Creio que a maioria das mulheres, senão todas, enfrentam desafios na sua relação com os próprios cabelos ao longo da vida. Claro que essa relação muda com o passar do tempo. Na infância é a luta para pentear, prender ou suportar as fitinhas e tiaras que as mães impõem. Na adolescência o cabelo nunca está do jeito que a gente quer. Aliás, nada no mundo está do jeito que a gente quer na adolescência, muito menos os cabelos. Na vida adulta, os cabelos fazem parte da agenda. É preciso programar tempo e dinheiro para pintar, fazer escova, retocar as luzes, hidratar, ou somente lavar e secar os cabelos pelas mãos mágicas dos cabeleireiros que, com os mesmos produtos e manejo, conseguem resultados que a gente não alcança em casa.

A vida passa e a luta travada com os cabelos continua para esconder os fios brancos, que teimam em aparecer, cada vez mais rápido e rebeldes, nos mostrando todo dia que estamos envelhecendo. E não tem volta. Há também os produtos. É tanto creme, tantas gotas mágicas, tantos pentes, escovas, secadores e moduladores, que é preciso colocar essa despesa no orçamento doméstico. Travei todas essas batalhas com o meu cabelo e tive todo esse gasto, que não me atrevo a somar, certamente ficaria chocada ao ver o total da grana gasta com os cabelos. Na minha infância tinha que suportar os cachos que minha mãe me fazia. Os cabelos eram modulados ainda molhados e ficavam assim até a próxima lavagem. Na adolescência, a briga era com o cabelo crespo. Eu precisava alisá-los de qualquer jeito e sem recursos. A solução era dormir todas as noites “de touca”, que não era um acessório de cabeça, mas um jeito de prender os cabelos com vários grampos, ao redor da cabeça, que no outro dia pareciam lisos. As mulheres idosas certamente lembram desse ritual noturno das crespas. Antes das festas, a solução era usar nos cabelos o ferro de passar roupa. A gente, fazendo contorcionismo, esticava os cabelos sobre a mesa e passava o ferro quente. Quem se surpreende nesse momento da leitura, saiba que esse procedimento é o precursor das chapinhas atuais, que nada mais são do que ferros quentes, como os que queimavam os cabelos, deixando-os esticados até o final da festa, com bastante reza, ou até cair a chuva, que desmontava toda a produção e os caracóis voltavam. Não tem jeito, ferro de passar, secador ou chapinha, nenhum cabelo esticado resiste a um chuvisqueiro. Só fui gostar do meu cabelo quando a Farrah Fawcett, a primeira pantera loura, do seriado As Panteras, fez sucesso com seu cabelo ondulado e volumoso. A pantera me salvou, passei a deixar meu cabelo natural e até recebia elogios, o que era impensável até então. Cabelos crespos naturais e bonitos! Mas para isso continuava o uso de cremes, com enxágue, sem enxágue, com ou sem uso de difusor. E dá-lhe produtos, e dá-lhe salão, e dá-lhe tempo gasto com os cabelos. Hoje não tenho mais tempo para isso, não tenho mais cabelos também. Logo no início da minha vida viajante, percebi que todo o aparato necessário à manutenção dos cabelos não cabia na minha casinha, concluí que não cabia mais na minha vida. Acho que o envelhecimento é o tempo de libertação, a gente se liberta do trabalho (quem alcança esse privilégio!), se liberta das relações chatas ou opressoras, se liberta das regras sociais. Eu me libertei da saga dos cabelos também. Um dia entrei num salão e pedi para cortar à máquina, quase zero. Fiquei careca sob os olhos surpresos da cabelereira. A sensação foi de alívio. Eliminados gastos e tempo. Economizada a água da minha casinha andante. Vivo careca, minha careca me libertou. Estou em paz com os meus cabelos, aliás, sem eles, e com o espelho. Acho que estou bonita, também não estou muito preocupada com isso. É mais preocupante o que tenho que responder de vez em quando…que não estou “em tratamento”, ou que a minha careca não é “por doença” …















