Nossas moradas, às vezes, são em cidades muito pequenas pelo interiorzão do Brasil, aonde chegamos por confusão do GPS ou nossa confusão, por transitar por alguma rótula com múltiplas saídas. Certa vez entramos, por engano, para pernoitar numa cidadezinha pequena e mal-cuidada. Estacionamos na praça central e fomos a um boteco fazer um lanche. Um lugar pouco convidativo, mas costumamos ter essas atitudes de vizinhança, prestigiamos o comercio ao redor da nossa casinha, em troca do acolhimento carinhoso que costumamos receber. O tal boteco era ao lado da rodoviária que, naquele início de noite, estava movimentada, muita gente descendo dos ônibus, provavelmente voltando do trabalho em cidades vizinhas. E nesse lugar encontrei Roberto Carlos. Ele estava ali, pertinho de nós, cantando e tocando, usando um microfone daqueles de braço comprido, como o rei usa, e uma caixa de som aos seus pés. À sua frente, no chão, havia uma caixa com poucas moedas deixadas por fãs que passavam. Um cantor das ruas como muitos que encontramos nas nossas andanças. O Roberto Carlos cover vestia terno azul claro e tênis branco, ambos surrados, meio sujos, talvez seu único look para as apresentações na rodoviária. Seu cabelo seboso era ralo e tinha uma franja de alguns fios, esta como o Roberto Carlos de verdade. As músicas que ouvi durante o tempo em que estivemos ali foram as que obtiveram grande sucesso na década de 70. Meu copo de cerveja gelada aplacava o calor intenso daquele lugar onde aquele Roberto Carlos cantava pra mim. Fechei os olhos e me transportei para a época em que dançávamos de rosto colado, ao som de Detalhes. “Não adianta nem tentar me esquecer, durante muito tempo em sua vida eu vou viver”. Não há quem não encontre uma situação na vida em que estes versos tenham encaixado com perfeição. “Se outro cabeludo aparecer na sua rua, e isto lhe trouxer saudades minhas, a culpa é sua”, imediatamente me veio à cabeça todos os cabeludos da minha rua, um em especial me arrancava suspiros, mas ele só olhava para minha irmã, que era moça, eu era somente uma adolescente suspirando ao portão, quando aquele cabeludo passava. “Se alguém tocar seu corpo como eu, não dia nada”, uau, palavras mortais para os românticos. Nós, sentados no boteco, minha cerveja descia redondo, o mesmo não ocorria com o pastel, que chegou transbordando gordura. E eu transbordando de lembranças, embaladas pelo Roberto Carlos imitação. “Nos lençóis macios, amantes se dão, travesseiros soltos, roupas pelo chão”, nessa hora eu continuava de olhos fechados, o que era melhor do que ver o cantor banhado em suor dentro do seu terno azul celeste. “Vou me perder de madrugada, pra te encontrar no meu abraço, depois de toda a cavalgada, vou me deitar no seu cansaço”…Como pode uma transa ser descrita de forma tão poética? Só os gênios românticos são capazes de criar esses versos. E só os cantores sensíveis lembram de reproduzi-los, como fazia naquele momento o artista de rua, suado, de cabelo seboso, coletando suas parcas moedas. Para o RC cover foi mais um dia de trabalho, no próximo estará na rodoviária de novo, não dará tempo de lavar seu único terno azul. Minha cerveja acabou, meu pastel murchou no prato, afogado na gordura, mas minha fome passou. Me alimentei do passado, de lembranças minhas ou de qualquer pessoa. Naquela cidade, perdida em algum lugar do mapa, naquela rodoviária feia, eu estava satisfeita, eu estava plena! Afinal, eu encontrei Roberto Carlos…e ele cantou pra mim…na rodoviária!















