
“Ótimo que tua mão ajude o voo…
mas que ela jamais se atreva a tomar o lugar das asas.”
Dom Hélder Câmara
Toda mulher, no dia em que se tornasse mãe, além da criança que acabasse de ganhar, deveria receber um par de asas. Seria um presente simultâneo, quase que acoplado ao bebê. Ou que, no mínimo, viesse acompanhando o enxoval, não importando o tamanho, espessuras, se seriam asas brancas ou coloridas, caras ou baratas, confeccionadas a mão ou fabricadas.
No par de asas estaria todo o simbolismo do fato de que não geramos filhos e filhas para nós mesmos, mas para o mundo, para a continuidade da espécie, para serem livres, capazes de voar e ganhar alturas ousadas; de que temos e criamos filhos para alçarem voos, baterem asas, mirarem o horizonte e buscarem o infinito.
Nossos filhos não são nossos; pertencem à vida, à eternidade; são filhos da humanidade, integrados ao cosmo. São dados, emprestados e até criados por nós, mas pertencem a eles mesmos e a toda evolução; são filhos de uma nova geração que desperta para uma nova trajetória.
Antes de voarem, são entregues a nós para que possamos ajudá-los a se prepararem para conquistar grandes voos. Voos maiores que os nossos, talvez, do tamanho dos voos dos nossos sonhos. Com coragem, devemos dar a eles toda educação necessária para estarem prontos. Para que, no dia em que saírem de casa, saibam que tiveram um lar e que será preciso, através de suas investidas, começarem a construir seus próprios ninhos.
Ao pai, à mãe e a toda família, o par de asas iria lembrar, desde a mais tenra idade, que um dia aquela criatura vai crescer, terá que voar e, portanto, precisará, desde muito jovem, aprender as técnicas de voos. E que, também, nós temos, como pais, uma missão a cumprir.
Quando já no recolhimento das saudades, iremos descobrir que há duas verdades: a primeira é que aquele par de asas existia para ajudar no voo, na hora da partida. A outra é que aquele par de asas também simbolizava o anjo que, certamente, protegeu e ajudou os pais a cuidarem de cada filho a cada momento, por todos esses anos.
Talvez, no dia em que fossem embora para estudarem fora, trabalharem, se casarem ou por qualquer outro motivo, a dor da separação fosse menor, menos aguda, mais abrandada. No abraço, nas emoções, nas lágrimas, na hora da partida, um grande orgulho iria pairar sobre nós, pois, ao darem as costas para nós, veríamos cravado no dorso de cada um deles o par de asas. Aquele mesmo que ajudamos cada filho ou filha a colocar por toda a vida.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg












