Dias atrás meu filho me perguntou qual a primeira copa do mundo de futebol de que eu me lembrava. Nem precisei pensar, está muito viva em mim a lembrança da copa do mundo de 70. Para assistir a essa copa, minha irmã havia comprado a primeira televisão para a nossa casa. Afinal, a copa do mundo era um importante evento, para o qual valia o sacrifício de comprar uma TV. Minha irmã acabara de entrar no seu primeiro emprego como professora, o que a possibilitava ajudar nossos pais na compra de alguma novidade. A televisão era usada, preto e branco, uma enorme caixa de madeira com uma tela côncava, cujos acessórios eram o fio e a antena. Esta, colocada em um suporte amarrado ao muro, ao lado da casa, necessitando que alguém mudasse sua posição a cada transmissão, porque o vento, a chuva ou demônios a deslocavam. Era preciso fazer ajustes para conseguir a melhor imagem. Não tínhamos ainda a antena interna, em que colocávamos um bombril na ponta, a fim de melhorar o sinal, esta veio depois. Na copa de 70, na minha casa, os jogos começavam com a gritaria entre quem mexia na antena lá fora e quem monitorava a tela da televisão. Lembro-me perfeitamente de vários jogos daquela copa, o primeiro e o último, especialmente, pois minha prima Chica fez até uma música, que falava dos 4×1 do Brasil em ambos. Tudo era festa, às vezes, nos juntávamos com tios e primos para assistirmos aos jogos. Gente na rua, bandeirinhas, apitos, cenário que está bem reproduzido na série “70, a saga do tri” da Netflix. Eu, adolescente, não tinha ideia do momento político pelo qual passávamos, só fui entender muito mais tarde o sentido da musiquinha dos 90 milhões em ação e do uso da conquista do tricampeonato mundial para fortalecer a ditadura militar da época. Não via Pelé, Tostão, Gerson, Carlos Alberto, Rivelino, Paulo César, como cidadãos políticos que tinham seus posicionamentos sobre os destinos do país. Eles passaram muito bem à população brasileira o nacionalismo restrito ao campo de futebol. O principal era fortalecer o grupo, orgulhar a nação e vencer!
Parece que desempenharam bem seu papel: atletas cientes do seu compromisso em jogar pelo país, tendo a devida noção do peso da camiseta canarinho. Pelo menos para mim, adolescente pobre do interior, vendo os jogos através da televisão nova, foi assim: vencemos orgulhosos, população e jogadores, juntos! Não faço parte do grupo de pessoas nostálgicas, do tipo que só valoriza o passado, “no meu tempo, isso não existia”, “naquela época era melhor” e blá, blá. Acho que todas as épocas têm seus encantos, seus desafios e suas besteiras, porém, neste momento, estou revendo essa minha posição, pois estou chocada com o que vejo na copa de hoje. Uma copa do mundo de futebol em um país que não joga futebol, o congraçamento entre as nações, que é típico nos eventos esportivos mundiais, sendo substituído por atitudes hostis do país sede. Seleções de países amigos do presidente anfitrião sendo bem recebidas, e outras sendo vítimas de procedimentos constrangedores, xenófobos e até criminosos. Torcedores sendo caçados pela polícia de imigração, preços exorbitantes, discursos de guerra. Povo mesmo não vejo na copa atual, só riquinhos esnobes. A torcida de verdade, pequena se comparada às mais antigas, ainda está nas ruas, nos bares, porém, acho que pelo encontro, pela festa, o futebol está em segundo plano. Está difícil torcer pela seleção brasileira na copa de 2026, ninguém sabe o nome dos jogadores, a maioria não tem nenhuma relação afetiva com o Brasil, são novos ricos deslumbrados, para os quais a camisa canarinho só serve para impulsionar suas carreiras pessoais, alcançar novos patrocínios milionários, divulgar bets, aumentar seus seguidores na Internet.
Aliás, os jogadores brasileiros têm equipes próprias, onde a maioria são assistentes de redes sociais, gerentes de agenda, responsáveis pela participação em podcasts, entrevistas, em que os temas giram ao redor de artigos de grife, cremes para pele e cabelo, divulgação de marcas de todo tipo, das quais recebem gordos patrocínios, influenciando, assustadoramente, nossas crianças e jovens. As mídias, que também são patrocinadas por grandes marcas, bancos, especialmente as criminosas bets, não discutem mais o futebol. A jogada, o drible, o gol, o respeito ao sentimento coletivo de um povo, parecem não ter mais importância. Uma copa de ricos, uma copa de discriminação, uma copa sem alma, a copa da guerra!












Invejei agora, nasci pouco dps da copa de 70!
