Convivemos com outros caravanistas que, como nós, moram pelas estradas. Um motorhome em especial me chamou a atenção desde o primeiro minuto, ao entrar em um ponto de apoio muito conhecido, localizado em área nobre de uma tal capital brasileira. A casinha estava estacionada numa vaga ao fundo, estrategicamente colocada próximo à torneira, ao ponto de energia e à caixa de descarte de detritos. Do motorhome até o muro estava esticado um fio onde balançavam ao vento, roupinhas de bebê. Havia muitas fraldas de pano. Pensei que naquela situação, naquela casinha, o uso de fraldas de pano não havia sido uma escolha. Era uma casinha pobre, quase um barraco! Estacionamos perto e, logo, fui conhecer a vizinhança, o que faço sempre. Ouvi choro de bebê, contornei o motorhome, acessei a porta traseira, que estava aberta, encontrando uma mãe com bebê no colo. Uma linda garotinha de uns 7 ou 8 meses que logo me sorriu, o que iluminou um pouco o cenário triste. A mãe, uma mulher jovem, bonita, sorriso fácil. A sua casinha, montada numa van curta (os caravanistas conhecem bem este termo!) era quase miserável se comparada com a maioria dos nossos vizinhos pela estrada. Há motorhomes que parecem mansões, com instalações e acabamentos bonitos e caros, duas ou três suítes. A maioria das casinhas que cruzamos não são sofisticadas, mas são organizadas, cada uma ao gosto de seus moradores, todas dignas. Eu diria que a vida é digna nas casinhas sobre rodas.

Não era o caso da casa daquela bela e triste mulher à minha frente. Os móveis se reduziam a uma mesinha com um monte de potes e sacos de mantimentos em cima, um fogão de 2 bocas, daqueles de camping e um pequeno botijão de gás ao lado. Havia um frigobar, pequeno, meio amassado, todo enferrujado. Um móvel baixo, tipo armário de quarto, com uma porta e algumas gavetas desalinhadas, imagino que serviria para tudo, mantimentos, roupas, calçados e alguma tralha, sempre necessária. O colchão de casal e um edredom estavam enrolados no chão, após a área da sala/cozinha, atrás dos bancos da frente do carro. Imaginei que, à noite, todo aquele ambiente se transformava em quarto, ao estender o colchão no chão. Não tinha banheiro. Ao lado do colchão enrolado, havia um balde com tampa e um produto de limpeza ao lado, que, imaginei, seria um vaso sanitário improvisado. Banho, certamente de bacia. Nas primeiras conversas, entre os viajantes, é comum conversarmos sobre de onde somos, quando e por que passamos a viver na estrada, a gente de alguma forma se identifica. Não foi o caso naquele encontro. A vida daquela mulher não tinha nada a ver com a minha. Muito triste sua história. Me contou que era confeiteira e o marido cozinheiro. Ambos ficaram desempregados na pandemia, pegaram o dinheiro recebido nas demissões, venderam a pequena casa que tinham, juntaram tudo e investiram em um sítio. A ideia era viverem no campo, produzir e vender hortaliças, comercializar pães e bolos que, segundo ela, fazia muito bem, seus produtos tinham muita saída na confeitaria onde trabalhava. Sem detalhes, a vizinha contou que não deu nada certo. Não conseguiram desenvolver a atividade prevista, fizeram dívidas que não puderam quitar, ela teve o bebê no meio desse turbilhão da vida. A pequena van que tinham comprado para o negócio virou a casa que estavam vivendo há quase um ano! Não foi fabricada como as que cruzamos por aí, como a nossa. Foi montada do jeito que deu, com os móveis e utensílios que encaixaram, tudo feito por eles mesmos. Segundo ela, estavam morando em diferentes pontos de apoio (lugares em que há disponibilidade de água, energia e descarte de detritos) gratuitos. Não abandonaram a ideia do sítio, porém, por um tempo precisam trabalhar para saldar as dívidas. Ela não pode trabalhar fora porque precisa cuidar do bebê, o marido está se virando como pode, fazendo biscates, não conseguiu emprego fixo ainda. Para aumentar a tristeza dessas vidas, ela contou que tinha outra filha, de 9 anos, fruto de um casamento anterior, que teve que deixar com o pai, pois na vida que estava levando, não cabia a outra filha, mais crescida, que precisava de colégio, de vida mais estruturada, que, naquele momento, ela não estava conseguindo proporcionar. Nesse momento da conversa, o sorriso fechou definitivamente, o lábio tremeu e eu achei que ela iria chorar. Eu já estava quase chorando! Muita pena daquela situação, sensibilizada com a vida daquele casal, cheios de planos. Até então não tínhamos nos dado conta que a vida em motorhomes pode não ser uma opção. Naquele caso foi por necessidade, questão de sobrevivência. O marido chegou, estacionou um carro velho e barulhento ao lado da casinha, me cumprimentou, meio sem graça. Enquanto ele foi mexer em algo no porta-malas, ela disfarçou, falou do tempo, que parecia que ia chover…e me disse baixinho: “não liga, ele não conversa mais pois sente muita vergonha da nossa situação”. Triste, muito triste. Dei um tiauzinho e fui embora para não o constranger mais. O bebê continuava sorrindo e batendo as mãozinhas.













