
Lá se vão alguns anos de sua morte. Escapou-me entre os dedos para o nunca-mais. Mas, mesmo não estando ao meu lado, junto de mim, mãe não morre por dentro da gente. Pelo contrário, arruma um canto, num canto da alma e se aloja no coração, definitivamente. Enquanto a gente vive, ela não morre. Eternizada. Fica lá, mergulhada na memória. Interiorizada. Pronta para reviver, entre recordações e fatos. Vive num mundo a parte, em alguma parte da gente.
Sua morte não faz sentido, assim como nenhuma morte. Sua ausência é presente nos meus dias. Ainda tenho muitas lembranças e saudades de um passado recente que, infelizmente, acabou-se para sempre. Com a aproximação da data que lembra sua partida, resta refletir o que fazer. Viver, viver e viver. É a única maneira que encontrei para suportar o insuportável, o doloroso, o dolorido, o sofrível. Como ela amava a vida! Como ela gostava de viver!
No dia 05 de julho, ela faleceu. No dia 11 do mesmo mês, ela nasceu. Seis dias antes de completar mais um ano ela se foi. A morte não respeita nada e ninguém e acaba por levar, sem perguntas ou complacência, quem a gente ama. Ceifa sem espera, nem esperanças. Na espreita, arrebata e invade qualquer idade, mesmo as dos que estão perto de completar mais um ciclo de vida. O que são alguns anos frente à eternidade? Meu Deus, como o tempo passa rápido para quem depende, precisa e vive dele, nele! Como o tempo nos consome! Afinal, já são alguns anos sem mãe, sem abraços apertados, sem seu sorriso gostoso, sem a vida dela em nossas vidas. Seus beijos estalados nunca mais!
Minha mãe, nos últimos tempos, lamentava-se de não ter conhecido a sua mãe. Morrera de parto e ela, ainda pequena, conviveu pouco ao lado de quem lhe dera à luz. Dizia que, mesmo fechando os olhos e buscando dentro da memória alguma recordação, não conseguia se lembrar de um momento sequer junto dela, de um gesto, um carinho, um fato, nada. Tudo era muito vago. Minha mãe demonstrava o ardente desejo de poder visualizar, por um segundo, alguma imagem, uma simples lembrança de sua mãe, mas nada conseguia. Quem sabe, ao perder a minha mãe, ela não encontrou a dela?
Sei que não sofro por não ter tido uma mãe. Sei o quanto ela pode se ver mãe nos filhos. Foram anos de vida aprendidos e apreendidos enquanto nos foi permitido. Ela se foi, eu sei, mas o nunca-mais ainda é vago para mim. Sua imagem, sua voz, assim como o seu olhar, ainda são fortes o suficiente para crer que tudo não passa de um sonho, um pesadelo, uma brincadeira de mau gosto.
Apesar de sua ausência, sua presença ainda marca os meus dias. Afinal, a vida não acaba quando acaba a vida.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta











