
Minha avó era um doce de pessoa. Mas tinha seu lado salgado, que era, igualmente, uma delícia. Cozinhava como só ela mesma. Sabia conquistar os apetites, não precisando que as pessoas estivessem com fome. Cuidava da cozinha como cuidava de seu jardim – preparava pratos que exalavam cheiros e que faziam a alma suspirar de satisfação. Minha avó não tinha mãos de fada, mas de cozinheira encantada. Tudo que fazia fascinava e deixava todo mundo de boca aberta, para comer e por contentamento.
Ela se chamava Maria, e cozinhava com tanta presteza e carinho que poderia regar todo o seu jardim com a água na boca dos que sentavam em torno de sua mesa. Ela plantava rosas, mas colhia feijão perfumado e arroz soltinho. Podava galhos, afofava a terra e sabia, com paciência, preparar na sua cozinha alimentos que satisfaziam o paladar e deleitavam o espírito. Não sei se ela, por cozinhar tão bem, aprendeu a plantar, ou se, por cuidar do jardim, praticou a arte da culinária. No jardim ou na cozinha, minha avó alimentava vidas e nutria almas.
Vó Maria fazia muitas coisas diferentes na cozinha e sabia fazer a diferença nas coisas que cozinhava. Seu arroz era branco como a maioria, solto como muitos, temperado como todos e vinha carregado com o seu toque, sua marca pessoal. O feijão ganhava cor, tempero e cheiro de suas mãos. E a união, no prato, do arroz e do feijão deixava qualquer boca murmurando de satisfação e prazer. Seus refogados, seus assados e frituras completavam a refeição. Tudo muito simples, como o seu jardim – uma flor desabrochando, um beija-flor buscando o sustento e nós, simples mortais, o alimento e o seu convívio.
Meu avô admirava minha avó não só pelo que cozinhava, mas pelo que ela plantava. Chegaram a completar 55 anos de casados e viveram em torno da mesa, dos filhos, dos netos, dos familiares e da existência. Talvez, a vida que transbordava das plantas desse mais vida aos alimentos e beleza à convivência. Eles plantaram vidas e colheram filhos. Alimentaram almas e sustentaram raízes profundas nos corações dos seus.
Minha avó fazia doces no fogão a lenha. No tacho, preparava sonhos e alegrias em pedaços ou em calda. Naquela época, a vida parecia mais doce e mais cremosa: escorria em longos tabuleiros.
Ao final das refeições, saboreávamos algo que só conheci na casa de meus avós. Comíamos e bebíamos uma preciosidade: um prato fundo com leite da fazenda e um bom pedaço de goiabada, feita no tacho e no fogão a lenha pela Vó Maria. Quando minha vó colocava, sobre a grande mesa, goiabada cascão – os céus que me desculpem! –, para mim aquilo era o néctar e o manjar roubado dos deuses.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
atrottamg@gmail.com












Que lindo Trotta! Minha mãe deixou lembranças também de horta e comida nos meus filhos. Eu estou tentando construir “memórias de vó ” para meus netos. Parabéns pela crônica cheia de sensibilidade!
Grato. De geração em geração vão se mantendo viva a tradição.
A comida de avó permanece viva em nós porque alimenta o corpo enquanto abraça a nossa alma para sempre.
O legado no prato sem medidas: Avós não usam balanças, elas medem o sal e o afeto “no olho” e com o coração.
Tempo Certo: O maior segredo culinário delas sempre foi a paciência de deixar o molho apurar devagar.
Cura Nutritiva: A canja de galinha feita na bacia de alumínio que curava qualquer resfriado ou dia triste.
O tempero de avó não é apenas uma combinação de ervas e sal, mas o ingrediente secreto que molda nossas memórias afetivas e define o verdadeiro significado de comida afetiva.
Muitas lembranças e experiências ao lado de quem temperava os alimentos e a vida.
A refeição junto é mais do que alimentação, é um momento sagrado de convivência com aqueles que nos cercam.
Verdade. Aprendemos a amar os que nos cercam e o quê se põe na mesa. Saudades que marcam o coração, as vontades e as lembranças.
Lindo texto.
Congrats!!!
O verdadeiro tempero de vó é o amor. Cada prato traz carinho, cuidado e lembranças que ficam para sempre no coração. ❤️
Carinho, o grande segredo da avó que cuida e nos alimentam o corpo e a alma.
Feliz de quem desfrutou dessa deliciosa e inesquecível convivivencia! Lindo texto!
Sim. Sabores e amores que permanecem eternizados.
Meu amigo, acho que você se confundiu, essa era minha vó Ambrósia!
Pois é. Vó muda de nome e de netos. Rsrsrs
Feliz de quem teve avós assim. Hoje, nossa geração ainda está no mercado de trabalho. Eu, ainda tento ser avó raiz.
Transmitir às gerações sabores e sabores e a vida ganha sobremesa.
Voltei à infância e senti a presença dos primos e tias ao redor da mesa da casa da vovó, ao lado do fogão de lenha, de cujo forno saíam.pães e bolos de fubá para celebrar o nosso encontro semanalTexto com cheirinho de saudade.Parabéns!
Viver entre tantos e sentir os sabores e curtir boas relações.
Histórias se entrelaçam aqui! Quando a Avó entra em cena, como as histórias são idênticas…Minha História e lembranças deliciosas com minha avó é exatamente como a sua… O coração pulsa mais forte em meio a essas lembranças. Me lembro das delícias que minha avó fazia nas datas comemorativas de Santo Reis, São João… Os doces no tacho no fogão a lenha e o forno de barro assava os biscoitos de polvilho, broas, pães, etc. O bolo de fubá era assado em uma panela tampada com uma placa com brasas, na chapa do fogão a lenha …Que delicia! E o chá de folha de figo? Como não sentir saudades de tudo isso?
Boas lembranças e excelente vivência. A vida com sabores e sabores.
Lindo texto! Lembranças doces!
Vó Maria era tudo isso e muito mais.
Fui acolhida na família por ela com muito amor.
Meus filhos experimentaram de suas delícias e de seu colo amoroso.
Agora que seremos avós, quero muito ‘experenciar’ com nossa netinha esse amor que Vó Maria tinha com os netos. Quero que meu fogão exale muito carinho, felicidade, cumplicidade e acima de tudo muito amor, além de coisas gostosas para comer.
Sempre carinhosa e com mãos de fada. Fica a lembrança e os bons momentos.
Minhas lembranças de infância passam pelas comidas que minha avó fazia. Até hoje me pego dizendo “isto me lembra minha avó” ao fazer meu prato. Ela era do interior de São Paulo, cujos pratos são muito similares à culinária mineira! Já vinha treinando meu paladar para chegar em Minas e trazendo comigo os sabores de vó.
Cheirinho de grandes lembranças. Vivência e aprendizado de quem cuida.
Bons tempos em que a felicidade tinha endereço, nome e sobrenome… hoje compra-se tudo pronto. Os sabores viraram memórias afetivas dr quem soube apreciar e se nutrir da poesia da simples convivência familiar.
Tudo era bom e vó sabia das coisas e a vida era solta e com sabor.
Ótimo texto. Foi possível imaginar os sabores dessa comida. Tenho muitas saudades da comida da minha vó também. Mas, ainda tenho minha mãe que cozinha igual ou melhor.
Não dá pra ficar muito tempo sem saborear as delícias que ela faz.
Vó é a mãe da mãe. Ensina muito e se leva a tradição para muitas gerações.
Viva as gerações!
Meus filhos retornam da casa da avó trazendo na bagagem muita saudade, afeto, carinho, amor, compaixão, cultura, sabores e aromas.
Trazem também lembranças dos bisavós que honramos, criando e reforçando o valor da família.
São valores que constituem nossas raízes, oferecendo sustentação e nutrição para desenvolver com cerne forte, refletindo a humanidade na comunidade.
Afetividade é criada nesses ambientes e vivida entre gerações.
Sinto muita saudade das minhas duas vovós. Uma morava na roça, a outra veio da roça morar na cidade e fui criada na casa dela.
Faziam todas as minhas vontades e não precisava pedir, elas adivinhavam.
Uma guardava sempre a “rapa” da panela que fazia o angu regado com leite. A outra sabia que eu gostava de goiabada tbm com leite, que delícia!! E as comidinhas maravilhosas…jamais esquecerei dos aromas vindo da cozinha. Eu era feliz…e sabia!!
Obrigada amigo Trotta por me fazer recordar desses momentos!
Venho de uma família paterna que fazia da mesa um momento acolhedor . A comida feita com amor de mãos de quem sabe que a mesa é uma forma de despertar o prazer pela vida e deixar na lembrança o mais puro afeto . Parabéns pelo lindo texto!
Delícia. Viver entre eles e se tornar um deles.
Recordações deliciosas que não saem da memória!
São elas as mais doces, as mais ternas e as mais importantes em nossa vida.
Lembro-me bem desses momentos!
Parabéns,Trotta!
Não tive a oportunidade de conviver com minha avó!
Que texto cheio de memória afetiva, doce recordação.
Meu amigo, casa de vó, comida de vó, mesa comprida com toalha xadrez, tacho borbulhando com doce de abobora, goiabada, biscoitos de polvilho, carne de porco com mandioca, quintal com goiabeiras e laranjeiras, jardim com camélias e roseiras, plantinhas nas latas. Tudo isto é Vó. Lembranças de casa de Vó. Memórias visuais, afetivas, gustativas, olfativas. Saudades do colo gordinho, dos braços curtos e dos olhos azuis como contas.
Êta vó Maria! Capaz de se ativar na arte da culinária como na jardinagem e de inspirar seu neto a fazer revelações com força para inebriar os leitores e deixá-los com água na boca.
E a história se repete pelas geraçōes a fora. “Ara, sô!!!” me levou de volta para a infância e trouxe cores novas para o dia de hoje ao pensar nos meus meninos junto com as suas avós, que os alimentam com memórias de flores, temperos, comidas deliciosas e histórias da família.
Esta é uma experiência da qual não tive muitas oportunidades. Meu pai era imigrante e chegou no Brasil só, deixando a mãe no país de origem. Minha mãe perdeu o pai na adolescência, restando-me somente a avó materna. Esta não conseguia reunir todos os 8 filhos e netos com regularidade. Hoje eu tento fazer este papel, com dois filhos e dois netos além dos filhos de uma sobrinha. Eu gosto de cozinhar e tê-los em torno! Talvez eu e minha esposa possamos deixar esse legado de lembrança para essas crianças e as que por ventura venham.