
O quintal da casa de meus avós era imenso. Nele se podia brincar e correr. A vida andava solta e crescia livre entre as árvores e as flores de minha avó. Ao olhar para o quintal, levava no olhar a certeza de que estava de férias e que o tempo parecia ter uma outra dimensão e andava junto com a emoção de cada dia.
O quintal tinha uma magia, pois, a cada período de férias, ele parecia trazer algo novo, diferente, pronto para ser explorado pelas idades da minha infância. Nele cresciam árvores frutíferas e um contentamento de quem dele pudesse desfrutar.
Antes do quintal, junto à casa, há uma jabuticabeira. Sozinha. Isolada. Apartada. Longe das outras árvores, do mato, da horta, das flores. Uma bela e enorme jabuticabeira que conheci frondosa, coberta de bolinhas pretas, de tamanhos variados. Dádiva da natureza. Não saberia descrever o que me encantava mais: se era a sua beleza; ou os estouros das jabuticabas entre os dentes, ou, simplesmente, do prazer de me encontrar ali, entre parentes, primos e primas, debaixo da jabuticabeira, deixando a vida passar entre galhos e folhas, pela alma.
Nunca soube por que aquela jabuticabeira ficara isolada, mas sei que, em sua volta, muitas conversas ela alimentou. Talvez fosse esse o seu destino, reunir os meninos; talvez sua sina, aproximar as meninas. Carregada, era visitada, o tempo todo, pela boca desejosa. Fora de época dos frutos, servia de abrigo e acolhia os amigos para um dedo de prosa.
Assim, sob sua proteção e com a permissão de meus avós, brincávamos e aprendíamos a colher a vida no pé, plena de jabuticabas e palavras, galhos e travessuras. A fruta madura parecia nos ensinar o processo do amadurecimento. Primeiro se é semente, mas, logo, a gente cresce e aprende a florir para, só então, amadurar.
Os anos passavam e lá estava ela, imponente, pronta para próxima florada. Sua longevidade se manifestava em bolas de doçura. Parecia até que me esperava a cada época de férias para encher os meus olhos de bolinhas capazes de preencher minha alma. Cresci ao pé da jabuticabeira. E ela, sem sair do lugar, viu passar muita gente, muitas vidas por lá. Talvez ela tenha guardado muitos segredos, confissões, medos. Partilhado muitas alegrias, realizações, fantasias. Quais foram os sonhos que não puderam florir entre seus galhos?
Ainda hoje a velha jabuticabeira continua lá. Fiel. Enraizada. Dando fruto onde fora plantada. Adoçando vidas. E eu já não mais menino, sigo também o meu destino – procuro almas com largos quintais e, quem sabe, uma jabuticabeira carregada para se doar.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg












