Estamos no litoral nordestino, onde o mar é calmo, a água é quente, a brisa é constante e as enseadas formam imagens perfeitas como cartões postais. O mar toca nas rochas, encontra obstáculos para chegar na areia, formando piscinas de águas azuis e calmas, onde é possível ficar de molho e até dar umas braçadas sem temer ser levado pelas ondas, no meu caso, é claro, que tenho medo da força do mar. As imagens enchem os olhos, o silêncio inunda os pensamentos, a imensidão dos lugares nos afasta de qualquer vizinho inoportuno. Mesmo nesses lugares paradisíacos, na paz da natureza, lá estão eles: os seres que só contemplam as belezas através da tela do celular. Eu sentada numa pedra, pés de molho, massageando-os na areia grossa ao fundo, observo. Lá vem ela carregando seu celular acima do corpo, toda errada, se segurando nas rochas para conseguir a melhor paisagem. Resvala várias vezes, ainda bem para ela que estas cenas não estão sendo filmadas, o making of seria divertido.

A loura bonita subindo na rocha em três apoios, uma mão está firme, para cima, segurando o celular, o equipamento mágico que faz tudo ficar bonito, em cujas imagens todo mundo é feliz. E lá vai ela, enfim chega ao lugar ideal, agora é a hora de escolher o melhor ângulo, celular pra lá e pra cá, um pouco mais acima, um pouco mais abaixo, cabelo para um lado, para o outro, e pronto! Chega à imagem perfeita: uma selfie do seu rosto bonito emoldurado por céu e mar confundindo seus azuis. Ela enfrentou as pedras, deve até ter esfolado os joelhos para chegar ao topo, e logo fez o caminho de volta. Eu pensando que naquele momento ela pararia para observar a paisagem linda e sentir aquele cheiro único. Que nada! Tudo que aquele cenário poderia proporcionar já estava captado pela tela. Para o celular tudo, para sua retina, nada! Cada vez mais me parece que as pessoas optam por olharem as belezas através da tela dos seus celulares. Agora estamos num mirante de montanhas e a cena se repete. Ao longe, vales profundos, casinhas fumegando suas chaminés, um ventinho cortante toca meu rosto e invade minhas narinas. Respiro umidade, é inverno, está frio. Ao meu lado, um rapaz saradão, corpo malhado, estética comum a todos do seu grupo. Agora é uma procissão até um canto, na ponta de uma rocha, para chegar ao limite do desfiladeiro, mas não é para observar a imensidão verde ou para sentir plenamente o ventinho, o ar limpo. É para conseguir a melhor imagem. Na sua ida para o ponto estratégico, o rapaz não observou nada, o cenário foi escolhido não para encher os olhos de verde, mas para captar a melhor pose, a selfie perfeita! E se não ficar perfeita naquele momento, o filtro resolve. E a vida segue, a paisagem linda, o momento único sendo observado através da tela do celular. Dos cenários maravilhosos passo para outras cenas do dia a dia, no estádio de futebol, por exemplo. Eu gosto de futebol, gosto de ir ao estádio, de torcer pelo meu time, de aplaudir e dizer palavrões por lá. É mágico o momento que toda a arquibancada levanta para assistir a boa jogada, lá vai o craque do time levando a bola, driblando, abandonando os adversários. Ele vai servir o centroavante como um garçom qualificado. Fico olhando o lance sem piscar, vai sair o gol, mas parece que só eu olho direto para o campo. Ao meu redor, todo mundo está esperando o gol, olhando através do celular. O momento mágico, o principal objetivo de o torcedor ter ido ao estádio, que é ver seu time ganhar, é reduzido a um vídeo ou a uma foto. Acho sem graça, sem emoção, para mim é como ver o lance pela televisão. Melhor que aquele povo tenha ficado em casa, assistindo o jogo da poltrona. Melhor também seria aquela moça bonita da praia ter colado imagens da internet nas suas fotos, para colocar nas suas redes sociais, não teria feito tanto esforço para subir nas pedras ou esfolado seus joelhos. Idem os rapazes das montanhas, que não pararam para olhar a paisagem ou para sentirem o arzinho gelado do vale. Não entendo o fetiche do celular que substitui a contemplação. Não entendo a vida através da tela! Não entendo. Não quero entender. Deixa assim…sou mesmo uma velha analógica!








