A estrada plana, a reta interminável, me faz deslizar nos pensamentos e nas lembranças da minha infância. Me lembro do meu pai. Um homem de aspecto tosco, figura pesada, ombros largos, sobrancelhas grossas. Na adolescência, quando passamos a ter televisão em casa, nos filmes de faroeste, identifiquei que meu pai se parecia com Charles Bronson. Apesar da aparência rude, ele era calmo, não lembro de nenhum grito dele, assim como de nenhuma gargalhada. Parece que vivia sempre na mesma rotação, lenta, meio sem emoção. Era capaz de dizer coisas ofensivas ou engraçadas, sem levantar a voz, sem alterar seu ritmo. Tinha posições firmas sobre a vida, porém, só as expressava se provocado. Era capaz de se manter horas calado, em meio a discussões ao seu redor.
Minha mãe é que resolvia tudo em casa, apesar de que, hoje, acho que as decisões eram de ambos, porém, era ela que as verbalizava e fazia com que fossem cumpridas. Sempre as mulheres, em qualquer época! “Fala com tua mãe”, “tua mãe é que sabe”, era tudo que dizia quando precisávamos, eu e minha irmã, de permissão para qualquer coisa. Já íamos direto a ela, pois sabíamos que ele não nos falaria nada diretamente.
Na minha infância, meu pai era vendedor externo de um distribuidor de secos e molhados, visitava armazéns de toda a região, fazia as vendas, anotava os pedidos. Com dois ou três anos de escola somente, tinha letra bonita e fazia conta de cabeça. Para trabalhar, usava um tal livro de preços, grande, de capa dura, escrito a lápis, produtos em ordem alfabética, que era muito conhecido por nós, que tínhamos, de vez em quando, que ajudá-lo a atualizar os preços. Lá íamos nós, à noite, depois da janta, com as listas datilografadas da empresa em mãos, a atualizar os preços no livrão, tinta, coador de café, panela, urinol. Tinha de tudo no Sperb Kampf, este era o nome da firma onde meu pai trabalhou quase toda a vida, primeiro de carroça, depois de bicicleta e, por último, de lambreta.
Éramos nós quatro, meu pai, minha mãe, eu e minha irmã, meu irmão entra na história bem mais adiante. À noite, nossa rotina era jogar varetas, moinho, devagar (o nome do jogo era esse mesmo!), televisão só teríamos muitos anos depois. Se a competição fosse de duplas, éramos nós dois, eu e ele. Quando ainda bem pequena, eu gostava de ficar no colo do meu pai, à beira da mesa, enquanto ele lia o “Médico do Lar”, um livro de condutas e remédios caseiros que solucionavam todos os problemas, eu gostava mesmo era das ilustrações, coloridas, com dobras que permitiam que a gente dissecasse os órgãos e fosse descobrindo as cavidades do corpo humano. O livro é uma relíquia que, hoje, está com meu sobrinho, que é médico.
Se bem guardado, o livro deve ainda ter o cheiro de cigarro de palha que meu pai fumou a vida inteira. Nunca teve problema de pulmão, talvez porque o cigarro fosse feito com o fumo em corda e palha de milho que ele mesmo preparava, pouco ou nada de aditivos químicos. Preparar o fumo em corda, cortar, descascar, moer na palma da mão, amaciar a palha de milho, era um ritual em que ele mergulhava em silêncio e logo ficava envolto em fumaça, à primeira chupada, acho que não tragava. Quando no seu colo, eu sentia seu cheiro, ele tinha cheiro de fumo. O cheiro não me agradava, o que me agradava mesmo era o seu colo. Nunca mais vi fumo em corda, mas, agora, no meio da viagem nos meus pensamentos, fecho os olhos e posso sentir ainda o cheiro do meu pai.
Um caminhão lento à frente faz meu marido frear, alterando o ritmo da estrada e me trazendo à viagem real, ainda sentido a fumaça do fumo em corda…sentindo saudade do meu pai.
















