Muitas vezes rodamos por algumas estradas a bordo de guinchos. Todos os viajantes passam, em algum momento, por essa experiência. Os Motorhomes, que servem de moradia aos nômades, são estruturas complexas, não há manutenção especializada para eles em qualquer lugar. É preciso buscar assistência e para isso precisamos de guinchos, que também não são os comuns, nossas casinhas necessitam guinchos potentes.
Lembro de uma vez, em algum lugar do interior, que utilizamos um guincho chamado de uma cidade vizinha para fazer a nossa locomoção. Lá fomos nós na boleia do caminhão-guincho do Alemão, não sei se era bem este o apelido, mas era algo parecido. O Alemão do guincho gostava muito de conversar, o que combinava comigo, que não perco a oportunidade de assuntar sobre a vida de todo mundo. Gosto de assuntos diferentes, meio malucos, as vidas muito certinhas não me chamam a atenção. O Alemão foi um ótimo condutor e uma excelente companhia estrada afora, nem sentimos a demora, a velocidade baixa, até chegarmos à cidade grande. Alemão me contou da sua vida, caminhoneiro como seu pai, com o qual aprendeu a dirigir aos treze anos. Devia ter por volta de quarenta e poucos anos o Alemão.
Estava anoitecendo e, logo ao passar por uma cruz pintada com tinta neon fincada no acostamento, o caminhoneiro começou suas histórias. Disse que naquele local, de muitas curvas, ocorriam muitos acidentes, muita gente havia morrido ali. E que aquelas curvas abrigavam muitos espíritos, que ele podia senti-los, até vê-los às vezes: descreveu a sensação de calafrios que sentia sempre que passava sozinho naquele trecho da estrada, calafrios fortes, tremores que teriam até lhe obrigado certa vez a parar o caminhão, sem condições de dirigir. Às vezes, a sensação é de sono, dizia ele, começa a bocejar sem controle, precisando fazer força para não cochilar. Segundo ele, os espíritos chamam os viajantes para o acidente, para a morte naquele local. Eu já estava começando a sentir calafrios, influenciada pela conversa, mas Alemão me tranquilizou, o fenômeno só acontecia quando ele estava sozinho, durante a noite. Contou que às vezes vê homens caminhando devagar pelo acostamento, que seriam os espíritos dos colegas mortos. Uma vez até parou, foi ao encontro da procissão, mas, ao chegar perto, a imagem se dissipou. Cruzes, eu olhava para o acostamento, já imaginando os caminhoneiros mortos. Meu marido me cutucava para eu parar de falar naquilo, devia estar com medo, também, das sensações que aquela conversa lhe provocava. A narrativa sobre a aparição dos caminhoneiros mortos durou vários quilômetros, Alemão citando outros lugares da região onde aqueles fenômenos aconteciam. A história continuou com nosso motorista contando sobre a aparição do espírito de uma tal moça linda, vestida de branco, caminhando pelos campos. Essa história já escutamos muito, porém, a mulher de branco do Alemão era diferente. Além de vê-la andando à beira da estrada, ele já a carregara na boleia do seu caminhão guincho, exatamente onde estávamos sentados. Disse que do nada olhava para o banco a seu lado e via uma mulher linda, chorando, era capaz de ouvir seu pranto por muitos quilômetros e, em todo o trajeto, sentia a boleia muito gelada, que saía bafinho de sua boca na respiração, indicando que estaria respirando ar gelado, apesar de estar no verão escaldante. Nesta parte das histórias eu já havia puxado um casaco da minha mochila, parecia que o banco do caminhão havia ficado gelado de repente. Ao ser indagado, Alemão disse que não sentia medo, que ele fazia parte dos escolhidos pelo além, aqueles que podiam ver as estradas de um jeito que os demais não viam. Disse também que fora avisado pelo espírito de um colega caminhoneiro em qual a curva ele morrerá e que o acidente ocorrerá daqui a uns dez anos mais ou menos. Morrerá jovem o caminhoneiro, pensei. Em pensamento lamentei por sua curta vida, mas me tranquilizei, estava segura porque sua morte não ocorreria naquele momento. Minhas pernas pararam de tremer, calmamente fizemos a rótula que nos levaria a cidade de destino…















São muitos e interessantes causos.