
Toda bengala carrega alguém, mas ela leva também um pouco de charme. Quando garoto, observava o meu avô caminhando com uma delas e achava que aquele pedaço de pau talhado e esguio servia apenas para dar mais robustez àquele homem de terno e chapéu. Era um belo acessório que fazia parte de seu guarda roupa, um elemento a mais ao seu vestuário.
Percebi sua necessidade pelos comentários de meu avô, que clamava de dores nas pernas e fraqueza nas juntas. Ele não saía sem sua bengala. Ela se tornou sua companheira de caminhada. E como andou! Foi seu apoio durante anos. Ao seu lado, o levava para muitos lugares. Era o seu apoio de todas as horas. A mão de meu avô a protegia. Por sua vez, ela o sustentava. Servia de perna, quando as pernas falhavam. Servia de guia, quando o chão parecia faltar. Lá estava ela, pronta para resistir.
Cheguei mesmo a experimentá-la. Dei uma volta em volta da casa para sentir a sua imponência, e ela, a minha satisfação. Era um objeto pessoal, o “amuleto” seguro de meu avô. E eu circulava livremente com ela. Ao andar com a bengala, talvez eu quisesse sentir seus benefícios e ganhar postura; talvez, me tornar aquele homem idoso, do qual, por felicidade do destino, herdei o nome. Então, lá estava eu percorrendo o seu caminho, as suas pegadas, com a satisfação de quem descobre uma nova maneira de andar, de sentir a vida. Partilhei as minhas pernas joviais com uma perna artificial, um galho na vertical, mas que sustentava aquele homem tão admirado e amado.
As pernas de meu avô precisavam daquela bengala. Nós nos apoiávamos naquele homem. Talvez por isso ele precisasse de algo para sustentá-lo, ajudá-lo a manter-se de pé. Para toda a família, ele era o porto seguro, o rochedo, a sustentação. Era nele que nos apoiávamos, era nele que encontrávamos o ombro de um pai, de um avô, de um irmão. Nele as mãos se apoiavam, e ele, firme como a sua bengala, nos levava a bom porto. Seu “amuleto” nos trouxe muita sorte. Ao sustentá-lo, nos sustentava. Ao acompanhá-lo, nos permitiu vivermos juntos, próximos. Caminhamos apoiados um aos outros.
Toda bengala carrega alguém – e alguém carrega a bengala toda – suportando o corpo, apoiando a alma e sustentando o coração cheio de gente.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg














