
Perdoe-me por abraçá-la, assim de repente. É que hoje é Dia das Mães e já não tenho mais a minha. Ainda não fez um ano que partiu e, às vezes, me pego ao telefone ligando para ela. Outro dia mesmo, estava comprando pão de queijo para minha mãe comer mais tarde. Ontem mesmo, pensei em almoçar com ela para contar as novidades.
Desculpe-me, apesar de não conhecê-la, de apertá-la fortemente em meus braços. Não estranhe tanto; apesar das aparências, sou apenas um menino querendo colo e afeto materno. Afinal, foram anos de gestos, frases e repetições carinhosas que aprendi a dar, pois aprendi a recebê-los. O beijo sempre foi o advento dos encontros e diálogos que eu tinha com minha mãe. Era como um estalo gostoso que se fazia ouvir na alma. Desculpe-me; talvez, ao abordá-la, fui pego de surpresa com alguma semelhança. Quem sabe foi o jeito, o andar, os movimentos, o sorriso, o olhar. Não sei bem o que me fez agir tão espontaneamente. Deve ter sido a saudade que bateu forte demais.
Aceite o meu abraço filial. Talvez, nem tenha a idade para ser minha mãe. Mas, realmente, não preciso de outra. Só quero curtir a que eu já tenho ou, pelo menos, já tive. Ela me basta. Ela já preenche, e muito, o meu ser e as minhas reminiscências. Mas, hoje, justamente hoje, é Dia das Mães e ela não está mais aqui em carne e osso. Sinto sua ausência física, seu abraço apertado e seus beijos estalados. Hoje, me falta o que tive em abundância. Talvez seja por isso que dói tanto.
Perdoe-me se, por acaso, ao abraçá-la, derrame algumas lágrimas. Sempre fui um sentimental e, como percebe, não consigo me conter, ainda mais num dia tão especial. Nem mesmo precisa responder aos meus sussurros. São frases soltas, construídas durante anos ao lado dela. São palavras balbuciadas, gemidas, entre uma lembrança e outra. Apenas empreste-me seu ombro e permita-me sentir, um pouco, do mistério de ser, simplesmente, mãe.
Um dia como esse não pode passar em branco. Um abraço é o mínimo que todos os filhos deveriam dar. Um abraço é o mínimo que todas as mães deveriam receber. Nesse dia, se eu fosse Deus, faria um milagre: a todo filho sem mãe seria permitido abraçá-la, estando ela onde estivesse. Tudo giraria em torno desse dia, que se tornaria mais que especial, único, assim como as mães.
Um abraço, um simples abraço pode aliviar a dor. Sei, pois, que, quando criança, ao me machucar, bastava um abraço apertado e tudo ficava curado, mesmo com o sangue a escorrer. Hoje, quem pode me apertar entre os braços, estancando as minhas feridas? Mãe sabe cuidar. Os cuidados que ontem aliviavam a dor, hoje, justamente nesse dia, se transformam em cicatrizes e feridas expostas. Feridas que não machucam, mas doem.
Queira me desculpar pelos atropelos e susto que causei. Sei que, hoje, ninguém deveria ficar triste. Hoje, Dias das Mães, é um dia feliz. Aliás, para quem tem mãe todo dia é Dia das Mães. Mas, para quem já perdeu a sua, todo dia é um dia a mais sem ela. Gostaria de poder dar um abraço para amenizar a falta que ela me faz.
Permita-me que, entre os míseros segundos em que estivermos abraçados, eu possa imaginar que minha ousadia, nesse dia, não foi em vão. E que, num aperto profundo, eu possa sentir que mãe, a gente não vive em um segundo, mas a carrega por toda vida, entre os braços e os abraços, protegida dentro do coração.
Antonio Trotta – Jornalista
@atrottamg








