
“Virgem tão Serena
Senhora destes povos tão sofridos
Patrona dos pequenos e oprimidos
Derrama sobre nós as tuas graças “
Pe. Zezinho
Quem é essa mulher que apareceu em nossas vidas? Cuidou e preparou as nossas roupas, passando nossas intimidades, assim como nossas conversas e prosas? Por certo, já havia feito de tudo e trabalhado em múltiplas residências para ganhar o dia e o pão que – com orgulho de mãe – ofertava aos seus dois filhos. Das prováveis profissões, uma conhecíamos bem, a de passadeira. Não tinha dia certo, apenas a necessidade dela fazia com que, de repente, lá estivesse dona Aparecida.
Surgia do nada e se alvoroçava na lida de passadeira de pilhas de roupas.
Vinha e passava as roupas e o dia na casa de meus pais. Chegava falante e contando os seus problemas e suas preocupações. Minha mãe a ouvia atentamente e repetidamente as mesmas conversas. Antes de começar o serviço, numa brecha entre um café com pão e manteiga ou pedaço de bolo, minha mãe arriscava dar um palpite àquela senhora negra, já velha e visivelmente com o rosto cansado. Dos conselhos recebidos, ela sempre demonstrava sabedoria em afirmar que seguiria tais sugestões.
No final do dia, partia, deixando a certeza de que voltaria logo, no seu tempo, e desaparecia, agradecida pelo que levava na sacola e pelos conselhos recibos de minha mãe. Tudo parecia encaminhado e resolvido, até que ela aparecesse novamente.
Seu orgulho era único – os filhos. Seu amor e devaneio pelos filhos tornavam sua vida melhor, maior e fazia-nos imaginar um futuro diferente para eles. Para ela, os passos deles eram de gigantes e seus gestos tão nobres e grandes que sempre acalentava e orgulhava o coração de mãe. Falava deles como pudesse transportá-los para um conto de fada com uma vida feliz e próspera. Felicidade conquistada desde já, no trabalho, na escola, na família e não na última cena, de apenas um final feliz.
Realmente, Dona Aparecida tinha uma vida difícil… suada. Vivia entre uma “patroa” e outra e entre pilhas de roupas, na labuta do controle de um ferro elétrico para sustentar a família. Sua fala era constante, sua risada forte e segura como que aproveitasse para rir do mundo, da vida, do seu próprio destino.
Ouvinte assídua das conversas e discreta com o movimento da casa, trazia apenas à tona suas preocupações e seus problemas, descarregando tudo contra aqueles que eram sujeitos de suas estórias. Era capaz de brigar com Deus e com o mundo quando provocada ou ameaçada.
Dona Aparecida passou a vida lutando, passou a vida passando. Ela acabou por passar da vida para a morte. Foi pega por um câncer que abateu aquela senhora forte e de fala grossa. Abatida, não luta mais na sua labuta de passadeira. Seu suor e seu esforço serão, certamente, recompensados e recomeçados em outras passagens, por outras pastagens, num lugar onde corre leite e mel. Lá, sua vida, como a de todos nós, será passada a limpo, e repassada pelo fogo que, com brandura, purifica.
Feliz passadeira que passou roupas, que passou a vida passando!
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg













Primeiro emprego meu. Esse texto destaca a vida de muitas pessoas na nossa vida . Até nós mesmos. Pois estamos aqui pra servir e ser servidos e não esquecer de agradecer.
Parabéns ao texto excelente!
Grato. Verdade. Estsmos, todos, a serviço de alguém.
Linda crônica para suavizar a vida dessa mulher negra, velha!
E de rsntas outras que se sacrificaram em prol dos seus. Vida simples e cheia de lições.
Bom dia meu amigo poeta
Um conteúdo simples no contexto, mas de uma profundidade ímpar na riqueza de detalhes descrito…o dia a dia de muitas mulheres que passaram suas vidas a servir e também serem servidas. O dia a dia corre entre falar, ouvir, trabalhar e amar…amar uma boa conversa, uma boa comida, uma casa limpa e cheirosa. Porque para amar o que faz, …não necessariamente pela necessidade, mas o prazer em se sentir útil. Terminar o dia e ter a certeza de dever cumprido. Isto vale para qualquer profissão desempenhada…no final SOMOS todas mulheres que buscam sua Luz
Sim. Há sempre um aprendizado em cada pessoa. Basta reconhecer sua importância e dar a ela oportunidades e uma vida digna.
Seja passadeira, cozinheira,
lixeiro,
servente de pedreiro,
doutor ou pastor,
enfim seja o que for,
cada um tem seu valor,
inclusive e não menos importante
o escritor.
Parabéns @trotta showwww demais
Grato, meu caro. Realmente, não importa a profissão. Todos tem algo a nos ensinar além de seu trabalho.
Tive sim. Dona Ana! Baiana, preta, senhora! Tinha uma pequena roca com ela e tecia. Morava na minha casa. Fazia comida, lavava e passava a roupa! Ficou conosco por muitos anos e minha mãe depois cuidou dela até sua partida! Rezava, passava cuidando! Sou grata demais!
Legal. Companhia. Chega a fazer parte da família.
A vida é interessante….
Hoje observo que desde que me lembro, da infância até hoje, muitas PESSOAS passaram e digo, a maioria passaram por mim para ensinamentos!!
As experiências que na hora não foram boas, me trouxeram entendimentos para a vida, e as experiências boas, me trouxe que nem tudo é ruim…Por fim TODAS FORAM ESPECIAIS PARA MIM, e agradeço a cada uma de VOCES!!!
Verdade. O que não for aprendizado é ensinamento ou livramento. Muitas lições são tiradas e vividas.
Me deu saudades dessa profissional tão pouco reconhecida.
Pois é. E que são tão importantes na vida da gente. Todos comprem uma missão, por mais simples que seja.
Eu me lembro muito bem da nossa querida “Sá Eilsa”. Senhora gorda, de cabelos longos sempre amarrados em coque seguros por grampos.
Roupas branquinhos décadas rm varais sustentados por bambu. Na fazenda era ferro de brasa retiradas do fogão à lenha.; já na cidade,era o ferro elétrico. Mesa forrada com cobertor e um lençol , Vinha ela com uma marmita com água e um paninho dobrado para umedecer a roupa que ao passar o ferro , as linhas e dobras do pano davam adeus.
Foi assim que aprendi com ela ser uma exímia passadeira.
Boas lembranças e grandes aprendizados. Ela passou o wue Sabia para vc passar. Bela história.
Uau! Lindo texto!
Grato. Bom que gostou Clarissa. Uma vida dedicada e delicada.
Eu conheci uma pessoa muito especial. Que marcou minha vida e até hoje choro sua falta.
Ana. Simplesmente Ana. Nao tinha um sobrenome. Os escravos nao o possuíam. Um nome lindo como a doçura da pessoa que foi. Morreu com 108 anos. Nasceu escrava. Poucos dias antes da libertação. Morria de medo da minha bisavó, mas Ana era a minha avó. Deixava os biscoitos de polvilho queimar so porque eu gostava deles assim. Podia dormir na cama de colchão de palha dela. Brincar no quintal e sujar a roupa a vontade. Foi a melhor faze da minha infância. Achava que televisão era coisa do diabo. “Gente nao cabe dentro de caixa ” rsrsrs. Quanta saudade. Podia contar todas as minhas trapalhada pra ela. Nunca ouvia uma bronca. So conselhos. Quantas saudades e quanta coisa poderia contar sobre ela. Um anjo. Morreu quietinha, miudinha, com a cabeça boa. Subiu como um anjo…
Que histórias maravilhosas. Quanta coisa boa. Ana, realmente tinha asas, um belo para de asas. Vc é uma menina de sorte por viver ao lado dela.
Fantástico Poeta Antonio Trotta!!
Há mulheres que passam pela vida sem fazer barulho. Constroem a identidade pela delícia de viver. Mas ela sabia que havia algo mais profundo nessa simplicidade. Ela carregava histórias. E carregar histórias, se confunde com alegria, tristeza, vida e morte. Mulheres assim, tornam nosso mundo mais humano e nunca terminado, nunca se despedem…de forma enesquecivel, elas apenas são chamadas para um novo começo!
Parabéns Trotta!!!
Verdade. São pessoas que somam, mesmo quando somem de nossos olhos, mas permanecem vivas em nosso olhar. Grato.
Conheço muito bem dona Aparecida! Era minha mãe
Apenas dois detalhes dessa rotina eram diferentes: minha mãe, além de passar, primeiro lavava as roupas!
Minha mãezinha não teve câncer…
Teve Alzheimer
Antes disso ela fez das minhas 10 irmãs e de mim quem hoje sou
Que linda história de alguém que deixou suas marcas em tantos dos seus. Vida longa à quem vive dentro da gente.
Belo texto, Trotta. Dona Aparecida fica viva nas suas palavras. O fecho ‘passou a vida passando’ é daqueles que ficam. Parabéns pela homenagem.
Grato. Sim. Vive em nós. De.uma vida sofrida, uma história que nos enche de orgulho, não pelo sofrer, mas pelo que ela vez com o viver.
Trotta, parabéns por retratar a história comovente de D Aparecida, que retrata muitas entre as mulheres brasileiras, que necessitaram de lutar com dignidade por o sustento de cada dia. O texto me remeteu a algumas mulheres que trabalharam na minha casa e com as quais convivi, cada uma com sua particularidade, ma que infelizmente, também possuíam uma trajetória semelhante. Meu pensamento se volta para um mundo mais gratificante para as mesmas, em que o sofrimento seja amenizado por uma condição social mais favorável. Viva as mulheres!!!
Texto excelente!
Parabéns Trotta