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Home Destaques

A VIDA ATRAVÉS DA TELA

DE MARIA ÉLIDA MACHADO

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
10 de maio de 2026
em Destaques, Vida Viajante
25
A VIDA ATRAVÉS DA TELA

first person view of man photographing mountain landscape by the phone, mans hands with phone on the foreground

Estamos no litoral nordestino, onde o mar é calmo, a água é quente, a brisa é constante e as enseadas formam imagens perfeitas como cartões postais. O mar toca nas rochas, encontra obstáculos para chegar na areia, formando piscinas de águas azuis e calmas, onde é possível ficar de molho e até dar umas braçadas sem temer ser levado pelas ondas, no meu caso, é claro, que tenho medo da força do mar. As imagens enchem os olhos, o silêncio inunda os pensamentos, a imensidão dos lugares nos afasta de qualquer vizinho inoportuno. Mesmo nesses lugares paradisíacos, na paz da natureza, lá estão eles: os seres que só contemplam as belezas através da tela do celular. Eu sentada numa pedra, pés de molho, massageando-os na areia grossa ao fundo, observo. Lá vem ela carregando seu celular acima do corpo, toda errada, se segurando nas rochas para conseguir a melhor paisagem. Resvala várias vezes, ainda bem para ela que estas cenas não estão sendo filmadas, o making  of seria divertido.

A loura bonita subindo na rocha em três apoios, uma mão está firme, para cima, segurando o celular, o equipamento mágico que faz tudo ficar bonito, em cujas imagens todo mundo é feliz. E lá vai ela, enfim chega ao lugar ideal, agora é a hora de escolher o melhor ângulo, celular pra lá e pra cá, um pouco mais acima, um pouco mais abaixo, cabelo para um lado, para o outro, e pronto! Chega à imagem perfeita: uma selfie do seu rosto bonito emoldurado por céu e mar confundindo seus azuis. Ela enfrentou as pedras, deve até ter esfolado os joelhos para chegar ao topo, e logo fez o caminho de volta. Eu pensando que naquele momento ela pararia para observar a paisagem linda e sentir aquele cheiro único. Que nada! Tudo que aquele cenário poderia proporcionar já estava captado pela tela. Para o celular tudo, para sua retina, nada! Cada vez mais me parece que as pessoas optam por olharem as belezas através da tela dos seus celulares. Agora estamos num mirante de montanhas e a cena se repete. Ao longe, vales profundos, casinhas fumegando suas chaminés, um ventinho cortante toca meu rosto e invade minhas narinas. Respiro umidade, é inverno, está frio. Ao meu lado, um rapaz saradão, corpo malhado, estética comum a todos do seu grupo. Agora é uma procissão até um canto, na ponta de uma rocha, para chegar ao limite do desfiladeiro, mas não é para observar a imensidão verde ou para sentir plenamente o ventinho, o ar limpo. É para conseguir a melhor imagem. Na sua ida para o ponto estratégico, o rapaz não observou nada, o cenário foi escolhido não para encher os olhos de verde, mas para captar a melhor pose, a selfie perfeita! E se não ficar perfeita naquele momento, o filtro resolve. E a vida segue, a paisagem linda, o momento único sendo observado através da tela do celular. Dos cenários maravilhosos passo para outras cenas do dia a dia, no estádio de futebol, por exemplo. Eu gosto de futebol, gosto de ir ao estádio, de torcer pelo meu time, de aplaudir e dizer palavrões por lá. É mágico o momento que toda a arquibancada levanta para assistir a boa jogada, lá vai o craque do time levando a bola, driblando, abandonando os adversários. Ele vai servir o centroavante como um garçom qualificado. Fico olhando o lance sem piscar, vai sair o gol, mas parece que só eu olho direto para o campo. Ao meu redor, todo mundo está esperando o gol, olhando através do celular. O momento mágico, o principal objetivo de o torcedor ter ido ao estádio, que é ver seu time ganhar, é reduzido a um vídeo ou a uma foto. Acho sem graça, sem emoção, para mim é como ver o lance pela televisão. Melhor que aquele povo tenha ficado em casa, assistindo o jogo da poltrona. Melhor também seria aquela moça bonita da praia ter colado imagens da internet nas suas fotos, para colocar nas suas redes sociais, não teria feito tanto esforço para subir nas pedras ou esfolado seus joelhos. Idem os rapazes das montanhas, que não pararam para olhar a paisagem ou para sentirem o arzinho gelado do vale. Não entendo o fetiche do celular que substitui a contemplação. Não entendo a vida através da tela! Não entendo. Não quero entender. Deixa assim…sou mesmo uma velha analógica!

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Comentados 25

  1. GILBERTO JOAQUIM PAIXAO disse:
    5 meses atrás

    Os tempos mudam e os valores também, muito mais vale uma bela foto do que a contemplação, sinais dos tempos e seguimos curtindo cada um com suas preferências……

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      5 meses atrás

      Não me conformo com o sinal dos tempos!

      Responder
  2. Antonio Trotta disse:
    4 meses atrás

    Texto reflexivo e provocativo, minha cara Élida. A melhor e a maior palavra você deixou para as últimas linhas, como se fosse a tentativa de um resgate, um reinicio, um perceber de atos. A palavras é CONTEMPLAÇÃO. O TER COM que AGIR (ação). Cenário natural e completo e as pessoas só querem dele um pedaço, uma simples lasca como recordação. Não percebem o ar, a temperatura, a brisa, os sons, a própria respiração. Contemplar é ter COM quem ou COM o que COMPARTILHAR o todo e o tudo. Há quem se sustente com pouco, ou quase nada. Grato por nos alertar.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Realmente…o termo CONTEMPLAÇÃO resume tudo! Não abro mão dessa relação sublime com a natureza! Obrigada pelo atento comentário.

      Responder
    • Lica disse:
      4 meses atrás

      Elida, que maravilha, vc sabe aproveitar as oportunidades, e contemplar tantas das belezas que a natureza oferece ! Temos olhos pra em chegar, ouvidos pra ouvir e coração pra sentir. Um abraço

      Responder
      • Maria Élida Machado disse:
        2 meses atrás

        Que bom que gostaste! E continua aqui conosco no Exempplar!

        Responder
      • Maria Élida Machado disse:
        2 meses atrás

        Que bom que gostaste. E continua conosco aqui no Exempplar!

        Responder
  3. Luís Delcides disse:
    4 meses atrás

    Bem provocativo. Isso mostra muito a busca pela performance e por likes nas redes sociais! Excelente texto!

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Like, like, like…É a vida na tela! Artificial!

      Responder
  4. João Carlos Freitas Silva disse:
    4 meses atrás

    Fico muito feliz por ver esse teu amor a CONTEMPLACAO, , quando se fala da NATUEZA. Parabéns Comadre pela tua perspicacia em abortar esse tema. Só pra lembrar, antes de criar o Homem, Deus criou tudo o que existe, principalmente, os animais, a vegetação rica, as águas limpas dos rios correndo para o mar.Mas o homem valoriza mais, objetos, do que A CONTEMPLAÇÃO DA OBRA MARAVILHOSA QUE DEUS NOS DEU.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Acho que a natureza é para ser vivida, a partir de todos os sentidos…e sem telas!

      Responder
  5. Sabrina M. Santos disse:
    4 meses atrás

    Infelizmente muitos perdem o melhor da vida, presos em uma tela.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      E são muitos , infelizmente, que só conseguem olhar o mundo através da tela!

      Responder
  6. Fabiane De Souza e Silva disse:
    4 meses atrás

    Muito bom. Não dá para entender mesmo.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Eu não entendo…

      Responder
  7. Teresinha disse:
    4 meses atrás

    Que lindo texto Elida! Parabéns e continue escrevendo textos que nós fazem pensar sobre a importância de viver e curtir a vida deixando de lado tanta tecnológia que se não colocarmos limites nos escravizam .

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Obrigada! Vamos sim, continuar juntas aqui no Exempplar.

      Responder
  8. Laura Lisboa de Magalhães Cantuária disse:
    4 meses atrás

    Perfeita captação Élida! Adorei sua exatidão sobre “para o celular tudo, pra retina nada!”
    É inevitável a gente não registrar imagens na tela, mas também não entendo quando não se deixam sentar, respirar, sentir e olhar de verdade o ambiente.
    As sensações são tão diferentes quando damos tempo para nossos próprios olhos cantarem tudo, e aí entram o sentido da audição e olfato partiparem juntos… É bom demais ser antiga!

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Acho que as pessoas idosas contemplam mais…sentem mais a natureza. Eu acho isso muito bom!

      Responder
  9. Marcelo André Figueiró disse:
    4 meses atrás

    Excelente! É bem assim! ❤️

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Obrigada!

      Responder
  10. JOSE CLAUDIO DOS SANTOS ARAUJO disse:
    4 meses atrás

    A vida resumida num click…Enquanto ela passa sorrateiramente através dos segundos que ainda não foram “selfiados”…AINDA!

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      A melhor vida não cabe na selfie!

      Responder
  11. Luciano Machado disse:
    4 meses atrás

    As pessoas viraram zumbis, eu fico observando a reação. Em cada vez , mas ruas vejo, casais sentam em Cadeiras um com com celular. Conversas, raramente. Nas temporadas tem de tudo, motorista dirigindo,,outra andando de bicicleta alheio ao primeiro acidente.
    Prefiro contemplar as coisas de olhos bem abertos.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Não podemos perder o prazer da contemplação!

      Responder

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