Cada cidade, cada lugar onde fixamos morada por algum tempo, tem os seus encantos. É preciso estar atento para percebê-los. Gosto de fazer isso, me encanta observar os hábitos, a cultura local, aprender com os moradores. As cidades turísticas, povoadas por gente de todo o lugar, atualmente, me atraem menos.
Conheço muitas, gostei de conhecê-las, porém, nosso brasilzão é tão grande, tão interessante, que adentrar lugares desconhecidos, é a escolha que tenho feito. E tenho gostado! Ao chegarmos com nossa casinha rodante em Santo Amaro do Maranhão, logo um hábito local me chamou a atenção. Esta cidade era, até então, desconhecida para mim, que nasci e me criei no outro extremo do país. Santo Amaro é conhecida por ser uma das entradas para o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, esta uma paisagem que está marcada na minha retina como das mais deslumbrantes, inesquecíveis, já escrevi sobre a imensidão branca dos lençóis. Neste momento lembro do banho de rio que vivenciei por lá.
Logo na entrada da cidade há um ponto de apoio para Motorhomes. Nada mais do que um espaço a beira do Rio Alegre, rio que atravessa a sede do município, ao lado da ponte principal. No lugar, rústico, há uma pequena praia e poucos quiosques, que fornecem água e energia para os Motorhomes. Não lembro quanto pagamos, mas, se moramos por lá, o preço foi honesto. Foi fácil perceber que estávamos em um bairro periférico, do lado de cá do rio. Do lado de lá, depois da ponte, estavam as casas melhores, o comércio, os serviços de passeio aos lençóis, que são muitos por lá. É sempre assim, os pobres estão na periferia, de preferência escondidos dos turistas, e, lá, junto a eles, estávamos nós. O calor era escaldante, só era possível sobrevivermos fechados na casinha, com ar-condicionado, ou de molho no rio. O banho de rio me chamou logo a atenção. Não o banho de rio para aplacar o calor, o que faziam muitos naquele local, mas o banho da higiene diária. À tardinha e à noite, surgiam famílias inteiras, pais, mães, crianças, com suas toalhas sobre os ombros e sabonete na mão, para o banho de rio, no Rio Alegre.
Naquele local as águas do rio são escuras, deve ser pela vegetação que descansa no seu fundo, formando um tapete de folhas. Não entendo o fenômeno, só sei que a água do Rio Alegre é quase preta, e muito límpida, ao adentrá-lo, a gente o vê translúcido, lindo! Como faço sempre, observo o hábito local para imitá-lo, para me sentir integrada ao ambiente. A permanência das crianças na água, naquele momento, não era para brincar, era hora da higiene. Os pais lavavam os pequenos e, ao mesmo tempo, tomavam seu banho. Observei que usavam pouco o sabonete, só nas partes mais necessárias, o querido leitor me entende. As mulheres, da mesma forma, usavam pouquíssimo xampu, uma vez só. As de cabelos ondulados, talvez, passassem algum creme modelador, ao voltar para casa. Lembro disso da época que eu tinha cabelos, antes do meu livramento. A água do rio, sempre correndo para o seu destino, levava a pouca espuma dos banhos da gente dali. O ritual era sublime! Após o banho, as pessoas voltavam para suas casas, passando em frente à minha porta, onde colocariam uma roupa seca e as crianças iriam logo para a cama. Claro que passamos a fazer o mesmo.
Naquele local, no Rio Alegre, nos alegramos com o nosso banho de rio, em todas as noites que moramos por lá, noites escuras como as águas do rio. Águas que deixaram minha pele macia naquele período, nem precisei de hidratante corporal. Gostei da sensação, gostei daquele hábito singelo do banho diário no Rio Alegre. Santo Amaro do Maranhão, para mim, não foi só a entrada para os Lençóis Maranhenses.
















