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Home ARA SÔ

DOENÇA? CRÔNICA!

DE ANTONIO TROTTA

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
22 de março de 2026
em ARA SÔ, Curiosidades, Destaques
21
DOENÇA? CRÔNICA!

– Com licença. A senhora é a professora particular de Língua Portuguesa?

– Sou. No que posso ajudá-lo?

– Minha dúvida é se procuro uma professora de Português ou um médico?

– Desculpe-me, mas não entendi! O senhor está em dúvida entre um médico e um professor de Português?

– Sabe o que é? Abandonei a escola, pois tenho problemas com as letras. Creio ter uma grave doença gramatical, daí a minha dúvida e meu abandono.

– Sei. E quais são os ‘sintomas’ que o afligem na Língua Portuguesa?

– Nossa! A senhora é boa mesmo. Já de cara acertou em cheio. A senhora disse af_igem.  Não sei se é com ‘l’ ou com ‘r’.

– Nesse caso, com ‘l’, no sentido de pena, castigo, tormenta… entendeu?

– Pois é. Eu não sei diferenciar as palavras que são semelhantes na grafia e na pronúncia. Piora quando elas têm a mesma pronúncia e a mesma grafia. Quando sei o significado, não sei qual letra coloco, e se troco, aí o sentido é outro. Isso causa em mim uma grande confusão gramatical e mental.

– Entendo. Diga-me: o que é mais eminente para o senhor neste momento?

– Desculpe, mas não seria iminente?

– Claro que não! Eminente significa importante, principal, enquanto que iminente é o que está para ocorrer.

– É exatamente isto. Não sei mais a quem recorrer. Já até virei motivo de piada. As pessoas chegam perto de mim e começam a me confundir ainda mais. Outro dia, alguém pediu a Câm_ra (a/e) para tirar foto da Câm_ra (a/e) Municipal.

– É, no seu caso, é bastante flagrante…

– A senhora poderia soletrar? Ou apenas dizer se é com ‘l’ ou com ‘r’?

– Meu senhor. Com ‘r’ torna-se fragrante e vem de fragrância, perfume.

– Veja. Misturo tudo, por isso sofro. E se sofro, devo procurar um médico ou uma professora? Devo curar o meu ma_(l/u) pela causa ou pela consequência?

– Calma! Pelo que percebo, o senhor não consegue diferir uma palavra da outra.

– …?

– Oh! Desculpe-me. O senhor pode confundir com deferir, que é aceitar, conceder.  Estou me referindo a di-fe-ren-ciar uma palavra da outra.

– Exatamente. Creio que o diagnóstico, digo, a análise está correta. Já está começando a r_tificar (e/a) o meu problema.

– Há quanto tempo o senhor não consegue discriminar uma palavra da outra?

– Eu d_scrimino (i/e) essa confusão desde sempre. Eu sempre tenho que recr_ar (e/i) minhas frases. Isso é doença?

– O senhor apenas infringe – com ‘r’ – as convenções ortográficas e os conceitos do padrão culto da língua. O que o senhor precisa é infligir – agora com ‘l’ –, aplicando as palavras e seus sentidos corretamente.

– Eu confundo tráfego com tráfico, mandado com mandato, aprender com apreender, auto com alto, calção com caução, calda com cauda, comprimento com cumprimento, descrição com discrição, descriminar com discriminar, despensa com dispensa, eludir com iludir, emergir com imergir, emigrar com imigrar… Eu nem sei dizer se isto que acontece comigo é um incidente ou um acidente. Olha só: já estou começando a s_ar (o/u) frio!

– Relaxe um pouco. O senhor vai acabar tendo um treco, um troço… Calma!

– Outro dia escrevi acento com ‘c’.

– Mas acentuar é com ‘c’ mesmo.

– Só que estava me referindo ao lugar para sentar-se.

– Ah! Assento. Sei. Às vezes, a gente quer apressar a escrita…

– Desculpe-me! apre__ar com ‘ss’ ou com ‘ç’?

– Qual o senhor escolheria?

– Eu penso no ‘ç’, mas me vem os ‘ss’; então, eu penso nos cifrões e imagino o símbolo monetário ‘$’… E a confusão está arranjada.

– Por que o senhor não usa o bom senso?

– Com ‘s’ ou com ‘c’?

– Como assim? Basta espiar como se escreve cada palavra.

– Com ‘s’ ou com ‘x’?

– E desde quando tem ‘x’ em censo ou senso?

– A senhora agora não me acompanhou. Estou falando em e_piar (s/x)?

– Nossa! Isso parece não ter mais conserto.

– Outro dia um amigo para zoar comigo disse. “Vou levar o meu violino no con_erto (s/c), pois, à noite, vamos dar um con_erto (s/c) no teatro. Sofri o dia inteiro por causa de duas míseras le-tri-nhas fora de ordem.

– Interessante!

– Será que posso chamar isso de distúrbio linguístico?

– Há tratamento, mas é permanente. Tive muitos alunos, não nesse estágio avançado, mas se isso continuar pode virar literalmente uma ‘epidemia’.

– Graças a Deus! Então tem cura?!

– Têm vários ‘procedimentos’. O senhor pode começar por frequentar uma escola, tirar suas dúvidas de Português e estudar muito, principalmente quando o assunto for ortografia.

– E de qual ma_ (l/u) sofro?

– Bem. Segundo o meu ‘diagnóstico’, o senhor sofre de Parônimos e Homônimos.

Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta

@atrottamg

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Comentados 21

  1. Maria Cassavia Zaki disse:
    3 semanas atrás

    Muito bommmmmm…!
    Quem, nunca se deparou com essas dúvidas?
    A Língua Portuguesa é cheia de armadilhas…

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 semanas atrás

      Verdade. Palavras muito próximas, semelhantes. Um aprendizado sem fim.

      Responder
  2. João Batista Machado Filho disse:
    3 semanas atrás

    Realmente, a língua portuguesa e difícil, tem seus exceto e nuances.

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 semanas atrás

      Muito cheia de detalhes e riquezas. Uma diversidade. Grato.

      Responder
  3. María Inez disse:
    3 semanas atrás

    Amando este texto…
    As diferenças muitas vezes se tornam gritantes aos ouvidos… diferenças na gramática falada ou escrita… importantes no conceito e no significado das mesmas…
    Basta prestar atenção e ter a certeza do que está escrevendo e qual o direcionamento do mesmo…assuntos e objetos com escrita diferentes…
    Nossa bela e complexa língua portuguesa…
    Precisamos deste olhar para dentro das salas de aula… principalmente na aula de PORTUGUÊS, conheço pessoas, que fala e escreve errado… dói ouvir…por isso o ensino a distância é falho, pois não corrige o erro da nossa escrita.
    Precisamos de mais textos como este semanalmente… Parabéns Trotta…como sempre impecável em suas conclusões…
    Sou tua fã

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 semanas atrás

      Gratidão! Tudo um aprendizado, uma experiência. Cada palavra a sua sentença.

      Responder
  4. Margaret disse:
    3 semanas atrás

    Essa dificuldade descrita será advinda de dislexia? Ou disortografia/disgrafia? Ou questões auditivas? Ou consciência fonoaudióloga (sintática, silábica, fonêmica)? Ou processo ensino-aprendizagem a desejar? Ou variação linguística?

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 semanas atrás

      Boa pergunta. Pode ser muita coisa. Um aprendizado e acompanhamento em cada detalhe.

      Responder
  5. Nilda Maria Bitencourt Bitencourt disse:
    3 semanas atrás

    Quem nunca se sentiu? Quem nunca procurou o GPT?
    Muito bom o tema. Parabéns @

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 semanas atrás

      Verdade. Quem nunca. A vida é um aprendizado.

      Responder
  6. Kátia Falcomer disse:
    3 semanas atrás

    Excelente texto! Adorei!

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 semanas atrás

      Grato. Uma meneira simples de tocar no assunto.

      Responder
  7. maria cristina mallet porto disse:
    3 semanas atrás

    Já naveguei por alguns idiomas e realmente a língua porruguesa/brasileira é muito complexa ma escrita, na gramática, nos significados das palavras. Não é lógica como as anglo-saxônicas, mais simples e objetivas. E, entre as latinas, a mais variável! Acredito que seja o reflexo de nosso povo/cultura! A palavra seja escrita ou falada expressa a alma de um povo! O brasileiro é versátil, subjetivo muitas vezes, prolixo em outras, eclético, criativo! O caminho é a leitura, que traz vocabulário e escrita correta (assim se espera)! Um enorme desafio, ainda mais quando se cria quase uma nova linguagem abreviada pelas redes sociais! Mas, sejamos persistentes! Todos podemos ser educadores! Boa semana!

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 semanas atrás

      Cada idioma os seus desafios. A língua portuguesa é um aprendizado detalhado.

      Responder
  8. Adony Menezes disse:
    3 semanas atrás

    Isso não foi uma “escrita” foi um lindo CONCERTO para CONSERTAR palavras… Foi um tráfego intenso traficando raciocínios para não “infringir” tão rico Português!
    Adorei cada momento do texto que mais parecia uma “partitura” ou “partidura”? … e você o maestro orquestrando confusas palavras em contextos assertivos ou …acertivos? eis a continuação dessa maravilhosa aula de língua portuguesa… que todos nós brasileiros devemos saber na ponta da língua sem a confusão da “Torre de Babel” …rsrs!!!!
    Parabéns em alto relevo por tão magnânima abordagem. Gratidão Vitalícia

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 semanas atrás

      Sim. Sempre há algo a acrescentar. Aprender é uma arte.

      Responder
  9. Luiz Machado disse:
    3 semanas atrás

    Muito intere_ante (ss/ç) o te_to (x/s)!…

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 semanas atrás

      Sim. Escrever é uma arte. E, brincar com as palavras nos dão a direção e a diversão. Grato.

      Responder
  10. Vitória de Azevedo disse:
    3 semanas atrás

    Amei o texto. Uma boa e divertida aula de Português.
    Parabéns!

    Responder
  11. Simone Mone disse:
    3 semanas atrás

    Excelente… uma verdadeira aula disfarçada de diálogo. Português às vezes parece mesmo uma ‘doença’ cheia de sintomas! Rsrs

    Responder
  12. Maria Emilia Moreira de Souza Ramalho disse:
    3 semanas atrás

    Adorei.nada como ter um amigo escritor,sempre aprendendo.nossa língua é muito complexa realmente.
    Eu,como Fono,muitas vezes me deparei com essas questões (Margaret),tive dificuldades em avaliar.
    Mas vamos aprendendo e trocando esses lindos textos.
    Parabéns Trotta

    Responder

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