Sete horas da manhã. O telefone toca insistentemente.
Ainda sonolenta, reconheço o nome e atendo imediatamente. Do outro lado, uma voz exausta e desesperada me conta que alguém que eu acompanhara recentemente havia tentado tirar a própria vida durante a madrugada.
Naquele instante, o sono desaparece. Entra a psicóloga. Orientações, contatos, emergência, articulação com outros profissionais, possibilidades de internação, família, avaliação psiquiátrica, cuidados para que aquela pessoa não permanecesse sozinha.
E, no meio de tudo isso, uma pergunta que nenhum manual consegue silenciar completamente:
E se acontecer novamente? No Setembro Amarelo…
Justamente no mês em que tanto falamos sobre prevenção ao suicídio, eu me via diante daquilo que nós, profissionais da saúde mental, conhecemos teoricamente, avaliamos clinicamente e procuramos prevenir — mas que, quando acontece perto de nós, deixa de ser conceito. Atravessa.
Ao longo da vida e da profissão, conheci diferentes histórias de pessoas que anunciaram que não queriam mais viver. Algumas foram ouvidas. Outras, infelizmente, não.
Lembro de um homem muito deprimido que dizia às pessoas próximas que acabaria com a própria vida. Suas palavras foram interpretadas como exagero ou brincadeira de mau gosto. Não eram.
Outro, também profundamente deprimido, estava acompanhado de um amigo quando se afastou por alguns minutos. Não voltou.
E houve ainda aquele cuja família conseguiu interromper uma primeira situação gravíssima. Poucos dias depois, ele encontrou outra maneira de morrer.
Nenhum desses homens estava em psicoterapia. Não digo isso para afirmar que a psicoterapia teria impedido suas mortes. Seria pretensioso e irresponsável.
Mas uma pergunta permanece:
Quantas pessoas chegam ao limite da dor sem encontrar um lugar onde possam falar sobre ela?
Também acompanhei pessoas que encontraram pequenas razões para permanecer.
Uma mulher, depois de uma longa história de sofrimento, encontrou na maternidade desejada um projeto de futuro.
Outra, extremamente solitária, estabeleceu um vínculo profundo com um pequeno animal. Quando os pensamentos de morte apareciam, vinha junto uma pergunta: quem cuidaria dele?
Não foram os filhos nem o animal que trataram a dor. Mas alguma coisa surgiu ali: vínculo, pertencimento, responsabilidade, futuro. Um fio.
E, algumas vezes, é por um fio que alguém começa novamente a se ligar à vida.
Talvez por carregar tantas histórias, a situação recente tenha me atingido tão profundamente.
Havia acompanhamento. Havia profissionais envolvidos. Havia família, orientações e uma rede sendo construída. Ainda assim, aconteceu. E então encontrei a palavra que durante horas procurei para nomear aquilo que sentia: Impotência!
Nós, psicoterapeutas, podemos escutar, reconhecer sinais, avaliar riscos, encaminhar, envolver familiares e construir redes de proteção. Mas não podemos entrar na mente do outro e retirar de lá o desejo de morrer. Responsabilidade não é onipotência.
Naquele dia, depois de horas envolvida com a situação, veio o silêncio. E com ele, a espera. Esperar uma notícia. Esperar saber se aquela pessoa estava protegida. Esperar uma resposta que não chegava.
Fui nadar. Precisava colocar o corpo em movimento porque minha cabeça continuava trabalhando. Enquanto nadava, voltaram histórias de pessoas que sobreviveram, pessoas que morreram, famílias que ficaram e perguntas que jamais encontraram respostas.
Porque o suicídio reverbera. Nos filhos, pais, companheiros e amigos. E também nos profissionais que estiveram tentando ajudar. Talvez falemos pouco sobre isso no Setembro Amarelo. Falamos — e precisamos falar — sobre quem sofre, sobre reconhecer sinais, procurar ajuda e romper o silêncio.
Mas também precisamos falar sobre quem escuta. Psicólogos e psiquiatras não são impermeáveis à dor. Há pacientes que nos preocupam. Histórias que nos acompanham até em casa. Telefonemas que fazem o coração acelerar.
Depois de nadar, alguma coisa finalmente se reorganizou dentro de mim .A preocupação permanecia. Mas consegui reconhecer novamente o limite entre cuidar e controlar. Posso oferecer minha escuta, minha experiência, minha profissão e minha humanidade. Mas a vida do outro não está em minhas mãos. Talvez este seja um dos ecos menos falados do Setembro Amarelo. Quem pensa em morrer e acabar com sua dor precisa encontrar alguém disposto a ouvir. Quem sobrevive precisa continuar sendo cuidado. Quem fica precisa ser acolhido.
E quem cuida também precisa ser cuidado.
Porque há dores que não ficam registradas no prontuário. Algumas ficam em nós e repercutem por muito tempo em nossas lembranças.
*Grace Gomes, Psicóloga e facilitadora de Biodança, escreve sobre situações cotidianas e suas vivências como psicoterapeuta.














Que linda reflexão!❤️