Antigamente — ou melhor, até ontem — quando uma pessoa idosa passava a usar fralda geriátrica, o comentário vinha rápido, quase automático: “ficou gagá”. A frase carregava mais do que constatação; trazia julgamento, desconforto, um certo constrangimento coletivo diante da fragilidade humana.
A fralda, nesse caso, era símbolo de perda.
Pois então chegam mega shows de Lady Gaga e de Shakira (dois anos depois) — e, na mesma praia de Copacabana, jovens (e nem tão jovens assim) passam mais de vinte e quatro horas — alguns, dias — plantados diante do Copacabana Palace, à espera de um aceno, de uma aparição, de um milagre pop.
Sem sair do lugar, sem dormir direito, sem ir ao banheiro; Ou melhor… indo, mas de outro jeito.
Porque, entre mochilas, leques, glitter e devoção, entram em cena as mesmas fraldas geriátricas que, no corpo idoso, seriam motivo de riso, vergonha ou pena. Aqui, não. Aqui, elas viram estratégia. Aliadas. Ferramenta de permanência.
O que antes era sinal de decadência, de repente vira prova de resistência.
E então a pergunta muda de lugar. Quem é “gagá”?
O idoso que precisa da fralda — ou o jovem que escolhe usá-la para não perder um lugar na grade?
Talvez nenhum dos Dois. Talvez ambos.
Talvez estejamos falando apenas de corpos — corpos que vazam, que insistem, que desejam, que se adaptam para pertencer.
Entre o sagrado e o profano, a cena se constrói: gente que canta, chora, dança, se reconhece. Uma multidão que ocupa o espaço, colore o cenário, transforma o calor em coreografia e o cansaço em rito.
Sim, rito, porque há algo de religioso nisso tudo. A espera, o sacrifício, o êxtase coletivo diante das divas. O corpo que suporta desconfortos em nome de algo maior — pertencimento, identidade, liberdade.
E, claro, há também o escândalo. As fraldas descartadas na areia. O nariz torcido da população mais conservadora. O incômodo diante do excesso — de barulho, de corpo, de liberdade.
Mas convenhamos: toda geração tem seu exagero.
A mesma geração que hoje estranha já gritou por The Beatles, já desafiou costumes, já ocupou ruas, já rompeu silêncios. A diferença é que o tempo reorganiza as memórias — e suaviza as rebeldias.
Talvez o que incomode não seja a fralda, seja o espelho.
Porque, no fundo, entre o controle e o descontrole, entre o sagrado e o profano, todos estamos no mesmo caminho: tentando dar conta do próprio corpo — e, quem sabe, encontrar um lugar onde possamos existir sem precisar pedir licença.
GRACE GOMES – Psicoterapeuta e Terapeuta de Casais.
Psicóloga – crp 07/15.702 – Facilitadora de Biodança – IBF 1462












