Os encontros, os novos amigos, são o que de melhor temos na vida viajante. Não costumamos viajar em grupo, não combinamos encontros, como é frequente na vida nômade. Preferimos as surpresas que estão sempre adiante, na próxima parada. A maioria dos vizinhos da estrada vão e vêm, nos cruzamos em algum ponto de apoio, praça ou camping, alguns já se tornaram amigos. Seguimos tendo contato pelas redes sociais, às vezes coincide um reencontro fortuito. Prefiro o contato presencial, os abraços apertados, os beijos molhados, as conversas cara a cara, o que na nossa vida viajante acontece raramente. Sempre que estacionamos para morar em algum lugar, se há nômades por perto, vamos logo fazer vizinhança. É comum esta atitude no universo em que vivemos: nos apresentamos, conhecemos nossos vizinhos, visitamos nossas casinhas rodantes, reciprocamente. Uma vez, logo na chegada em uma morada no sul de Minas, em Caxambu, ao lado do Parque das Águas, me chamou a atenção uma casinha azul ao nosso lado. Uma casinha bonita, montada em uma van como a nossa, toda azul claro. “Dois pra lá, dois pra cá”, assim estava identificada a linda casinha azul, assim como lindos eram seus moradores, o que descobrimos logo depois.

A casinha azul, na verdade, é a sede móvel de um projeto cultural de contação de histórias, teatro infantil, espaço de brincadeiras, desenvolvido por um casal jovem, ele psicólogo, ela atriz. Esse casal resolveu deixar a casa fixa e sair pelo Brasil levando sua arte e vivendo dela. A cada morada procuram trabalho junto a órgãos de cultura, ONGs, escolas, fazem eventos. Apresentam-se livremente em praças e parques também. Não sei como conseguem acomodar seus figurinos bonitos, como também toda a tralha que usam nas brincadeiras. Fiquei logo interessada pelo casal bonito na sua linda casinha azul. Fomos vizinhos por um tempo em Caxambu, conversamos bastante sobre a vida na estrada, nossas moradas, nossas vivências e novos roteiros. Ouvi encantada sobre a sua opção de se desacomodarem, deixarem a vida organizada, em uma cidade grande do interior de São Paulo, para difundirem sua arte pelas estradas, pelas pequenas cidades. Eles andam por aí contando histórias, fazendo teatro, cantando e brincando com crianças e adultos, contribuindo, enfim, com o desenvolvimento de um mundo mais sensível. Soube que a linda casinha azul já conquistou o status de “ponto de cultura itinerante”. Mesmo não entendendo totalmente o que isso signifique, achei lindo. Imagina ter a sua casinha identificada como um lugar de arte e cultura! Me encantam a ousadia, a sensibilidade, a inquietação que mobiliza corpos e almas. A opção pela vida mais simples, para mim, é a maior prova de desapego, creio ser possível viver bem, fugindo das amarras do consumismo que nos engole, até sem que a gente perceba. Para isso é preciso ousar, assim como fez o lindo casal da linda casinha azul. Eles continuam por aí encantando por onde passam, como fiquei eu, encantada com aqueles “dois pra lá, dois pra cá”!













