
O plano teria de ser perfeito. Afinal, era eu ou ele. Ou melhor, eu somente, pois ele nada mais era que algo de mim, alguma semelhança, pensamento e gestos. Mas um clone não pode ser exatamente eu. Deveria haver algo que nos distinguisse, nos distanciasse, nos tornasse diferentes a ponto de sermos únicos.
Até que ele poderia se parecer comigo, ter algumas lembranças de quem eu sou, mas nunca ser eu. Enfim, algo deveria ser feito de imediato para encerrar de vez essa imagem e semelhança de mapeamento genético, ainda mais sem a minha permissão. Eu sou único na minha totalidade, nenhum outro.
Mas, como destruir algo que já foi criado e que diz ser parte de um todo meu, ou, quem sabe, um todo de uma parte minha?
Quando nos encontramos pela primeira vez, em frente ao espelho, minha vida mudou. Como pensar em mim sendo alguém e viver sabendo que eu posso ser um outro? Se eu não sou eu mesmo, quem sou?
Definitivamente, chegou a hora de acabar com tudo isso. Dar um basta nos destinos de um homem clonado. “Cada cabeça, uma sentença”. Há um só destino e um só eu. Posso seguir vários caminhos, ter várias opções, mas eu, somente eu, escolho e assumo a minha sina. Afinal, a vida é minha, só minha, de mais ninguém. Sou eu e pronto! Posso estar inacabado, mas sou eu mesmo, do jeito e da forma que sou, único!
Vou me encarar diante do espelho. Ter uma conversa franca e sincera comigo mesmo e tomar a decisão de não precisar de mais ninguém. Nem do outro em mim, nem eu em outro. Nem que para isso eu tenha que contar somente com a minha intuição e meu instinto. Afinal, sou eu a minha própria reflexão e o meu próprio reflexo, nada além.
Se de tudo não conseguir, só me restam duas alternativas: quebrar o espelho ou admitir que, neste mundo, não estamos sós, somos muito, pelo menos, mais do que um. Inúmeros?
Mas, se eu tiver que escolher entre um clone e eu? Definitivamente, eu!
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg














