A transformação digital alterou a forma como as pessoas se comunicam, acessam serviços e realizam atividades do cotidiano. Para a população idosa, porém, a rápida evolução tecnológica ainda representa desafios importantes. Ao mesmo tempo, especialistas apontam que o acesso adequado às ferramentas digitais pode ampliar a autonomia, fortalecer vínculos familiares e até contribuir para a manutenção da saúde cognitiva.
Segundo o médico geriatra da Unimed Araxá, Adriano Roberto Tarifa Vicente, a discussão sobre inclusão digital ganha relevância diante do envelhecimento acelerado da população mundial. A estimativa é que, até 2050, pessoas idosas representem cerca de 30% da população em diversos países ocidentais. “Discutir inclusão digital na velhice não é falar de um pequeno grupo. É falar do futuro de todos nós”, afirma.
O especialista explica que diferentes gerações tiveram experiências distintas com a tecnologia. Enquanto os mais jovens cresceram cercados por smartphones, redes sociais e inteligência artificial, muitos idosos tiveram contato com esses recursos apenas na vida adulta ou mesmo após a aposentadoria. “Quem chegou à tecnologia depois de adulto ou idoso pode precisar de mais tempo, repetição, paciência e acolhimento. Isso não significa incapacidade. Significa apenas que a trajetória foi diferente”, ressalta.
Atualmente, o celular se consolidou como a principal ferramenta de inclusão digital para a população idosa. Por meio dele, muitas pessoas realizam chamadas de voz e vídeo, trocam mensagens com familiares, acompanham notícias, acessam serviços bancários e utilizam recursos relacionados à saúde. Para Adriano Vicente, a tecnologia pode representar muito mais do que praticidade. “Para muitas pessoas, o celular se torna uma ponte de afeto, presença e pertencimento, especialmente quando aproxima familiares que estão distantes”, observa.
Apesar dos avanços, barreiras ainda dificultam o acesso dos idosos ao ambiente digital. Entre elas estão interfaces pouco adaptadas, letras pequenas, excesso de senhas, mudanças frequentes nos aplicativos e o receio de golpes virtuais. No entanto, o geriatra chama atenção para outro obstáculo muitas vezes invisível: o preconceito relacionado à idade.
“Quando alguém diz que determinada tecnologia não é para idosos ou assume que a pessoa não será capaz de aprender, acaba retirando dela a oportunidade de desenvolver autonomia e participar plenamente da vida moderna”, afirma. Segundo ele, o envelhecimento é um processo heterogêneo, e a idade, isoladamente, não determina a capacidade de aprendizagem.
A participação da família também é apontada como elemento fundamental para ampliar a inclusão digital. O médico destaca que a troca de conhecimentos entre diferentes gerações fortalece vínculos e facilita o aprendizado. “Quando um neto ensina a avó a fazer uma videochamada ou um filho ajuda o pai a utilizar um aplicativo, não está apenas transmitindo conhecimento técnico. Está promovendo autonomia e fortalecendo relações afetivas”, explica.
Tecnologia e cognição
Um dos debates mais frequentes envolve os possíveis impactos da tecnologia sobre a saúde mental e cognitiva. Embora o uso excessivo e passivo de telas possa trazer prejuízos quando substitui atividades físicas, convívio social ou hábitos saudáveis, pesquisas recentes apontam benefícios do uso adequado das ferramentas digitais entre idosos.
De acordo com o especialista, estudos têm associado o uso frequente da tecnologia a melhores resultados cognitivos em pessoas com mais de 50 anos. “Os dados mais recentes mostram que a tecnologia, quando utilizada de forma ativa e significativa, pode contribuir para estimular a memória, facilitar o acesso à informação, reduzir o isolamento social e ampliar as oportunidades de aprendizagem”, afirma.
Videochamadas, leitura digital, acesso a músicas, conteúdos educativos e atividades online de convivência figuram entre os recursos que podem favorecer a estimulação cerebral e a participação social.
Para Dr. Adriano, o desafio não está em afastar os idosos da tecnologia, mas em torná-la mais acessível e humana. “Incluir digitalmente uma pessoa idosa não é apenas ensiná-la a apertar botões. É reconhecer sua história, respeitar seu ritmo, reduzir medos e transformar a tecnologia em uma ferramenta de participação social”, destaca.
O médico conclui que envelhecer conectado não significa viver dependente das telas, mas ampliar possibilidades de comunicação, aprendizado, autonomia e cuidado. “A tecnologia será verdadeiramente inclusiva quando for construída e ensinada com empatia. Inclusão digital, na velhice, também é inclusão social, emocional e humana”, finaliza.


Daniel Nacati
Assessor de Comunicação / Unimed Araxá
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