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Home Cidades

ENCONTRO COM O MONGE

DE MARIA ÉLIDA MACHADO

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
29 de junho de 2026
em Cidades, Destaques, Vida Viajante
22
ENCONTRO COM O MONGE

A Br 116 atravessa o Brasil e nós já circulamos por ela em muitos trechos, especialmente pelo sul e sudeste. Em certa ocasião, estávamos passando perto da cidade de Lajes, em Santa Catarina, precisamente, no acesso do município de Correia Pinto, era final da tarde, já tínhamos andado bastante, estava na hora de parar. Não costumamos viajar à noite. Quando o sol começa a descer no horizonte, já temos que ter decidido, com auxílio da Internet, o lugar para o nosso pernoite. Optamos em parar em um recuo da estrada, na entrada para um parque, local plano, aberto, acessível. Algumas pessoas recolhiam suas coisas, depois de terem feito piquenique, pois o lugar é super adequado para esse programa. No parque tem vegetação vigorosa, muita sombra, tem até academia, aquelas de rua, e pracinha infantil. Há disponibilidade de água e um ponto de energia o que, para nós, caravanistas, pode ser vital. Estávamos no Parque do Monge. Lá há também um restaurante ótimo, a la carte, cardápio de chef, preço honesto. Ao lado do restaurante, encontramos uma tenda, ampla, onde são vendidos produtos artesanais como queijos, salames, mel, doces e vinagre (o vinagre de maçã parece ser a marca da casa!). Junto com o vinagre, o cliente recebe a orientação para seu uso, como preventivo de doenças cardiovasculares. Claro que já passamos a usá-lo. Descobrimos que o proprietário da tenda morava naquele local, toda a sua vida, e que a família havia cedido uma parte da área para a organização do parque, para uso dos moradores da região e viajantes. O melhor das paradas, ao longo das estradas, são os encontros, as descobertas! O local se chama Parque do Monge, em função de um andarilho que andou por lá, no início do século passado. Era chamado de Zé Maria, estrangeiro, francês ou português, não se sabe ao certo. Segundo contaram, ele fazia previsões, profecias. A ele eram atribuídas até curas milagrosas, por isso a alcunha de “Monge”! Há um processo de beatificação do Zé Maria, na igreja católica e, mesmo não tendo sido identificado como beato e nem santo, há capelas e celebrações na região de Lages, na intenção do Monge, em função da sua história de milagres. A caminhada pelo parque é feita em pequenas trilhas, chegando a um córrego, no fundo. No final da trilha principal, a gente chega numa espécie de altar, onde tem uma escultura de pedra, enorme, talvez uns 2 metros de altura. A escultura é linda, um trabalho artístico de qualidade, encomendada pela família proprietária da área, a um escultor, andarilho também. Este artista morou no local, tendo trabalhado cerca de 6 meses, fazendo a escultura. É um trabalho lindo, rico em detalhes: o corpo, as roupas, o turbante na cabeça, a mochila, os colares, os chinelos! E a expressão do rosto…perfeita! Lá está o monge sentado, em meio à vegetação, cheio de oferendas ao seu redor, fitas, velas, bilhetes de agradecimento pregados nas árvores. Parece um santuário rústico, no meio do mato. O silêncio, aliás, os ruídos da natureza, completam o caráter místico do local.

Após caminharmos pelo bosque, nos sentamos, ficamos em silêncio ao lado do monge e pedimos sua benção para nossas viagens. As histórias dos milagres do Zé Maria, o Monge, se renovam a cada vez que passamos pelo parque. Isso já bastaria para destacarmos aquele local como marcante nas nossas andanças, porém, há mais histórias misteriosas. Dizem por lá que, por vezes, Zé Maria é visto andando pelos campos e, também, à beira da estrada, lá pelas bandas de Correia Pinto. Naquele dia mesmo, na nossa primeira vez no parque, estávamos no restaurante, quando chegou um caminhoneiro contando sua história. Disse que viu um velho andarilho, andando na chuva, pelo acostamento, lhe ofereceu carona, o velho teria agradecido, dizendo que chegaria antes dele à cidade, que era o destino de ambos. O tal caminhoneiro, ao chegar à cidade, avistou, ao longe, o andarilho, com o seu cachorro. Histórias tipo esta, verdadeiras para os seus autores, de vez em quando são contadas lá pela região, todo o pessoal local as conhece. O amigo da tenda dos vinagres artesanais não cansa de repeti-las. Cada vez que passamos pela região espero encontrar o Zé Maria na estrada, estou curiosa para cruzar com o Monge. Vamos lhe oferecer carona, certo! Tomara que ele aceite!

