É comum que as cidades sejam conhecidas pela sua cultura, pelos fatos pitorescos, pela sua economia. Encontramos em outdoors, pelas estradas, dizeres do tipo “capital nacional da maçã”, “capital nacional do feijão”, “da jaca”, do “fumo de corda”, “da rapadura”. Sempre penso sobre quem foram os responsáveis por esses títulos. Ao ir em busca de respostas, só encontro que o título foi definido por lei municipal, ou outra estratégia política, originada na própria localidade. Vemos também letreiros apresentando a cidade como “considerada”, algo grandioso, como “a mais bonita”, “a mais longa”, “a mais tradicional” alguma coisa. Da mesma forma, penso em quem teria dado tamanha “consideração” à cidade. O termo pode ser também “eleito”, como por exemplo, “você está chegando na cidade eleita como a mais…a maior….” Sempre é algo pomposo, é claro! Somente em uma cidade, lembro de um título, reconhecido por todos por lá, que não consta em nenhum outdoor. Confesso que de todos os títulos que vi, andando com a minha casinha rodante, este é o mais curioso: “a cidade da encrenca”, o que não consta em nenhuma placa na estrada.
“Encrenca” pode significar um problema, situação difícil, confusão, intrigas ou fofocas, mas nessa cidade não é nada disso.
A encrenca de lá é uma massinha, lembra um pouco uma casquinha de sorvete, só que mais fininha e crocante, em formato de cone, vendida nas ruas e praças por um vendedor que carrega as encrencas em um latão a tiracolo, que chama os clientes tocando um triângulo. O negócio da encrenca na cidade pertence a uma família, passando de pai para filho, já estando na terceira geração de encrenqueiros. É essa mesmo a denominação de quem fabrica e vende a tal da encrenca. Claro que a receita é guardada a sete chaves. A encrenca já virou patrimônio cultural da cidade. Não há quem não conheça a encrenca por lá. Não há quem, na infância, não tenha corrido atrás do encrenqueiro. Não há quem não goste da encrenca, crocante, docinha. Falo de Cachoeira do Sul, no Rio Grande do Sul, minha cidade natal, a Cidade da Encrenca\. Neste momento, ao escrever, posso ouvir o toque do triângulo, posso sentir no rosto a poeira da minha rua, eu correndo atrás do encrenqueiro e perdendo os chinelos. Sinto o estalar da encrenca na minha boca, sinto sabor de infância.












