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Home Destaques

A METAMORFOSE DA VIDA: O Primeiro Dia Outra Vez

ARTIGO DE GRACE GOMES

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
14 de março de 2026
em Destaques, Saúde
1
A METAMORFOSE DA VIDA: O Primeiro Dia Outra Vez

Foto: de IA 

Semana passada voltei no tempo. Não foi uma viagem planejada.
Não comprei passagem, não arrumei mala.
Bastou atravessar o portão de um colégio. O mesmo colégio.
O mesmo portão que há quarenta anos acolheu meu filho pequeno, seu pai,
olhos curiosos, passos inseguros.
Hoje, quem atravessou foi o meu neto. A cena era nova. Mas era antiga.
Os corredores pareciam sussurrar memórias.
O cheiro da escola — mistura de caderno novo, salas de aula acolhedoras e
expectativa — era o mesmo.
As vozes das crianças ecoavam como um coral de começos.
Eu olhava para o meu neto e, por instantes, via meu filho.
O mesmo jeito curiosos e pensativo. O mesmo olhar que mistura coragem e
medo. O mesmo mundo se abrindo.
Mas ele estava reticente. Mesmo tendo passado pela adaptação, mesmo
sabendo o caminho, mesmo sendo um menino corajoso — hoje era o primeiro
dia de verdade.
Subimos juntos, diferente das filas que se formavam no pátio, agora eles
sobem com os pais, tios ou avós.
Eu de um lado. Meu filho do outro. Ele no meio.
Nós dois de mãos dadas com ele, como quem sustenta não apenas uma
criança, mas uma travessia.
Meu neto nos olhava com aquele misto de confiança e dúvida.
E então, foi o pai quem começou a falar.
Disse que ali começava a vida escolar dele. Meu filho falava com ele sobre
coragem, sobre futuro, sobre ser um grande homem. Falava firme.
Mas os olhos já denunciavam. Eu escutava, com a garganta embargada.
Enquanto meu filho falava ao filho dele, eu via outro menino.
Via meu filho pequeno, há quarenta anos, entrando por aquele mesmo portão.
A mesma ansiedade. O mesmo medo disfarçado de coragem. Chegamos à
sala. Ele entrou. Meu filho tirou uma foto — porque hoje registramos o que
antes só guardávamos na memória.
Ficamos ali. Abanando, sorrindo, sustentando a força que ele precisava ver em
nós.
Até que a professora fechou a porta. Saímos, Mas algo ficou. Ficou a
consciência de que educar é também saber soltar. Que amar é acompanhar
até a porta — mas não atravessá-la pelo outro.
E quando a porta se fechou, nós dois nos olhamos. Os olhos dele vermelhos.
Os meus já com lágrimas correndo. Nos abraçamos. Um abraço bonito.
Desses que não são só de consolo — são de reconhecimento.
Reconhecimento de que o tempo passou. De que sobrevivemos às décadas.
De que crescemos. De que agora ocupamos outros lugares na mesma história.
Mas há algo que quero dizer além da emoção.
O que mais me tocou foi a beleza da convivência Intergeracional ali.

Para levar ou buscar as crianças é preciso identificação facial. Tag no
automóvel.
Tecnologia, organização, segurança.
E, no meio disso tudo, avós, acompanhando, organizando horários.
Avós sorrindo. Avós como eu — os curingas da vida prática.
E o que vi foi presença. Pessoas se cumprimentando. Olhares cúmplices.
A alegria discreta de quem sabe que está fazendo parte de algo maior.
Vivemos num tempo em que se diz: “Avós precisam viver a própria vida.”
Como se estar com os netos fosse abdicação.
Mas hoje eu senti o contrário; senti vitalidade, pertencimento, continuidade.
Não é sobre deixar de viver. É sobre ampliar a vida.
A intergeracionalidade não nos diminui. Ela nos alonga no tempo.
Hoje, naquele portão com reconhecimento facial, eu reconheci algo mais
profundo:
A vida é feita de gerações que se apoiam. E nós, avós, não estamos ali por
obrigação.
No entanto, o que me tocou não foi a tecnologia. Foi a aldeia; pais, mães,
avós, tios. Gente se organizando para levar, buscar, apoiar. Gente disponível.
Meu irmão — tio-avô dele — também se colocou à disposição; “Se precisar, eu
busco.” Uma frase simples, mas que constrói segurança invisível.
E então me lembrei daquela sabedoria ancestral atribuída aos povos indígenas:
“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.” Como isso é
verdadeiro!
Não se trata de assumir o lugar dos pais. Não se trata de substituir
responsabilidades. Trata-se de rede, de proteção, de apoio, rede emocional
Pensei, com o coração apertado, nas mães solo. Nas mulheres que não têm
essa aldeia.
Nas que precisam dar conta sozinhas do trabalho, da casa, da escola, das
doenças, das reuniões, dos imprevistos. Que peso é caminhar sem rede.
Hoje, quando segurei a mão do meu neto, eu não estava apenas sendo avó.
Eu estava sendo continuidade da minha mãe, que mudou o turno de trabalho
para me ajudar quando eu estudava Psicologia.
A intergeracionalidade não é exploração. É sustentação. Ser útil não é ser
usado. É ser pertencente. Auxiliar não é invadir. É proteger.
Hoje, naquele portão com reconhecimento facial, eu reconheci outra coisa:
A maior segurança de uma criança não está na tecnologia.
Está na aldeia que a espera do lado de fora.
E eu agradeci — profundamente — por fazer parte de uma.

Grace Gomes
psicóloga – crp 07/15.702
Facilitadora de Biodança – IBF  1462
www.graceagomes.blogspot.com  
Psicoterapeuta e terapeuta de casais.
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Comentados 1

  1. Dea disse:
    7 meses atrás

    Inspirador, fiquei emocionada. Parabéns Grace por tua sensibilidade

    Responder

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