
O fogão era a lenha e o tacho, de cobre; a vida era simples, mas nobre. Minha avó adoçava a vida, fazendo doces. Sempre tinha um que acabava de sair do fogo, pronto para ser consumido. Eram doces de frutas, frutos da estação.
Dentre tantos doces, o de goiaba me chamava à atenção. E pela chama do fogo se apurava, com paciência e talento, um doce que sempre ficava no ponto. No ponto de ser apreciado por toda a família, principalmente para quem ia passar às férias na casa dos avós, em Caxambu.
Desde menino, observava que, além da tradicional goiabada com queijo, meu avô tinha um outro costume: acabava de almoçar e pedia à minha avó pratos fundos e leite. Despejava o líquido branco no prato e, dentro, colocava um naco de goiabada. Com uma colher, tirava pequenos pedaços submersos no leite e levava até a boca, saboreando, com satisfação, a sobremesa. Todos na mesa seguiam o ritual. Assim, aprendi com ele a beber o néctar e a comer a ambrósia dos deuses em colheradas compassadas, prazerosas e devidamente apreciadas.
O leite vinha direto da fazenda e era fervido e resfriado naturalmente, o doce era caseiro e tinha a marca e o talento de minha avó. O sabor ganhava ainda mais satisfação quando a goiabada era cascão. A cada colherada, mastigava os pedaços da goiabada e dava ao paladar o prazer de algo verdadeiramente degustado.
Eu ainda sinto o aroma e o gosto da goiabada cascão com leite, assim como guardo no coração as imagens e os almoços em família. Em minha memória, tudo vem claro como água, branco como leite e gostoso como um bom naco de goiabada.
Nos dias de hoje, sempre que encontro uma boa goiabada cascão, deixo me consumir pela memória, o paladar e o coração. Com uma profunda saudade, saboreio a goiabada com leite em prato fundo. A cada colherada, aprecio o doce, a vida e o tempo consumado dos dias em que passava férias na casa de meus avós.
Parece que a vida é feita em um grande tacho de cobre. Nele produzimos frutos que são consumidos. O fogo, assim como o tempo, apura e purifica as pessoas. Na vida, tudo pode parecer consumado, mas sempre fica um gostinho de quero mais.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg















Goiabada com leite…hábito do meu pai! Memórias da minha infância. Eu dispenso o leite…mas sigo com a goiabada cascão, um naquinho…hum! Crônica saborosa! Obrigada
Um hábito antigo conservado pelos msis velhos e de quem descobre essa maravilha.
Muito bom…. Meu marido ama até hoje
Legal. Meu amigo então gosta?!. Qualquer dia vamos bater uma pratada.
Ahhh esse tacho de cobre…parece fazer parte da vida de muitos meninos e meninas de 60 anos. Qtas delícias eram preparadas! Os doces de frutas e a goiabada cascão não podia faltar. No mês de abril o famoso pinhão e aproveitava-se a brasa do fogo pra assar milho verde! Muitas saudades…muita gratidão por ter vivido tudo isso!
Cada coisa gostosa. Cada doce bom. Muitas delicias que marcaram nossas vidas.
Ontem, ao me sentar para o almoço em um restaurante no Serra Clara, em Delfim Moreira, meus olhos repousaram sobre o cardápio, onde se anunciavam sorvete e marmelada. Bastou essa visão singela para que, num instante, eu fosse transportado à casa de meus pais. Lá, entre paredes que guardavam histórias e afetos, servia-se marmelada ou goiabada, ambas preparadas com maestria pelas mãos de minha mãe, que era exímia na arte de transformar frutos em doçura.
Essas lembranças, despertadas pelo acaso de um cardápio, trouxeram-me não apenas o sabor da infância, mas também o perfume do lar, o calor da família, o valor do trabalho e a essência da saúde. Como se cada pedaço de doce fosse um elo invisível, ligando passado e presente, memória e vida.
Puxa! Belo texto adoçado com lindas memórias. O degustativo nos leva a viajar ao passado e quase mastigar as lembranças. Adorei.
Bom demais, ainda mais na casa da vó.
Alemdis doces éramos muitos netos e a festa era completa cheia de alegria e comilança. Bkns tempos.
Saboreei cada segundo dessa leitura deliciosa mesmo não tendo provado ainda uma goiaba com leite. No entanto, as doces memórias da roça, o leite fervido no fogão a lenha, os doces da minha avó e da minha mãe são inesquecíveis, e me reportar a essas lembranças me situei num estado agradabilíssimo nessa revivência saborosa. Quero aproveitar a oportunidade e trazer aqui um costume peculiar do meu pai. Ele adorava saborear e sempre a tarde, a sobra do arroz do almoço com leite e açúcar…e acredite, aquela alquimia gastronômica era uma delícia! Gratidão Vitalícia por nos levar a essa viagem. Reviver momentos ricos com nossos avós é uma sensação inexprimível!
Viver e saborear memórias. Experimentar o doce da vida é tudo de bom e prazeroso.
Infância boa demais
Delicias da vida e da infância.
Nunca comi mas agora deu vontade. Vou experimentar.
Vai se deliciar. É uma delícia.
