A Br 116 atravessa o Brasil e nós já circulamos por ela em muitos trechos, especialmente pelo sul e sudeste. Em certa ocasião, estávamos passando perto da cidade de Lajes, em Santa Catarina, precisamente, no acesso do município de Correia Pinto, era final da tarde, já tínhamos andado bastante, estava na hora de parar. Não costumamos viajar à noite. Quando o sol começa a descer no horizonte, já temos que ter decidido, com auxílio da Internet, o lugar para o nosso pernoite. Optamos em parar em um recuo da estrada, na entrada para um parque, local plano, aberto, acessível. Algumas pessoas recolhiam suas coisas, depois de terem feito piquenique, pois o lugar é super adequado para esse programa. No parque tem vegetação vigorosa, muita sombra, tem até academia, aquelas de rua, e pracinha infantil. Há disponibilidade de água e um ponto de energia o que, para nós, caravanistas, pode ser vital. Estávamos no Parque do Monge. Lá há também um restaurante ótimo, a la carte, cardápio de chef, preço honesto. Ao lado do restaurante, encontramos uma tenda, ampla, onde são vendidos produtos artesanais como queijos, salames, mel, doces e vinagre (o vinagre de maçã parece ser a marca da casa!). Junto com o vinagre, o cliente recebe a orientação para seu uso, como preventivo de doenças cardiovasculares. Claro que já passamos a usá-lo. Descobrimos que o proprietário da tenda morava naquele local, toda a sua vida, e que a família havia cedido uma parte da área para a organização do parque, para uso dos moradores da região e viajantes. O melhor das paradas, ao longo das estradas, são os encontros, as descobertas! O local se chama Parque do Monge, em função de um andarilho que andou por lá, no início do século passado. Era chamado de Zé Maria, estrangeiro, francês ou português, não se sabe ao certo. Segundo contaram, ele fazia previsões, profecias. A ele eram atribuídas até curas milagrosas, por isso a alcunha de “Monge”! Há um processo de beatificação do Zé Maria, na igreja católica e, mesmo não tendo sido identificado como beato e nem santo, há capelas e celebrações na região de Lages, na intenção do Monge, em função da sua história de milagres. A caminhada pelo parque é feita em pequenas trilhas, chegando a um córrego, no fundo. No final da trilha principal, a gente chega numa espécie de altar, onde tem uma escultura de pedra, enorme, talvez uns 2 metros de altura. A escultura é linda, um trabalho artístico de qualidade, encomendada pela família proprietária da área, a um escultor, andarilho também. Este artista morou no local, tendo trabalhado cerca de 6 meses, fazendo a escultura. É um trabalho lindo, rico em detalhes: o corpo, as roupas, o turbante na cabeça, a mochila, os colares, os chinelos! E a expressão do rosto…perfeita! Lá está o monge sentado, em meio à vegetação, cheio de oferendas ao seu redor, fitas, velas, bilhetes de agradecimento pregados nas árvores. Parece um santuário rústico, no meio do mato. O silêncio, aliás, os ruídos da natureza, completam o caráter místico do local.

Após caminharmos pelo bosque, nos sentamos, ficamos em silêncio ao lado do monge e pedimos sua benção para nossas viagens. As histórias dos milagres do Zé Maria, o Monge, se renovam a cada vez que passamos pelo parque. Isso já bastaria para destacarmos aquele local como marcante nas nossas andanças, porém, há mais histórias misteriosas. Dizem por lá que, por vezes, Zé Maria é visto andando pelos campos e, também, à beira da estrada, lá pelas bandas de Correia Pinto. Naquele dia mesmo, na nossa primeira vez no parque, estávamos no restaurante, quando chegou um caminhoneiro contando sua história. Disse que viu um velho andarilho, andando na chuva, pelo acostamento, lhe ofereceu carona, o velho teria agradecido, dizendo que chegaria antes dele à cidade, que era o destino de ambos. O tal caminhoneiro, ao chegar à cidade, avistou, ao longe, o andarilho, com o seu cachorro. Histórias tipo esta, verdadeiras para os seus autores, de vez em quando são contadas lá pela região, todo o pessoal local as conhece. O amigo da tenda dos vinagres artesanais não cansa de repeti-las. Cada vez que passamos pela região espero encontrar o Zé Maria na estrada, estou curiosa para cruzar com o Monge. Vamos lhe oferecer carona, certo! Tomara que ele aceite!














