Adoro ouvir conversas de estranhos, nos ônibus, na praia, caminhando no parque. Viajo nos meus pensamentos a partir dos fragmentos das conversas que ouço. Acho estranho quando vejo as pessoas caminhando ou tomando chimarrão na praça usando fones de ouvido, ouvindo música certamente. O mesmo som que ouviriam em casa, no carro, em qualquer lugar onde não houvesse nada de interessante para escutar. Para mim, essas pessoas perdem o melhor, o som da rua, o ambiental, as vozes das pessoas, os barulhos ao redor. Algumas conversas me chamam a atenção, se posso, fico mais tempo por perto, quero ouvir mais, meu interesse só aumenta conforme a conversa evolui. Falo dos diálogos de alguns com as vozes das suas cabeças. Pessoas falando sozinhas. Sozinhas? Acho que falam consigo mesmas ou com alguém do passado, com alguém do futuro, falam com suas memórias, com o que são no íntimo, com o que gostariam de ser. As conversas são sempre intensas, muitas vezes há brigas, com gritas e gestos agressivos. Numa estação de metrô, em alguma capital brasileira, deixei passar dois ou três trens para não perder tão interessante diálogo. Um rapaz andava pra e pra cá, num circuito bem curto, o que me possibilitava ouvi-lo. Eu sentada, ele andando na minha frente. Planejava alguma intervenção, acho que era uma invasão em algum planeta longínquo, falava sobre o trajeto, as diferenças de gravidade, estratégias para desacoplamento tranquilo da sua nave. Tinha até agenda para o evento, falava “na semana que vem”, às vezes parava, fazia gestos e caretas, assentia com a cabeça, certamente ouvindo orientações de seu interlocutor. Não pude esperar o final da conversa, tomei meu trem e fui adiante. E lá ficou ele, na sua trama intergaláctica.

Outra vez, em um ponto de ônibus, uma mulher brigava com as vozes da sua cabeça. Falava alto, rápido, falava com seu filho eu acho. A conversa girava em torno de emprego, dinheiro, compra de coisas para casa. Às vezes a conversa vinha para o local e tempo real. Descrevia o ponto de ônibus onde estava e a linha que aguardava. E seguia adiante. Parece que solicitava sua presença, reclamava, repetia “tu devia vir”, “tu devia vir”. Pobre criatura, solicitava a presença do filho? Um filho ausente? Um filho perdido? Um filho que nunca existiu? Estaria pedindo auxílio para pagar dívidas? A conversa era sobre dinheiro. Ela se repetia, às vezes xingava. Ainda bem que tomou o mesmo ônibus que eu, pude escutá-la por mais uns dois ou três pontos. O assunto continuava o mesmo. Desceu, permaneceu no outro ponto, a olhei pela janela ao longe, ela continuava acertando contas com seu filho. Esses são os loucos que há um tempo estariam confinados em hospícios, ainda bem que estão por aí, andando de ônibus e metrô, podendo conversar tranquilos pelas ruas com as vozes das suas cabeças. Quem nunca? Eu me identifico com essas pessoas, muitas vezes me pego falando sozinha, faço planos, relembro meus compromissos, digo algum palavrão para mim mesma. Procuro escutar com atenção o que me dizem as vozes da minha cabeça. Os diálogos que estabeleço são comigo mesma, não ouço respostas, não ouço outras vozes…ainda!















Que maravilhoso relato, conversas e conversas…
Fico por aí escutando e registrando…
Sempre converso comigo, mas prefiro não externar para não ser incluído em alguma CID.
Certamente…eu devo ter mais de um CID. kkkkkk
Que texto delicioso! Passeei nas tuas palavras. Tenho este hábito de caminhar escutando o ambiente e pego muitas vezes as palavras das pessoas (em diálogos e monologos). Tambem me pego falando só. Poucas vezes em voz alta, é verdade. Mas é pena porque é a base da análise, né. Se ouvir falando. É terapêutico.
Adoro teus textos!
Obrigada! Temos identificação. Gosto de ouvir as vozes dos outros e da minha cabeça também…
Esta dupla sabe como aproveitar a vida com leves e com conhecimento do dia a dia! Muito legal ter amigos que saibam que a monotonia da vida frusta muito. Que continuem nos ensinando as coisas boas da vida!
E vamojuntooooo por aqui também!
Eu também capto, às vezes, conversas estranhas, gestos de gentileza, ternura e assim tenho assunto para meus poemas…Teço uma teia de sensações com estas conversas alheias,. Nada consegue embargar o fascinio q me move e que nasce nestas conversas do outro para consigo.
Nos inspiramos nas vozes…dos outros e nossas também!
Mas quem nunca?
Aquela conversa que gostaria de ter com alguém… Ou até mesmo a continuação de uma briga, que só depois com a cabeça fria, vem as respostas kkk
Também gosto de andar por aí, sem fone, só observando a população
Esse é um bom aspecto a ser considerado. Escutar as próprias vozes depois de passar a raiva.
Quem nunca né. Maria Élida?
Quem nunca? Eu sempre…kkkk
Eu também converso comigo mesma, rio sozinha, por vezes me escandalizo comigo(!?) Depois volto a razão…
Só tenho receio das conversas dos outros. Principalmente daqueles que após a fala esperam a resposta! Sabe-se lá o que estão dizendo a eles…
Os silêncios no aguardo das respostas dizem muito também…
Adoro as vozes da tua cabeça, Elida!!
Me entendo com elas! Kkkkkk
Sempre! As vozes da cabeça em cada trajeto. E quantas vezes falando só pra firmar alguma coisa e não esquecer de fazer. E tantas vezes na fila do supermercado, sem querer, acabou rindo ou achando estranho os comentários dos vizinhos da fila e quantas mais situações e lugares.
“Tamo junto”, parceira!
Texto gostoso e leve de ler.
Obrigada querida!