Gosto das estradas planas, retas que parecem infinitas, onde minha casinha sobre rodas desliza suavemente, levando longe meus pensamentos. Final de tarde, horário em que já decidimos onde pernoitar, será na estrada mesmo, em um grande ponto de apoio para viajantes logo adiante. O sol se pondo à minha frente e eu recordando a minha infância na casa onde morei até me casar e mudar para a capital.
Me lembro dos encontros com meus primos, que eram muitos, das pescarias que faziam nossos pais aos fins de semana, do jogo de cartas que entrava madrugada adentro. Hoje, no calor de uma planície no centro do país, lembro especialmente de minha prima Vera. Ela era mais velha do que eu, fazia parte do grupo das mocinhas nas brincadeiras, eu era do grupo dos pequenos, que tinha o primeiro como referência. Vera era líder, alta, grandona, risada rasgada, muito falante, eu a admirava. Muitas tardes de conversa tinham nossos pais, que eram muito amigos. Morávamos perto, o que facilitava o agradável convívio. A vida foi passando e nos afastando. Fiquei muitos anos sem vê-la, mas sabia que tinha se formado pastora da igreja metodista, assim como seu marido, tinha dois filhos. Por ocasião da pandemia de Covid19, alguém criou um grupo de primos no WhatsApp e nesse grupo reencontrei minha prima Vera. Estávamos próximas novamente. Em um período turbulento social e epidemiologicamente no país, conversamos muito no privado, visto que nossas concepções de mundo eram semelhantes, mas muito diferentes dos demais. Acho que isso aconteceu com muita gente, nenhuma novidade. Após a pandemia, ao passar a viver na estrada, nosso primeiro roteiro de Motorhome incluiu uma parada na casa da minha prima Vera, em São Bernardo do Campo. Nós, idosas, com nossos filhos adultos, resgatamos as conversas e as risadas lá da nossa infância e adolescência, o que foi um resgate afetivo sublime! Compartilhamos nossos livros, agora eu e ela escritoras: eu cronista da vida viajante, ela escrevendo sobre mulheres e igreja, fé e política e, especialmente, sobre o universo das pessoas com deficiência, onde mergulhou com sua filha, que é uma pessoa com deficiência. Sobre temas densos Vera escrevia, mas conseguia falar sobre eles com leveza, transmitindo naturalidade em meio às suas gostosas gargalhadas. Desde então, sempre que passávamos por São Bernardo, chegávamos para uma conversa, um abraço gostoso, uma comidinha boa e um vinho, é claro! Minha prima Vera voltou à minha vida, trouxe consigo as histórias de nossos avós, de outros parentes, coisas que eu não sabia, eu adorava escutá-la.
Deslizávamos entre histórias familiares e cenário político atual, naturalmente, entre um gole de vinho e outro. Nossos maridos participavam das conversas quando podiam, é claro, pois tagarelas como nós duas não fazem intervalos na prosa, os coitados tinham pouca chance de participar. Minha prima Vera voltou à minha vida e eu aproveitei ao máximo a sua companhia. Assim como voltou, Vera partiu. No dia do seu aniversário, neste ano, ao pegar o celular para felicitá-la, encontrei dois áudios dela, daqueles sem nenhuma fala, o cursor se movendo no silêncio. Poucas horas antes de morrer, Vera acionou meu número no WhatsApp, talvez tenha pensado em me dizer algo, mas não conseguiu, ou talvez tenha clicado no microfone por engano, até sem saber, sem sentir. Eu respondi com um kkkkk, rindo do seu áudio sem som. As risadas, kkkkk, acho que representaram bem o nosso reencontro. Prefiro pensar que minha prima Vera queria conversar comigo, talvez me dar um tchau. Eu converso com ela em pensamento, como faço agora, enquanto contemplo o pôr do sol na estrada à minha frente. Sinto sua falta. Sinto sua presença.















