
Ser filho do meu pai me fez ser pai do meu filho. Se “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”, então não há nada de extraordinário, a menos que eu não tivesse filhos. A vida não anda em ciclos, mas carrega certas heranças genéticas e comportamentais que aprendemos a aprender quando filhos e passamos a ensinar quando nos tornamos (também) pais.
Certas lições, aprendemos de cor; outras, a vida do pai ensina. De poucas palavras, meu pai não tinha rodeios quando precisava dizer alguma coisa. Homem enérgico, muitas vezes, descarregava essa energia em nossas teimosias ou estripulias. Doía, mas o tempo e o afago da mãe remetia a questão para o aprendizado e a educação. A vida corria em volta da casa, da mesa, das saias da mãe e do trabalho de meu pai. Trabalhava duro, ainda labuta muito, mas já tem os filhos criados.
“Éramos seis” filhos; hoje, nos multiplicamos em muitos. Somos uma mistura de uma grande família com uma família grande de netos, netas, noras e genro. Meu pai tem estatura alta, o que nos deu um certo porte de gente que veio do Hemisfério Norte, mas que cresceu e viveu no Sul. O pai do meu pai não conheceu os netos; na ordem inversa, os filhos de meu pai não conheceram o avô paterno. Por uma arrumação do destino, fui o único a conhecer o pai de meu pai. Em vida. Em carne e osso, pelos caminhos da Providência. Uma alma boa, cheia de saudades do filho que, um dia, lançou-se ao mar. Meu avô reviveu, no filho do seu filho, um pouco do que, um dia, germinou em terras longínquas à nossa. Lá, onde brotou sempre a esperança do reencontro que nunca aconteceu.
Meu pai, quando ainda era apenas filho (e o mais velho) do meu (futuro) avô, viajou para “fazer a América” e acabou por passar mais de quarenta anos de “Dias dos Pais” sem poder abraçar o seu pai. Difíceis tempos aqueles, em que a distância era infinita e a volta pouco provável. O seu pai aguardava o filho, que acabou por guardar o pai no coração e nas lembranças e nos filhos que gerou. Vida longa para construir uma família, um lar. Longe dos seus, longe da terra e da língua materna.
Ao partir, meu pai não sabia o que iria encontrar e viver. Que destino o aguardava? Aventurou-se para ganhar a vida e desbravar o mundo. Talvez, nunca imaginara que fincaria raízes profundas em terras tropicais e aqui constituiria uma família.
No Dia dos Pais, ele tem motivos de sobra para festejar o que um dia começou, ao entrar em um navio e aportar em terras brasileiras. Aprendeu a cultura, a língua e a criar seus filhos, durante todos esses anos de vida e de luta. De filho, tornou-se pai, avô e bisavô – tantas vezes pai!
E foi assim que o filho do meu avô passou a ser o meu pai. Que meus filhos tenham um “Dia dos Pais” diferente para contar. E que, ao falarem em nome do pai, falem em nome dos filhos, com espírito de orgulho e admiração, também.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg












