Ir a praia para quem, como eu, nasceu e se criou em regiões frias, é um programa de verão, um programa de férias: poucos dias de sol rachando, idas e vindas à beira mar, carregando carrinhos cheios de tralhas. Um banho de sol, um jogo de frescobol ou futebol, uma cerveja gelada, um mergulho de vez em quando e a volta para casa, onde haverá um churrasco e mais cerveja. Após, todo mundo vai dormir até à tardinha, aliás, menos os escalados para lavar a louça e quem fica com as crianças. Estes são seres que têm relógio biológico tão rigoroso que nem o cansaço do mar desregula. Não querem dormir a tarde inteira como os adultos na praia do verão, de barriga cheia. Ir à praia para quem vive no calor, à beira mar, ocorre em outro contexto. Tudo nessa vida depende do contexto. Estamos morando em um desses lugares, cidade de praia, linda, o mar está aqui pertinho, consigo vê-lo, posso sentir a rotina dessa parte da cidade, que vive como eu, neste momento, próxima do mar. Ir à praia neste lugar pode ser um passeio diário, tomar sol, caminhar, jogar futevôlei, aliás, não se vê futebol aqui na “minha praia”, só futevôlei, vôlei de praia, beach tênis e sei lá quais esportes mais modernos. Há uma multidão que trabalha na praia, aluga cadeiras e barracas, serve bebidas e petiscos. Estes estão nos quiosques fixos, afora estes, há os vendedores que passam oferecendo queijo, sanduiche natural, mate. Este cenário divertido e caótico se monta e desmonta todos os dias, o ano todo. Eu estou aqui sentada sobre a minha canga, lendo, escrevendo, observando. Adoro observar o movimento, gosto de perceber a vida que acontece sob os guarda-sóis ao meu redor. Aqui é diferente da praia da minha juventude, aquela praia das férias ou dos finais de semana. Não tenho memórias da beira mar na infância, pois conheci o mar aos 16 anos, levada por meu primeiro namorado.

Perto de mim há gente de todo tipo. Logo ao lado vejo um casal, ambos bonitos, corpos malhados, ele negro, ela de descendência oriental. Estão namorando, abraços, beijos e mãos escorregando nos seus corpos, fingindo que estão se passando protetor solar, mas creio que este é um disfarce para a troca de afagos. Noto que as mãos param, de vez em quando, em lugares estratégicos. Talvez coxas, entre coxas e a região abaixo do umbigo sejam mais sensíveis ao sol, é preciso mais protetor solar por ali. Me distraio com o vendedor de milho verde que passa com seu carrinho, me jogando areia. Adoro milho verde na praia, mas este que vejo não tem a menor graça, perdeu o gosto: milho verde no potinho, debulhado! Não me apetece. Se o comprar, vou sentir falta da água salgada escorrendo na minha boca, da manteiga pingando nas pernas e das fibras da palha do milho enchendo os espaços entre os meus dentes. Milho verde no potinho é só o grão, perde o encanto, perde o contexto. Afinal, tudo nessa vida é contexto. Ao meu lado há uma família, pai, mãe, duas crianças e um cachorro. O pai brinca com as crianças e o cachorro, que é muito esperto, não cansa de buscar a bolinha lá longe, mar adentro, e as crianças não cansam de jogá-la, cada vez mais longe. Fico pensando no que trabalhariam o pai e a mãe, que lhes possibilita estarem na praia numa terça pela manhã com as crianças. É período letivo, os pequenos devem ir para a escola à tarde, fico preocupada, já é meio-dia, vão se atrasar essas crianças. Penso que os pais devem ser trabalhadores hospitalares ou policiais, atendentes em hotéis ou restaurantes, algum emprego por escala. Talvez há muito tempo não tenham conseguido vir à praia com as crianças, talvez hoje tenha ocorrido uma agradável coincidência, ambos devem estar de folga, o que é uma situação muito distante da maioria dos trabalhadores, então hoje até vale as crianças faltarem a aula. E o vendedor de milho voltou tentando me convencer a consumir seu milho sem graça no potinho, seu milho sem contexto. O casal ao lado saiu correndo para um mergulho, talvez o protetor solar tão massageado tenha esquentado demais seus corpos, o que o mar gelado vai resolver.













Como sempre, belas crônicas. Esperando enfeixá-las num novo livro
Adeli
Obaaa. Vambora!
Tudo na vida ganha significado pelo contexto em que é vivido; sem ele, até as experiências mais simples perdem parte de sua essência.
Tudo na vida é contexto! Até o milho da praia tem seu contexto…kkk
Que bom te ter pertinho aqui no Exempplar, Marcelo!
É um privilégio estar pertinho e dentro do mar. Como mineira do Sul de Minas fico ansiosa pra curtir o mar em uma próxima viagem. A imensidão azul…
Quem mora longe sente saudades da praia. Quem mora perto, naturaliza…
Pois é. Vc escrevendo sobre praia e calor e eu escrevendo e vivendo aqui o frio, a baixa temperatura onde atualmente estou morando. Contrastes necessários e naturais. Curta sua praia e tudo o que ela oferece. Vou daqui curtindo e sentindo o meu friozinho, que chegou sem bater na porta.
Maravilhoso nosso país que tem de tudo! Privilegiados são aqueles que podem buscar a melhor temperatura para seu conforto…
Belo texto. Tambem gosto de , quando estou na praia, alem de curtir a natureza e seus sons observar e imaginar sobre a vida das pessoas.
Realmente milho debulhado não tem graça nenhuma kkk bjs amiga
Esse milho sem contexto também nos identifica! Kkkk
O texto tem o ritmo das ondas. Ele vai e volta entre os três núcleos (o casal, o milho, a família) com muita fluidez. O desfecho é perfeito: amarra a insistência do vendedor (o milho sem contexto) com a consequência natural do calor do casal, que precisa do “mar gelado” para resolver o que o protetor solar massageado provocou. É um final bem-humorado, leve e visual Adorei!
Bgduuuuu…eu adorei seu atento comentário!