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Home Destaques

O CAMINHONEIRO VIDENTE

DE MARIA ÉLIDA MACHADO

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
14 de junho de 2026
em Destaques, Vida Viajante
26
O CAMINHONEIRO VIDENTE

Muitas vezes rodamos por algumas estradas a bordo de guinchos. Todos os viajantes passam, em algum momento, por essa experiência. Os Motorhomes, que servem de moradia aos nômades, são estruturas complexas, não há manutenção especializada para eles em qualquer lugar. É preciso buscar assistência e para isso precisamos de guinchos, que também não são os comuns, nossas casinhas necessitam guinchos potentes.
Lembro de uma vez, em algum lugar do interior, que utilizamos um guincho chamado de uma cidade vizinha para fazer a nossa locomoção. Lá fomos nós na boleia do caminhão-guincho do Alemão, não sei se era bem este o apelido, mas era algo parecido. O Alemão do guincho gostava muito de conversar, o que combinava comigo, que não perco a oportunidade de assuntar sobre a vida de todo mundo. Gosto de assuntos diferentes, meio malucos, as vidas muito certinhas não me chamam a atenção. O Alemão foi um ótimo condutor e uma excelente companhia estrada afora, nem sentimos a demora, a velocidade baixa, até chegarmos à cidade grande. Alemão me contou da sua vida, caminhoneiro como seu pai, com o qual aprendeu a dirigir aos treze anos. Devia ter por volta de quarenta e poucos anos o Alemão.
Estava anoitecendo e, logo ao passar por uma cruz pintada com tinta neon fincada no acostamento, o caminhoneiro começou suas histórias. Disse que naquele local, de muitas curvas, ocorriam muitos acidentes, muita gente havia morrido ali. E que aquelas curvas abrigavam muitos espíritos, que ele podia senti-los, até vê-los às vezes: descreveu a sensação de calafrios que sentia sempre que passava sozinho naquele trecho da estrada, calafrios fortes, tremores que teriam até lhe obrigado certa vez a parar o caminhão, sem condições de dirigir. Às vezes, a sensação é de sono, dizia ele, começa a bocejar sem controle, precisando fazer força para não cochilar. Segundo ele, os espíritos chamam os viajantes para o acidente, para a morte naquele local. Eu já estava começando a sentir calafrios, influenciada pela conversa, mas Alemão me tranquilizou, o fenômeno só acontecia quando ele estava sozinho, durante a noite. Contou que às vezes vê homens caminhando devagar pelo acostamento, que seriam os espíritos dos colegas mortos. Uma vez até parou, foi ao encontro da procissão, mas, ao chegar perto, a imagem se dissipou. Cruzes, eu olhava para o acostamento, já imaginando os caminhoneiros mortos. Meu marido me cutucava para eu parar de falar naquilo, devia estar com medo, também, das sensações que aquela conversa lhe provocava. A narrativa sobre a aparição dos caminhoneiros mortos durou vários quilômetros, Alemão citando outros lugares da região onde aqueles fenômenos aconteciam. A história continuou com nosso motorista contando sobre a aparição do espírito de uma tal moça linda, vestida de branco, caminhando pelos campos. Essa história já escutamos muito, porém, a mulher de branco do Alemão era diferente. Além de vê-la andando à beira da estrada, ele já a carregara na boleia do seu caminhão guincho, exatamente onde estávamos sentados. Disse que do nada olhava para o banco a seu lado e via uma mulher linda, chorando, era capaz de ouvir seu pranto por muitos quilômetros e, em todo o trajeto, sentia a boleia muito gelada, que saía bafinho de sua boca na respiração, indicando que estaria respirando ar gelado, apesar de estar no verão escaldante. Nesta parte das histórias eu já havia puxado um casaco da minha mochila, parecia que o banco do caminhão havia ficado gelado de repente. Ao ser indagado, Alemão disse que não sentia medo, que ele fazia parte dos escolhidos pelo além, aqueles que podiam ver as estradas de um jeito que os demais não viam. Disse também que fora avisado pelo espírito de um colega caminhoneiro em qual a curva ele morrerá e que o acidente ocorrerá daqui a uns dez anos mais ou menos. Morrerá jovem o caminhoneiro, pensei. Em pensamento lamentei por sua curta vida, mas me tranquilizei, estava segura porque sua morte não ocorreria naquele momento. Minhas pernas pararam de tremer, calmamente fizemos a rótula que nos levaria a cidade de destino…

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Comentados 26

  1. GILBERTO JOAQUIM PAIXAO disse:
    2 meses atrás

    São muitos e interessantes causos.