A desigualdade social está presente também na vida nômade….
Vivenciamos isso também…
Sugiro fortemente ler Vinhas da Ira, de Steinbeck, a história que a Elida conta levada às ultimas consequências. Ver o filme tambem vale
Ótima sugestão!
Obrigada!
Sim Élida, muito triste e muito real! Há incontáveis pessoas nestas situações sejam nas casinhas, casas ou em situação de rua. Isto sempre nos parece longe, como se só outros estivessem sujeitos a isto, mas pode acontecer com qualquer um. Mas me chama atenção a ideia sobre o sítio. Muitas pessoas se iludem, pois nem sempre tem a noção que plantar e colher é de alto custo, muito trabalho. Vivo num sítio, como sabes, mas plantar e colher é só lazer, a necessidade é só afetiva e cultural. Sinto por esta família e desejo que consigam se reerguer!
Muito triste a situação. Espero que estejam bem! Obrigada por compartilhar tua experiência.
Esse relato é um soco no estômago e um exercício profundo de empatia. Ele desconstrói aquela imagem “romantizada” do vanlife (viver na estrada) que vemos no Instagram e nos mostra a face crua da vulnerabilidade social.
A vida na estrada reproduz o que vemos na “vida fixa”…
Elida, história triste, compensada pelo sorriso do bebê. Desejo que consigam melhorar de situação.
Eu também. Às vezes me pego pensando naquela família…não tem como saber! É o universo nômade!
Que situação triste, mas Deus está lá cuidando deles.
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Tomara! Amém! E continua conosco aqui no Exempplar!
A vida nômade muitas vezes começa por força da necessidade de sobrevivência. Não é lazer, não é estilo de vida. É o meio que se consegue sobreviver com menos tudo. São guerreiros e guerreiras, são coragem, força e fé. São pacientes da esperança de um dia deixarem a vida que muitos acreditam ser maravilhosa. Cada caso e casinha, são únicos em suas histórias. As vezes tem similaridade, às vezes nada em comum, só a vida vivida num veículo.
A vida sobre rodas, a vida fixa…É do jeito que dá, do jeito que se pode ou do jeito que se quer! Obrigada amiga nômade por estar aqui no Exempplar.
Como sabes, essa desigualdade social é uma preocupação permanente em minha vida. Mas ela é alimentada por um pequena parcela da população, podre (literalmente) de rica e uma faixa de classe média que se equilibra nos trinta fingindo ter o tutu, mas que depende somente de seu trabalho e nada mais. A outra parte, a imensíssima maioria, são pessoas como retrataste, que sobrevive dos mais diferente modos. Não me conformo, mas não tenho ilusões. Acho que só mudanças estruturais profundas no país podem mudar isso. Mas continuamos votando como se nada acontecesse.
Tua história, muito bem contada e muito triste me lembrou que acompanhei há pouco tempo a derrubada de vários barracos praticamente de indigentes sob a alegação oficial de área de risco, cujo terreno agora está cercado por uma incorporadora imobiliária para construção de grandes prédios. É no mínimo revoltante.
Pois é! Concordo! A desigualdade social grita em qualquer lugar onde estejamos! Obrigada pelo atento comentário. Continuamos na luta…