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Comentados 22

  1. Lia Mara disse:
    4 meses atrás

    Acho muito interessante como essas histórias vão passando de geração em geração e passam a fazer parte da identidade do lugar. Cada pessoa pode acreditar de um jeito, mas é bonito ver o respeito que existe pelo Monge e pela história dele. Acho que lugares assim têm um valor especial, não só pela natureza, mas também pelas pessoas, pelas lembranças e pelas histórias que fazem a gente viajar muito além da estrada.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Também acho! Os lugares, a natureza, as paisagens, ganham vida com a cultura local. Eu adoro!

      Responder
  2. Almerinda Chagas Pereira disse:
    4 meses atrás

    Esta crença de que existe vida após morte , é que nos deixa felizes e nos faz sermos pessoas melhores.

    Responder
    • SILVIA BEATRIZ COSTA CZERMAINSKI disse:
      4 meses atrás

      Estradas e matas, povo simples e o tempo mais devagar, elementos chave para se observar e saber do que não se consegue em meio à turbulências. Acho que vou comprar um motor-home…

      Responder
      • Maria Élida Machado disse:
        4 meses atrás

        Vamboraaaaa pra estrada! Nos encontramos no parque do Monge!

        Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Cada um com a sua crença!

      Responder
  3. Teresinha Basso Mainardi disse:
    4 meses atrás

    O povo brasileiro tem muita fé e gostam de cultuar pessoas boas que tem histórico de atender orações e pedidos.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      São os ditos santos populares! Encontramos muitos por aí…

      Responder
  4. Maria Mercedes Bendati disse:
    4 meses atrás

    Essas histórias enriquecem todas as viagens! E recuperam memórias dos lugares em que vocês passam. Muito bacana esse registro.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Que bom que gostaste! E continua conosco aqui no Exempplar.

      Responder
  5. Cambeba disse:
    4 meses atrás

    O mundo guarda-nos muitas surpresas, uma delas é o seu relato,

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      A vida nômade é cheia de surpresas!

      Responder
  6. Alexandre Gamba Menezes disse:
    4 meses atrás

    Adorei a estória de hoje acredito que uma vida mais junto a natureza sensibilize o ser humano na busca de integração com o meio onde vive.
    Parabéns Elida

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Que bom que gostaste! Continua aqui conosco no Exempplar!

      Responder
  7. ADELI SELL disse:
    4 meses atrás

    baita cronica

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Fico honrada com seu comentário!

      Responder
  8. GILBERTO JOAQUIM PAIXAO disse:
    4 meses atrás

    As descobertas são muitas os relatórios sempre precisos, eu que estou presente na maioria deles , adoro revivelos.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Ao escrever..recordo!

      Responder
  9. Luciano Machado disse:
    4 meses atrás

    Fantástico. Que riqueza este de arte neste lugar.
    Eu sempre gosto de ouvir… Eu sentava num banquinho do lado do Pai e curtia. Que crônica gostosa de se ler.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Muito obrigada! Que bom que gostaste…nós fizemos oração e pedimos proteção ao monge…nunca é demais!

      Responder
  10. Laura Lisboa de Magalhães Cantuária disse:
    4 meses atrás

    Como é bom chegar em um lugar que tem história e estórias.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      E encontramos muitas…só precisamos estar disponíveis para observar…e sentir!

      Responder

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