Que venham em nossas vidas mais almoços em família, mais memórias afetivas ! Assim alguém sempre terá lembranças em que o afeto sele o mais valioso no ser humano , a beleza das interações!
O tato, o contato e os sabores, tudo se mistura clm a doçura da vida.
Sim. Que tudo de bom se repita em nós e em nossas memórias.
Poesia com gostinho de infância. Amei! Parabéns pelo texto.
Gosto, cheiro e saudades guardados na memória e no coração.
Tenho 75 anos, gosto de dizer que fui criado com leite com angu, leite com goiabada, leite com melado de cana, leite com farinha. Assim essa cronica despertou em mim intensa vontade de repetir o prato nela descrito. Contudo tenho a goiabada aqui em São Paulo, caseira, que trouxe de Cruzilia/MG preparada por uma prima “da roça”, mas não tenho o necessário leite naturalmente produzido, furtado fresquinho da vaca. Assim só me resta lamentar e saborear um naco da goibada com queijo também natural pois meu pai recitava:
” Doce sem queijo é abraço sem beijo”.
Valeu Antonio Trotta.
Lindas lembranças e sabores ímpares. Também vale o queijo com goiabada, outra doçura similar.
Goiabada com Leite
Dos sabores da infância, não me esqueço do doce de goiabada com leite.
Era uma festa na cozinha: lavar as goiabas, descascar e cortar, tirar as sementes e, claro, sem perder nada, a gente comia tudo. A polpa ia para o tacho de cobre em fogo médio. Vovó cuidava do regulador de calor que ficava na chaminé do fogão. Ele mais aberto, fogo brando, pouco calor; ele mais fechado, fogo alto e tacho fervendo.
A gente aprendia com os mais velhos e, enquanto aprendia, provava das delícias do doce, goiabada com leite. Era uma festa para a criançada e trabalho pesado para os adultos. Não podia parar de mexer o tacho, senão desandava a receita.
Doce no ponto, era colocado na água para saber se deu certo. Receita, vovó tinha de cabeça: goiaba e açúcar na quantidade certa, não errava uma!
Saudades daquele tempo. Hoje ainda vemos doces de goiabada nas prateleiras dos supermercados, e ainda há quem se arrisque a fazer a receita em casa. Uma felicidade que invade nosso coração e adoça nossa alma.
Saudades da minha avó, daquela cozinha, do fogão a lenha. Se foram com o tempo, restaram doces lembranças.
Adilson Junior
25/05/26
São muitas e boas saudades. Sempre fica aquela lembrança que se sente na alma.
A sabedoria popular nos lembra que cuidar da saúde pode ser também um gesto de cultura. Fazer doces em tacho de cobre não era apenas tradição: o cobre ajuda a fixar o ferro em nosso corpo, transformando receitas em verdadeiros remédios. Resgatar essas práticas é valorizar a memória, a cura e o cuidado que atravessam gerações.
Doces, lembranças e Curas tudo em um só luga.r
Goiabada com leite! Tem jeito e cara de vó! Saudades da.minha vozinha! Fazia delicias! Obrigada amigo Trotta, por me trazer esta lembrança e sabores de volta!
Sabores do tempo. Saudades e memórias.
Enquanto lia o texto fiquei com água na boca,deu vontade de saborear goiabada com creme de leite.
Uma delícia para adoçar a vida!
Uai. Por que não?! Curta e viva essas delícias.
Eu nunca comi goiabada com leite. Parece ser gostoso. O texto me fez sentir vontade, vou experimentar .
Amigo me vi no seu poema, meus avós faziam o mesmo, doces de diversos sabor, frutas curtidas, goiabada, doce de batata doce, doce de leite. Aprendi com a vovó a fazer muitos deles. Amigo eta tempo bom, que não volta mais, confesso que até hoje eu adoro cortar goiabada no leite e saborear.
Memória afetiva gostosa. Papai preparava um delicioso doce de goiaba. Quantas e quantas vezes eu apreciava vendo-o descascar suculentas goiabas, vermelhas e brancas, depois colocava açúcar, água, cravo da Índia e levava ao fogo de lenha. O cheiro emanava pelo ambiente saindo porta afora deixando os transeuntes com água na boca. Algumas pessoas degustavam o doce com farinha branca, eu achava exótico, outras colocavam creme de leite. Cada qual com seu paladar diferente.
Ah,Trotta!
Comíamos um prato de goiabada com leite,antes de saírmos para a escola. Eu e minhas irmãs!
Era uma refeição costumeira já que produzíamos na fazenda!
Trago na memória o aroma dos tachos de goiabada em fervura… que saudade!
Abraço
A combinação clássica de goiaba com leite traz à tona um dos sabores mais marcantes da infância, frequentemente lembrado pela famosa combinação de goiabada com queijo (Romeu e Julieta) ou pelas vitaminas cremosas batidas no liquidificador. Nutritiva e reconfortante, é uma dupla que une a doçura e as vitaminas da fruta ao cálcio do leite.
Trotta, seu texto me fez lembrar do pavê que minha avó sempre fazia quando ia passar ferias em sua casa em Campanha. Guardei a receita, que é um sucesso entre amigos. Sempre que o faço, lembro-me dela e desse delicioso carinho que marcou minha vida e que está marcando a vida de outras pessoas hoje.