Ligo o notebook e uma mensagem de alerta pisca na tela: “Alerta de Tempestade.”
No celular, outra notificação da Defesa Civil: “Alerta Laranja. Tempestade com vento e granizo. Risco ALTO de alagamentos. Mantenha-se seguro.”
Ligo o rádio e escuto as medidas preventivas adotadas pelas prefeituras para contenção das cheias após os temporais.
Na televisão, todos os jornais repetem os mesmos números: quantos milímetros já choveu, os estragos provocados por vendavais, granizo, chuvas torrenciais e, até mesmo, as imagens de um tornado devastando uma pequena região, deixando prejuízos irreparáveis à população, aos animais e às plantações.
Por fim — e talvez o mais impactante — aparecem as imagens dos desabrigados nos ginásios, das pessoas sendo retiradas de barco de suas próprias casas e da expressão de desamparo estampada em cada entrevista.
Você já sonhou que estava vivendo uma grande catástrofe? Daquelas que nos fazem acordar assustados e suspirar aliviados ao perceber que era apenas um sonho? Mas, ao voltar a dormir, permanece aquele receio silencioso de reencontrar o mesmo pesadelo?
Pois saiba que, para algumas pessoas, esse pesadelo aconteceu na vida real.
Dormiram em suas casas e acordaram com tudo submerso. Viram seus carros desaparecerem sob a água, ruas transformadas em rios e um cotidiano inteiro desmoronar sem que compreendessem, naquele primeiro momento, a dimensão do que estava acontecendo.
Essa triste realidade aconteceu há dois anos em Porto Alegre e em diversas cidades do Rio Grande do Sul.
Alguns moradores já conviviam com a possibilidade de alagamentos e haviam criado estratégias de sobrevivência. Móveis elevados, pertences levados ao segundo piso e, em algumas regiões, principalmente nas ilhas da Região Metropolitana, barcos já faziam parte da rotina para situações de emergência.
Mas todos conhecem a dimensão da tragédia que assolou o Estado. Oitenta e três anos após a grande enchente de 1941, o Rio Grande do Sul voltou a viver uma catástrofe histórica.
Um evento que, segundo muitos “técnicos”, dificilmente voltaria a acontecer por ser considerado um fenômeno isolado. Chegou-se, inclusive, a cogitar a derrubada do muro de contenção que protege Porto Alegre das enchentes. Em algumas administrações, equipamentos fundamentais para a proteção contra as cheias deixaram de receber a manutenção necessária.
Entretanto, esta crônica não pretende revisitar as responsabilidades ou recontar a segunda grande enchente que devastou o Rio Grande do Sul.
Nosso tema é outro. Nosso tema é a Ansiedade Climática.
Fui voluntária em abrigos durante a enchente. Imaginávamos que, após a reconstrução das casas, o retorno ao trabalho e a lenta retomada da rotina, o trauma também começaria a desaparecer. Talvez não completamente, mas suficientemente para que a vida encontrasse um novo equilíbrio.
Não foi o que aconteceu. Dois meses depois, quando começou o retorno às residências, muitos não desejavam deixar os abrigos. Ali, apesar da falta de privacidade, sentiam-se protegidos e acolhidos. Talvez porque, naquele momento, o abrigo já não fosse apenas um espaço físico. Havia se tornado um lugar emocional. Quando isso acontece, a enchente já não está somente nas ruas. Ela continua habitando a memória, o corpo e a sensação de segurança das pessoas.
O que temos acompanhado, como profissionais da Psicologia, é que o trauma ultrapassou em muito as lembranças dolorosas. Transformou-se em sofrimento emocional persistente, potencializando quadros de ansiedade tanto em pessoas diretamente atingidas quanto naquelas que vivenciaram a tragédia de forma indireta.
É nesse contexto que ganha força uma expressão ainda pouco conhecida: Ansiedade Climática.
A ansiedade, sabemos, é uma emoção natural e necessária. Ela nos protege, favorece nosso instinto de preservação e nos prepara diante dos riscos. Contudo, quando ultrapassa os limites do funcionamento saudável, transforma-se em um transtorno capaz de comprometer profundamente a vida das pessoas.
É exatamente isso que vem acontecendo com muitos dos atingidos, direta ou indiretamente, pelas enchentes de 2024.
Basta ouvir um alerta de tempestade ou a previsão de chuvas intensas para que um sistema interno de emergência seja acionado. Surge a sensação de vulnerabilidade, o medo, o desamparo.
E, junto com eles, as manifestações fisiológicas da ansiedade: taquicardia, sudorese, pensamentos catastróficos e crises de pânico.
Quem perdeu a casa, os pertences, os animais ou simplesmente a sensação de segurança necessita voltar a viver em um ambiente minimamente confiável para reconstruir sua vida emocional.
No entanto, o trauma coletivo já está instalado. Mesmo quem não perdeu tudo acaba sendo afetado pela força da empatia. Ao acompanhar as notícias em tempo real, inevitavelmente surge a pergunta: “E se fosse comigo? E se fosse alguém da minha família?”
Estamos diante de um sofrimento emocional cujas consequências podem se prolongar por muitos anos.
Quando esse sofrimento não recebe acompanhamento adequado, surgem estratégias paliativas que aliviam momentaneamente a dor, mas ampliam o problema ao longo do tempo.
O uso abusivo de bebidas alcoólicas para anestesiar os sentidos, drogas ilícitas para diminuir a angústia ou medicamentos utilizados indiscriminadamente para controlar a ansiedade representam tentativas desesperadas de recuperar uma sensação de segurança que já não existe.
A cada novo temporal, perde-se um pouco mais da tranquilidade necessária para viver.
Hoje, muitas pessoas choram ao ouvir o som dos trovões ou da chuva intensa, sabendo que sua segurança depende de sacos de areia, comportas e bombas de drenagem que, eventualmente, podem falhar.
E, ao contrário dos passageiros do Titanic, não haverá uma orquestra tocando enquanto suas lembranças, seus pertences e seus sonhos desaparecem, mais uma vez, sob as águas.
*Grace Gomes é psicóloga e facilitadora de Biodança, escreve sobre situações do cotidiano e as emoções que encontra em sua atividade profissional.













