Adoro a cultura popular. Por onde passamos, sempre há histórias, lendas, mistérios. Gosto de assuntar para ficar sabendo o que a população local já sabe. São histórias de ET, abduções, lobisomens, santos populares, desaparecimentos misteriosos, crimes não solucionados. Quanto mais maluca a história, mais me atrai.
E não fico só com uma conversa, puxo o assunto com diferentes moradores, a fim de reafirmar o senso comum. Afinal, sou uma viajante investigativa, caçadora de curiosidades, ou só metida mesmo. Em uma morada em Curitiba, ouvimos sobre uma tal santa popular. Tratando-se de uma cidade grande, o melhor jeito de confirmar a história foi buscar na Internet. E lá estava ela, a Maria Bueno, a santinha de Curitiba.
Consta que era uma menina, sétima filha de imigrante espanhol e uma cabocla. Diz a lenda que entre sete filhos, há sempre um com poderes sobrenaturais ou algo do gênero. Como de hábito entre as famílias no século XIX, as meninas eram enviadas para viverem em conventos, como ocorreu com Maria Bueno. Parece que ela não era muito disciplinada, não a suportaram muito tempo por lá. Há duas versões sobre o seu destino: ou teria sido levada para cuidar de um casal de idosos na cidade ou fora morar com uma irmã mais velha que estava grávida e Maria Bueno cuidaria do bebê. Em ambos os destinos, Maria Bueno virou amante dos donos da casa. Formou um trisal com os idosos dos quais cuidava, fato que era conhecido por todos nas redondezas. Se na casa de sua irmã, teria vivido maritalmente com seu cunhado.
Hoje penso que, em ambos os casos, ela teria sido abusada, mas isso não consta em nenhuma história, só nos meus pensamentos. Quando adulta, Maria Bueno morou sozinha e lavava roupas “para fora”. Era muito namoradeira, gostava de ir a bailes, namorava um soldado, mas parece que se deitava com muitos. Certa vez, o tal namorado estava de serviço no quartel e não pôde acompanhá-la a um baile. Ela, ousada como era, foi sozinha. Ele, enciumado, fugiu do serviço no meio da noite, encontrou a namorada no caminho de volta do baile e a matou, degolada! Ele, réu confesso, nunca foi punido, afinal, o crime fora uma questão de honra. O corpo de
Maria Bueno ficou estirado no chão, sangrando sempre, o sangue nunca secava, fato ao qual foi atribuída a sua santidade. As pessoas passaram a acender velas e colocar flores no local. As velas não se apagavam e as flores não murchavam. Virou santa popular a namoradeira de Curitiba! No local do crime ela foi enterrada e o túmulo sinalizado com uma grande cruz de madeira, virando santuário.
Com o crescimento da cidade, o túmulo foi transferido para o Cemitério Municipal São Francisco de Paula. Claro que fomos até lá. Vimos uma grande capela azul em destaque no cemitério. No local há centenas de plaquinhas com agradecimento por graças alcançadas, a mais antiga que identificamos é de 1955 e a mais recente, de 2024. Passeando pela avenida Vicente Machado, no centro de Curitiba, onde tudo ocorreu, refaço em pensamento essa história, quase consigo ver Maria Bueno no chão.
Em Curitiba, a cidade do sistema de transportes avançado, a cidade dos lindos parques, das ruas limpas, há uma santa venerada por seus milagres. Uma santa ousada, uma mulher sozinha, que, parece, fazia a alegria dos patrões nas casas onde viveu e dos muitos soldados com os quais se deitou. Gostei da santinha de Curitiba, gosto das pessoas ousadas e das histórias interessantes. Gostei mais que essa história é de Curitiba, da sisuda e comportada Curitiba!















Sempre há bons causos para se contar por todos os lugares. Agora, Santa namoradeira é a primeira vez que ouvi falar. Sua morte foi triste.
Não há o que não haja! Assim falava meu pai…kkkk
Eu sigo de olho e registrando!
Adoro ler as duas histórias!!Assim viajamos juntos!!!
Muito obrigada!!!
Um grande beijo!!
Obrigada! Vamojuntooooo…
Amo o teu jeito simples, de narrar as coisa simples das tuas viagens.. Ao lê _las, pareçe que estou ouvido as pessoas, como também vendo_as, com uma realidade assombrosa. Parabéns
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Querido, que comentário delicado! Fico honrada! Obrigada!
Muitos devotos agradecidos a namoradeira por graças alcançadas.
Muitos agradecimentos vimos por lá…
Sempre é bom escutar e ler histórias.
Aqui tem muitas! Continua conosco aqui no Exempplar!
Ainda vou aproveitar seus “causos” para escrever um conto. Maravilhoso! Sua narrativa é fluída, uma delícia!
Vamboraaaaa…obrigada por estar conosco aqui no Exempplar!
Na expressão lavar pra fora pode-se acrescentar sua parente, dormir pra fora…
Parece que Maria Bueno lavava e dormia “pra fora”…
E parece que fazia bem as duas coisas! Virou santa!
Essas Santas populares locais são histórias muito interessantes. Me lembrou a Maria Degolada em Porto Alegre. São também uma maneira de honrar a vida de mulheres que ousaram ser livres em sociedades tacanhas…
Ousada ela! Adorei a história!
Tbm lembrei desta.
Eu visitei o túmulo da Maria Degolada era bem simples e pobre qdo fui lá.
Fiz um pedido.
Não sei se foi ela que atendeu mas se concretizou
É possível crer que foi uma graça alcançada!
Gostei da história. muito dada essa menina de Curitiba.bjs
Muuuuuito dada a santa! Humana, gostei!
Pobre Maria Bueno, naquela época o crime contra honra era permitido. A sociedade não entendia como uma coisa errada. Uma cultura que veio se estendendo até os dias de hoje, infelizmente, para alguns … Quantos casos de feminicídios temos visto por aí…
Feminicidio é um dos absurdos da sociedade em que vivemos! Ainda hoje…parece inacreditável!
Eu tive o mesmo pensamento sobre os abusos… E também penso que se era mesmo fogosa, estava a frente do seu tempo em se mostrar, em ser livre.
Naquele tempo, matar mulher não tinha nome, não tinha lei de proteção e a culpa era da vítima. Crime normalizado! E hoje, temos lei, nome femenícidio e ainda assim, muitos querendo normalizar e sempre culpar a mulher. E a nossa santidade, acho, é de nascença!
A santinha de Curitiba desafiou as regras sociais, foi ousada! Foi morta por isso…
Ainda hoje isso acontece…inacreditável!
Gostei!
Mas tem alguém que responde aos pedidos.
Pode não ser ela ,mas que tem alguém responsável e bem quisto com os cara lá de cima ou lá de baixo ,áh, isto tem.
Também acho!