Certa vez estávamos, eu e meu marido, à noite, na nossa casinha rodante, falando sobre nosso roteiro para o dia seguinte. Já tínhamos decidido sair para a estrada, precisávamos andar, ir em busca de novos encontros, novas aventuras. Vi que, próximo de nós, havia uma praia de naturismo. Para quem não tem muita proximidade com o termo, pode ser nudismo mesmo. É que naturismo traduz melhor, de forma mais ampla, a cultura, o modo de vida das pessoas que têm uma relação muito própria com a natureza, estando entre seus hábitos, a nudez. Eu, curiosa, convidei meu marido para conhecermos o local. Confesso que a minha ideia era surpreendê-lo, deixá-lo constrangido, pois é pudorento ele. Eu já nasci meio sem vergonha, tratando-se de nudez. Para minha surpresa, meu marido, naturalmente, olhou o mapa e comentou que o acesso era bom, possível de chegarmos até lá de Motorhome. Primeira surpresa do novo destino: meu marido aceitar ficar pelado na frente de estranhos.
Outras surpresas teríamos nessa aventura. Estávamos no estado de Santa Catarina, numa praia conhecida, há muitos anos, como espaço de naturismo. Logo na entrada, entre árvores de copa fechada, havia uma placa indicando que, a partir dali, só era permitida a circulação de gente completamente nua. Nos espaços naturistas não há opção, todos devem conviver, literalmente, despidos de tudo que roupas e adereços possam representar. Colocamos toda nossa roupa na mochila, e seguimos andando entre as árvores, até a areia. Após descermos uma pequena escada rústica, à nossa frente se abriu uma enseada linda, mar e céu azuis, ondas batendo nas pedras, cenário paradisíaco. Para completar a paisagem, lá estavam as pessoas, não muitas, sem aglomeração, nuas. Gente jogando vôlei, sentada na areia, tomando cerveja. Casais de namorados, famílias inteiras, jovens, velhos, em um dia de praia muito semelhante ao da praia dos vestidos. Havia um ou dois quiosques pequenos onde todos, chapeiro, garçons e garçonetes, todos servindo bebidas e petiscos, idas e vindas pela areia, todo mundo pelado. As únicas criaturas vestidas naquela praia eram os salva-vidas, que pareciam estranhos, com suas sungas pretas e regatas vermelhas.
Logo percebi que os corpos não tinham as marcas de biquini e sunga, as bundas e peitos tinham o mesmo bronzeado do restante dos corpos, demonstrando que os frequentadores daquela praia costumavam pegar sol no corpo inteiro, diferente de nós, cujas marcas de sol feitas pelo uso de roupas de banho, denunciavam que estávamos de passagem por ali. Caminhamos com as ondas espumando sob os nossos pés, arriscamos um mergulho, sentamo-nos na areia (sobre uma canga, é claro!). Percebemos que os corpos, além de totalmente bronzeados, também eram totalmente depilados. Outra surpresa! Somente nós apresentávamos nossos pelos pubianos a todos. Estava na cara, e em outras partes, que não éramos dali. Nossos corpos, com marcas de bronzeamento e pelos, declaravam que éramos forasteiros.
Conversamos com um velho pescador, sentado sobre as pedras empunhando a sua vara, a de pesca. Contou-nos que havia mudado para a cidade há poucos anos e que aquela era a única praia que frequentavam, ele e sua esposa. Pescava quase todo dia, virou naturista ele. Se alguém estiver imaginando que os corpos que vimos eram todos lindos, esculturais, malhados, enganou-se. Eis mais uma surpresa: convivemos naquele dia com pessoas peladas de todo tipo, de todas as idades, a maioria com corpos daqueles que se olham no espelho e identificam muitos “defeitos”: rugas, estrias, peitos caídos, pintos moles de todos os tamanhos, barrigas grandes e flácidas, cicatrizes. Tudo à mostra, tudo natural, como deveria ser toda a vida, conforme os naturistas. Uma experiência diferente, uma sensação estranha, um desafio imperdível.
No ano seguinte, lá fomos nós conhecer a praia naturista mais antiga do Brasil, no Nordeste. Para essa nos depilamos, para nos sentirmos um pouco mais integrados ao ambiente…















