Sempre visitamos mercados públicos por onde passamos. Nas capitais sempre há um, nas cidades portuárias também. Não me atrevo a discorrer sobre a história dos mercados públicos, mas sobre o que as visitas a eles me provocam. Ao circular nos mercados, é possível sentir que surgiram em função do comércio de pescados, como também deveriam ser o principal ponto de comércio de mercadorias que chegavam através das águas do mar ou dos rios. O vai e vem de trabalhadores carregando caixas de produtos remete-me às suas origens. Imagino o chão ao redor levantando poeira com a chegada de carroças, imagino as madames circulando com seus vestidos longos, cheios de saias, arrastando no chão e carregando na sua barra, terra, lama e cheiro de peixe, por certo. Os prédios dos mercados públicos são lindos, muitos tombados como patrimônio histórico. São construções grandes, de estilo eclético do final do século XIX e início do século XX, têm amplos vãos livres, vitrais e claraboias que permitem a ventilação natural.

Alguns continuam isolados, com grandes pátios que servem de estacionamento, outros estão circundados pela arquitetura urbana, até com prédios espelhados ao lado. De norte a sul do Brasil, os mercados públicos são muito parecidos. Além de peixes e produtos in natura como carnes, frutas e hortaliças, há artesanato local e até produtos industrializados. Os mercados públicos são destinos turísticos conhecidos, oferecem todo tipo de lembrancinhas como camisetas, chaveiros, quadrinhos, imãs de geladeira e confecções. Restaurantes e botecos também a gente encontra muito. É possível perceber a incorporação, nos mercados públicos, de bancas de bugigangas como brinquedos, bichinhos de pelúcia, capinhas de celular. Cruzes! Nessas nem paro, para mim destoam do ambiente geral. Os tipos característicos desses locais me encantam. Gosto das abordagens feitas ao longo dos corredores pelos vendedores das bancas, alguns ficam a frente dos seus estabelecimentos, outros na parte interna dos balcões. Aqui ou ali, todos gritam, chamam os clientes, oferecem degustação. Quase somos puxados pelo braço e, se aceitarmos todas as provinhas que nos são oferecidas, ao final do passeio poderemos ter indigestão. É um tal de pedaço de fruta, sempre a mais saborosa, castanha, salame, queijo, cachaça, tira-gosto frito de todo tipo. Os vendedores e suas estratégias de venda me chamam a atenção, são super criativos, alguns cantam musiquinhas autorais, outros gritam frases conhecidas do tipo “aqui moça bonita não paga…mas também não leva”. Os cardápios dos restaurantes quase batem no nosso rosto, mas não me incomodo, penetro no ambiente, respondo aos apelos e às brincadeiras, recuso, agradeço. Compras mesmo fazemos pouco. Na nossa vida viajante, não cabem mais lembrancinhas ou obras de artesanato, porém, saímos sempre dos mercados, com algum queijo, castanhas, doce e alguma fruta local. Os preços nos mercados públicos não são os mais baratos, acho que ficou para trás a condição em que os próprios pescadores vendiam seu pescado ao voltarem do mar, o próprio artista produzia e vendia ali mesmo seu artesanato.
Acho que, em tempos idos, essa condição possibilitava menores preços, o que não mais ocorre. Os lindos e históricos mercados públicos também foram engolidos pelo tal mercado, aquele outro, que dita as normas das relações comerciais e trabalhistas. Prefiro não pensar nisso agora, fantasio, escolho a agradável sensação de estar entre produtores e artistas locais, escolho acreditar que a fruta que me foi oferecida é a mais doce, que é o próprio pescador que me vende o peixe que pescou na madrugada, que o queijo que levo foi produzido ali pertinho pela família do vendedor que me aborda. Mergulho no ambiente, observo, fantasio! Fantasio também nos mercados públicos. Fantasio… às vezes é preciso!













