Todos nós sofremos desse assédio atualmente. Aparentemente, ninguém está livre das chamadas insistentes e repetitivas: bloqueamos um número, e outro liga a seguir.
Lembro — e você há de lembrar também — o quanto desejávamos um telefone. Só os mais abastados tinham um. Isso depois de comprar ações da companhia telefônica e amargar uma longa espera pela instalação do aparelho.
Quando a linha telefônica era instalada, havia grande alegria. Todos queriam fazer ligações; muitos corriam pela casa para atender ao chamado, com um “alô?” interrogativo.
Mas, junto com ele, vieram também alguns inconvenientes. Os que não tinham telefone, e eram vizinhos, às vezes pediam para usar o aparelho. Muitos também recebiam chamados de familiares nos momentos mais diversos da vida do proprietário da linha telefônica, tirando, assim, a privacidade da família gentil que permitia essa forma de comunicação em seu lar.
Por outro lado, também era motivo de curiosidade:
– “Fulano tem familiares que moram noutra cidade.”
– “Sicrano está passando por problemas familiares.”
– “Beltrano (ou Beltrana) está com relação complicada com o cônjuge, que viaja…”
E, muitas vezes, a pessoa que era chamada na casa do vizinho que tinha telefone falava por monossílabos, um pouco constrangida, para não deixar evidências do que estava sendo dito.
Aos poucos, os recursos de telefonia foram se tornando mais modernos. Já era possível instalar extensões de linhas telefônicas em outras casas. Por vezes, em ambas as casas, a ligação era atendida; então, um saía da linha para fornecer a privacidade necessária ao outro.
Em outros casos, se uma pessoa atendesse e fosse para a outra família, pedia para quem chamava ligar novamente.
Sem contar os trotes, que eram muito divertidos. Ainda lembro de alguns que me fazem rir, até hoje::
“Alô! Você pode me fazer um favor?”
A pessoa que atendia a ligação respondia que sim, então o gozador falava:
“Dá uma olhada na janela se tem um Fusca verde na esquina, por favor.”
Era possível ouvir os passos da pessoa indo até a janela, a demora no retorno e a resposta negativa.:
“Não, não tem nenhum Fusca verde na rua.”
Aí vinha o trote:
“Vai ver que amadureceu!” (Gargalhadas)
E assim se passava o tempo — brincadeiras que não prejudicavam ninguém.
E as ligações a cobrar, com aquela música que ainda reverbera em nossa memória…
Nenhum desses incômodos se compara aos prejuízos e às incomodações que os telefones, na atualidade, têm causado aos seus usuários.
Em primeiro lugar, as infinitas chamadas de spam, call centers oferecendo os mais variados produtos e outras operadoras de telefonia, internet ou sabe-se lá o quê.
Se bloqueamos um número, outro logo entra na fila, fazendo nova ligação. Muitas vezes ninguém fala; em outras, fica tocando aquela música irritante enquanto transferem a chamada — sabe-se lá para onde.
Mas, desses males, ainda menores, há os golpes — ou tentativas.
O “gerente do banco” oferecendo uma linha de crédito; um vigarista se passando por gerente da conta e informando que houve uma movimentação suspeita na conta corrente ou no cartão de crédito, ou que fizeram empréstimos em seu nome.
Isso quando nossos “familiares” não estão passando por dificuldades financeiras e precisam de um PIX urgente para pagamento de um boleto — ou, pior, foram sequestrados, estão em risco ou sofreram algum acidente e necessitam de uma quantia financeira imediata.
Enfim, os golpes estão aí: cai quem está vulnerável, quem é crédulo, quem é pego de surpresa e acaba cedendo à lábia do vigarista.
Mas nosso objetivo aqui, além de alertar — e, neste caso, não só os idosos, mas também jovens apressados e adultos preocupados —, é nos levar a refletir sobre a grande mudança no status do telefone ao longo das últimas décadas.
De um desejo de consumo de muitas famílias, passou a ser uma fonte de incômodo e a gerar inúmeros transtornos para quem o utiliza, apesar de seu valor e de seu papel essencial na rotina de todos.
Por isso, na próxima chamada, cuidado com suas ações, para não vir a sofrer prejuízos muito maiores do que uma simples ligação a cobrar ou um trote inocente.
psicóloga – crp 07/15.702
Facilitadora de Biodança – IBF 1462