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      2 meses atrás

      Muitos…E eu ouvindo e registrando!

      Reply
    • SILVIA BEATRIZ COSTA CZERMAINSKI disse:
      2 meses atrás

      Estrada combina com boas conversas. Esta é muito interessante, mas espero que não tenha atraído a moça de branco fumegante de encosto!! Te cuida Élida!!

      Reply
      • Maria Élida Machado disse:
        2 meses atrás

        Cruzes…deixa ela lá na estrada! Kkkk

        Reply
  2. Antonio Trotta disse:
    2 meses atrás

    Nu. Cada história do além. Dá para assustar e conhecer muitas outras novidades de arrepiar os ca

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      2 meses atrás

      O que não falta na vida viajante é história! E tem cada uma…

      Reply
  3. Laura Lisboa de Magalhães Cantuária disse:
    2 meses atrás

    Um caminhoneiro médium, com certeza.

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      2 meses atrás

      Parece que sim. Foi muito interessante essa conversa!

      Reply
  4. Itacir Flores disse:
    2 meses atrás

    Adoro este tipo de história.
    Essa do Camioneiro Vidente eu achei fantástica.
    Muito criativa!
    Muito detalhada!
    Sensacional.

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      2 meses atrás

      Que bom que gostaste! A vida viajante é cheia de histórias! É um prazer tê-lo conosco no Exempplar!

      Reply
  5. Lia Mara disse:
    2 meses atrás

    Seguidamente, quando viajamos pelas estradas, vemos cruzes, às vezes com flores, outras vezes apenas fincadas no acostamento. Demorei para entender que aquilo representava uma morte ocorrida naquele lugar. Depois que compreendi, nunca mais olhei para elas da mesma forma. A história do Alemão me fez pensar em quantas histórias, lembranças e lendas acabam ficando pelo caminho.

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      2 meses atrás

      Há muitas histórias da estradas! Eu adoro ouvir….

      Reply
  6. mayra disse:
    2 meses atrás

    Hahahahahaha
    O Alemão também deve ser um bom pescador, além de caminhoneiro

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      2 meses atrás

      Eu senti que era tudo verdadeiro! Vai saber né?

      Reply
  7. Marlusa Tonial disse:
    2 meses atrás

    Muito boa a história! Ou o Alemão é médium ou tá adorando o susto de vocês! Rsrsrs. Abraços

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      2 meses atrás

      Acho que as duas opções…kkkkk

      Reply
  8. Cláudia Marcuzzo da Rosa disse:
    2 meses atrás

    Arrepiei com essa história!

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      2 meses atrás

      Eu também…kkkkk

      Reply
  9. Teresinha Basso Mainardi disse:
    2 meses atrás

    Eu penso que essa história e outras tantas que já ouvi são frutos da imaginação.
    Muitas vezes pela exaustão da viagem ou por medo ,, mas não é qualquer pessoa que vê espíritos e moças de branco , daí vem uma dúvida : e se for uma pessoa sensitiva que vê tudo isso ?

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      2 meses atrás

      Eu não duvido de mais nada nessa vida…

      Reply
  10. Alexandre Gamba Menezes disse:
    2 meses atrás

    Bah Élida,
    Esse causo do caminhoneiro parece umas histórias aterrorizantes da cidade dos bons ventos adorei.

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      2 meses atrás

      Obrigada. E eu adorei te ver por aqui novamente! Continua aqui conosco no Exempplar!

      Reply
  11. João Carlos Guaragna disse:
    1 mês atrás

    As histórias tiram a solidão dos caminhoneiros. E ao contá-las repetidas vezes seus enredos são enriquecidos. A alma se acalma e a saudade de casa , não passa, mas é adiada.
    Muito legal esta crônica.

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      1 mês atrás

      Não me canso de ouvir as histórias de caminhoneiros…bacana essa referência a solidão e a saudade! Obrigada!

      Reply
  12. Mário César Both disse:
    1 mês atrás

    Ele deveria dirigir uma jamanta chamada Pérola Negra, permitida a entrar nos postos uma vez cada dez anos.

    Reply
    • Maria Élida Machado disse:
      1 mês atrás

      Assustador isso hein?

      Reply

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