Cheguei mesmo a sentir sua falta. Acabei, outro dia, comentando com um dos meus filhos sobre o vento forte que vinha com os antigos invernos de Itajubá. De repente, a temperatura muda, a previsão do tempo anuncia uma frente fria para o Sudeste. Já no final do inverno, o frio chega e, com ele, o vento. Saí às ruas, passei pelas praças e curti o vento como um velho amigo que voltou. Parece ser uma visita rápida, mas, por incrível que pareça, sua chegada aqueceu o meu coração de menino.
Antonio Trotta
Jornalista, escritor e poeta
atrottamg














Que texto lindo, Trotta!
O vento sempre derruba folhas à minha frente… Então eu penso: não cai uma só folha da árvore, se não for da vontade de Deus.
Aí chego à conclusão do meu silogismo caboclo: cada folha que cai é a vontade de Deus se cumprindo. Folhas novas virão para dar abrigo aos pássaros e sombra aos que cumprem seu destino de seguir pelas veredas da vida…
Também cresci no Sul de Minas e certamente à época de minha infância o vento era mais presente e meu corpo mais frágil. Era difícil vencer essa luta principalmente porque usávamos uma saia pregueada azul, um palmo acima dos joelhos, regra do Colégio Nossa Senhora do Carmo da ordem das Irmãs Dominicanas.
Era uma luta inglória segurar a dança das pregas que teimavam em bailar e mostrar mais do que deviam!
Um misto de vergonha e desespero tomava conta, mas no fim das contas a gente ria e seguia a caminhada pelas ruas de calcamento pé de moleque testemunhas de um tempo que não voltam mais…
Restam as lembranças e a saudade!
*Calcamento pé-de-moleque
Que tempi bom e gosto. Quanto susto e risadas.
Salve ! O vento leva transformação, para este mundão
Quantos vai e vem e danças de transformar.
Não sei de onde…talvez tenha que procurar nas lembranças de infância…só sei que não gosto de vento! A crônica me lembrou disso: tenho ranço com vento!
Há ventos fortes e frios. Dá medo na gente. Tem brisas boas também.
Vento,ventania,me leve sem destino…
Gostoso sentir o vento no rosto..
As vezes,ele é muito forte,destrutivo até…mas se conversa com o vento,acalma,transforma,eleva -nos a sonhar bem alto,sem limites,apenas no vento…
Qdo criança,brincava com ele nos redemoinhos,nos sonhos,na esperança de um mundo melhor,feliz,com o vento…
Hj elevo os pensamentos,agradecendo pelo vento que sopra,suave,com aromas,com lembrancas,que só ele nos tras
E o vento leva pensamentos e saudades. Muitas vezes traz lembranças de muitos lugares.
Belíssimo texto,,! Que o vento nos toque e nos leve a buscar dentro de nós ,sensações gravadas em nossas memórias e nos traga a brisa de lembranças que nos construíram.
Sim. Vento ventania leve e traga o que for de bom e de aprendizado.
Texto emocionante! Lembrei-me dos meus tempos de criança e adolescência e aquelas ventanias que pareciam câmera lenta no meu rosto é cabelos. Eu amava o vento. Que saudade!
Saudades que o vento leva e traz. Grandes lembranças.
Ventania.
O céu cerrou as cortinas
as nuvens azuladas se esconderam,
terra sem cor tristonha ficou
névoa cinzenta se alastrou.
O vento se sentiu dono
Se entusiasmou ,pôs-se a cantar.
Gosto da bravura do vento
seca depressa a roupa do varal
Rodopia o cabelo da donzela
Leva o chapéu do homem sensato.
Levanta a poeira à beira da estrada .
A janela raivosa, num estrondo
se fecha no seu mundo acolhedor.
A saia da senhora recatada ,
vai subindo de mansinho.
puxa daqui,segura dali,
sem pressa ela vai
sem jeito,sem graça,
vendendo timidez.
A jovem sem pudor
não se atrapalha com vento
deixa ele agir a contento.
Feliz é mesmo o careca ,
que se afeiçoa ao gorro
embarca logo pra casa.
Eu não! Não fujo, nem lamento
Ouço com gosto a sinfonia do vento
cura saudade entorpecida.
É remédio pra dor oculta
sossego pro corpo aflito.
Bendito vento que leva e traz,
papéis sem serventia
flores recém nascidas
Vento que carrega música, só sua.
cheiro e sabor em companhia,
quem ainda não viu
sabor e cheiro no vento.
não assumiu por inteiro,
sua vida ventania.
Alma que viaja em festa.
num instante repousa.
no sonho desejoso ,
a alçar vôo acertado,
no vento furioso de agosto.
29/08/2026
Amigo Trotta, sempre apreciei o vento,que nos pegava desprevenido.
Lindo. Olha só o que o vento nos trouxe, uma bela poesia.
Não gosto do vento. Na minha opinião ele desarruma tudo por mais fraco que seja. Me sinto fraca diante dele e isso me incomoda.
Lembrei da música: Vento Ventania rsrs! Passei minha infância em outra região. Noroeste do Estado de São Paulo…e também enfrentamos ventanias de inverno congelando o rosto e as mãos… São memórias que mesmo desconfortáveis, dão saudade! Ah, o material escolar voando como papagaio ao vento rsrs…também passei por essa maratona de correr atrás da folha de papel apostando corrida com a gente… Que delicia de tempos… Seus relatos são maravilhosos, Trotta…Eles resgatam memórias do fundo do baú. Gratidão Vitalícia
Tantos ventos e lembranças. Saudades que chegam e partem com o vento. Sopro de saudade e esperança.
Eventualmente em alguns momentos, me pego em Algumas lembranças trazidas pelo vento. Um aroma, um som, ou algo que parece me levar de volta no tempo.
Recordações que mexem com o coração e nos provocam sentimentos.
Isso pode ocorrer de tempos em tempos.
De vento em vento vamos vivendo lembranças e saudades. Deixa o vento levar.
Caminhar cedo para a escola no inverno, com muito frio e vento gelado, era um desafio… que me lembro com saudade.
Um bailar de alegria e aprendizado.
Gosto do veto suave que entra pela janela, balança a cortina e refresca!
Parabéns, lindo texto.
O vento para tido lugar. Balança a vida e as memórias da grnte.
Lindo por demais… o vento e seus mistérios