Perdeu essa…kkkk..obrigada pelo comentário!
Sim, a Copa de 70 foi inesquecível. Compramos nossa primeira TV e até hoje sabemos os nomes dos craques. A de 26 tambem. Por tudo que escrevesses, pelo Trump mandando na Fifa, um monte de dinheiro rolando e em vez de futebol, nosso time é craque de outros jogos, das bets. A cena patética dos nossos Ronaldos carregando a tia Madonna tambem foi inesquecivel…
Marcantes as copas! A atual, por ser triste ….assustadora até!
Tuas cronicas são maravilhosamente descritivas dos momentos. Do ufanismo ingênuo de adolescente de 70 ao realismo cru de agora, dito em um ritmo cadente e explícito! Parabéns!
Teus comentários são sempre muito delicados! Fico honrada e agradeço!
Parabéns Élida, belíssima crônica, eu também vivi a copa e o momento político dos anos 70, sem a menor noção, só víamos futebol.
E vimos um futebol com alma, diferente do que vimos, agora, nesta copa!
Também lembro da copa de 70 em São Borja…nunca vi tanta ” bomba” depois da conquista…Jogo mais difícil foi contra Inglaterra…Não tinha a miníma ideia que paralelamente existia a Ditadura sanguinária…As pessoas falavam dos capa preta e eu associava a lobisomem …A Vida era Bela…para alguns…Essa copa legitima isso…Última vez que torci mesmo foi a copa de 82 e pelo Taffarel e Dunga…Tirante questões clubistícas…Mas é difícil ver essas nulidades de hoje em dia que passam treinando dancinha ou fazendo propaganda de BET…Lamentável!…7×1 não foi por acaso
Lamentável mesmo…perdemos uma das nossas riquezas, o nosso futebol!
Boas memórias. Também vivi tuda essa copa de 70. Assistir os jogos do Brasil. Adorava o Rivelino, aprendi até a chutar com a perna esquerda por causa dele. Bons momentos, grandes lembranças.
Pois é…acho que os meninos, ao assistirem a copa deste ano, estiveram mais preocupados em imitar os jogadores nos passinhos de dança ou cortes de cabelo…para mim…triste e preocupante!
Teu olhar sobre a atual copa 2026, me fez reforçar o entendimento de atitudes de dirigentes , times e jogadores.
Assisti vários jogos desta copa e poucos da copa 70.
Pena…a copa de 70 provoca boas lembranças do futebol brasileiro! Que bom que gostaste da crônica. Obrigada.
Élida, enquanto a Copa de 70 ficou marcada para você por aquela TV em preto e branco e pela união em família, a minha memória afetiva e o entendimento real de futebol começaram justamente na Copa de 82 com aquele time mágico que encantou o mundo, mesmo sem o título. É impressionante como o texto retrata essa transição dolorosa de um esporte que era alma, festa e pertencimento para um mercado frio, dominado por interesses comerciais e vaidades de redes sociais.
É isso mesmo…as grandes seleções, o futebol com alma fica gravado nas nossas memórias! Obrigada pelo comentário e por estar aqui conosco no Exempplar .
Estava te lendo e imaginando a cena da antena… hahaha
A Copa de 70, qtas lembranças, eu com 9 anos. Minha cadelinha ganhou filhotes, e todos tinham nomes dos jogadores.
Foi-se o tempo do amor à camiseta, agora é tudo por fama e milhões.
Bju
É…foi-se o tempo…
E a função da antena era bem assim mesmo. Kkkk
Li tua crônica e me senti completamente representada. Não só pelas lembranças das Copas de antigamente, mas principalmente pela reflexão sobre o que o futebol e a Copa acabaram se tornando.
Concordei com tudo. Parece que escreveste exatamente o que eu estava sentindo. Parabéns pelo texto. Adorei a leitura!
Que bom que gostaste! Obrigada.
É sempre mais do que futebol. Concordo contigo. Uma Copa não se decide só no campo, mas no comprometimento.
É isso! Mais do que futebol! Que bom que estás conosco aqui no Exempplar! Vamojuntooooo..
Me lembro da melhor copa que foi minha primeira, a primeira em que tinha idade pra torcer e que ficou marcada. 82, a seleção que tentou, foi brilhante, mas não levou. A seleção do Zico que era um ídolo! Lá tinha eu uns 8 anos e depois, as copas sempre eventos na família, foram se distanciando pra mim que cresci , casei… Mas a conquista do Tetra em 96 foi bem marcante, os filhos já estavam crescendo e participando, estava distante dos meus pais que viviam longe, mas festejei muito por telefone com meu pai, torcedor fanático do Mengo e do futebol.
Marcas das copas em nossas vidas! Bonito! Obrigada!