
“A liberdade humana é, como a vida, a coisa mais preciosa e valiosa do mundo”.
- de Las Casas
A gente aprendeu que o Brasil foi descoberto pelos portugueses. Mas a gente não sabia que o Brasil, na verdade, foi “recoberto” pelos ibéricos de 1500 em diante. Se aqui existiam os índios, então, já havia moradores naturais e legítimos. Aprendemos que os habitantes daqui eram selvagens, preguiçosos e rebeldes. O que a gente não sabia era que os portugueses exterminavam os índios em busca de ouro, poder e glória e tinham as bênçãos da Igreja. Em suas memórias, frei Bartolomeu de Las Casas já afirmava, por volta de 1552: “Com que direito vocês conquistam este país, escravizam, oprimem seus habitantes? Não são estes seres humanos que devem ser respeitados em seus direitos e que devem ser amados por vocês, cristãos?”. De Las Casas embasou-se no texto bíblico que ensina que “oferecer a Deus os bens tomados aos pobres é como imolar o filho diante dos olhos do pai” (Eclo 34,20).
A gente aprendeu que o Brasil, em 1964, realizou a chamada “Revolução Gloriosa”, impedindo, assim, o fortalecimento do comunismo. Mas a gente não sabia que, para sustentar o novo regime, foi imposta a censura, foram fechadas várias instituições democráticas, inclusive o Congresso Nacional, e realizadas perseguições políticas e mortes. Aprendemos que a revolução seria passageira e devolveria aos civis o poder que, de fato e de direito, pertence ao povo. O que a gente não sabia era que a revolução não passava de um golpe e da tomada do poder pelos militares, com a intenção de se apoderarem do destino e do futuro da nação. A gente aprendeu que existia um inimigo a solta e que o Exército responderia pela segurança nacional. Mas a gente não sabia que qualquer pensamento diferente ou oposto tolhia a liberdade de expressão e de imprensa; e que, para arrancar segredos e confissões, vasculhavam a vida das pessoas.
A gente aprendeu que a história é feita de fatos, que documentos se fazem com o tempo e que muitos devem ser preservados para estudos posteriores, evitando, assim, abrir feridas recentes e não tão bem cicatrizadas. Mas o que a gente não sabia é que o tempo também favorece aqueles que usurparam dos direitos e da vida de muitos cidadãos. Não sabia que, com passar dos anos, os responsáveis estariam gozando de suas aposentadorias pagas pelos contribuintes, muitos perseguidos e presos durante o regime militar. A gente aprendeu que o tempo alivia a dor e os ânimos. O que a gente não sabia é que muitos dos documentos continuam nas mãos de quem justamente deveria passar por um tribunal. Nem sabia ou imaginava que, para se escapar das culpas e responsabilidades, muitos documentos, simplesmente, somem ou viram cinza, em lugares e por pessoas que deveriam estar protegendo a memória nacional e o resgate de nomes, fatos e provas.
A gente aprendeu que liberdade e democracia são palavras que vivem juntas e que só podem conviver em plena harmonia quando princípios básicos são respeitados e defendidos. Mas a gente não sabia que liberdade e democracia são as asas de um pássaro que voa alto e é ousado. O que não se sabia é que, ao perdê-las ou quando elas nos são tiradas, a gente sofre a maior das derrotas humanas. Saber que ainda existe justiça e respeitar arquivos, documentos e memórias é sustentar alicerces para o futuro, com a certeza de que não repetiremos a história. Nem a dos “descobridores”, nem a dos ditadores de um passado próximo. O que a gente não sabia, no pretérito imperfeito, agora, a gente sabe, no presente!
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
atrottamg@gmail.com














