
Meu pai é daqueles italianos que, além de saborear uma boa macarronada, se alimenta de uma boa conversa. Sou o quarto de uma família de seis filhos, e, na casa de meus pais, é raro encontrar poucas pessoas à mesa.
Pai provedor, nunca deixou faltar. Apesar das dificuldades e de uma vida sacrificada, na labuta diária, estávamos todos em torno da mesa para provar do esforço e da esperança de uma vida digna, dedicada à família.
Cresci rodeado de irmãos, parentes e amigos que vinham de tantos lugares se sentar à mesa e conviver conosco durante horas; às vezes, dias; muitas vezes, anos. Além de mais um prato e uma cadeira, o quarto ganhava mais uma cama e se partilhavam todas as outras coisas, até mesmo a atenção, o tempo e a preocupação de meus pais. A casa estava sempre habitada e provida.
Além da mesa, a música sempre foi uma paixão de meu pai. Nos finais de semana, os discos de vinil ou as fitas cassetes cantavam soltos para quem quisesse e não quisesse ouvir. Aos sábados, ao chegar em casa, colocava as músicas e entrava no banho. Todos, sem exceção, escutavam os cantos italianos ou o romantismo brasileiro das décadas de 50 e 60. No domingo, o musical acontecia na parte da manhã, antes do almoço. Meu pai ligava o som e acompanhava as melodias. Quando alguém, por ordem de minha mãe, gritava a famosa e esperada frase: “está na mesa!”, meu pai desligava o som e íamos comer “em silêncio”, pois o assunto do momento era a vida. E essa corria solta entre molhos, macarrão, berinjela à parmegiana e quem em volta da mesa estivesse.
Cresci, ouvindo cantores e compositores como, Lamartine Babo, Vicente Celestino, Francisco Alves, Orlando Silva, Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves, Cartola, Ary Barroso, Noel Rosa, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas, Pixinguinha, Dolores Duran, Nelson Gonçalves, Dorival Caymmi, Luiz Vieira e tantos outros. Hoje, tenho minhas preferências musicais, mas nada que fuja ao romantismo e às paixões, principalmente aquelas recheadas de poesias. Pura influência de meu pai – sou um gourmand romântico. Sobre mesa e música aprendi em casa, junto da minha família, tendo o meu pai como maestro. Mestre na comida italiana, foi ele quem deu o ritmo e o tempero e fez de minha mãe uma “mamma” na cozinha. Encantado com as músicas, ele nos encantou (creio que aos meus irmãos também, principalmente o caçula) e nos alimentou com canções apaixonadas.
O Dia dos Pais se aproxima. Vou aproveitar e almoçar com o meu pai uma saborosa macarronada, feita por ele mesmo e beber um bom vinho. Mas, antes, vou presenteá-lo com mais um CD, já que ele aposentou os vinis. E vamos juntos, ele, eu e os netos, ouvir mais uma de “suas” canções favoritas. Depois, vamos todos à mesa.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg














