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Home Destaques

O MAIOR AMOR

DE MARIA ÉLIDA MACHADO

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
5 de janeiro de 2026
em Destaques, Vida Viajante
32
O MAIOR AMOR

Na borda de alguma piscina por aí, nesse mundão de meu Deus, sentei-me próximo a duas senhoras idosas que conversavam animadamente. Confesso que gosto disso, ouvir a conversa de estranhos e fantasiar a partir do que escuto. As duas falavam de amor. Não sei como a conversa começou, achei interessante do ponto em que peguei. Uma contava à outra sobre o grande amor de sua vida, dizia que lembra todos os dias dele, seu amor, com o qual viveu pouco mais de um ano. Não sente saudades, mas lembra dele sempre, como se estivessem juntos. Falava dos encontros que tinham, era tudo admiração, entusiasmo e tesão. Nunca moraram juntos, o dia a dia deles era sempre intenso e por períodos curtos. Nesse ponto elas seguiram falando da vida a dois. Comentaram que o convívio diário, que a paixão do início vai passando, se transformando em amizade, parceria ou só costume mesmo. A ouvinte comentou que não pensa nisso, que se casou cedo, que não teve muita escolha e nem conheceu essa paixão inicial. Que também nunca questionou nada, assumiu que a vida, especialmente das mulheres da sua geração, era assim mesmo, casar-se, ter filhos, cuidar da casa, as mais modernas ousavam trabalhar fora e pronto. Os grandes amores ficavam para seus maridos que aqui e ali tinham paixões tórridas, aquele tesão que só sentiam fora do casamento. Para a ouvinte era só isso.

Para a falante, a vida só tinha sentido se houvesse um grande amor. A conversa ficava cada vez mais interessante. Disse que todo mundo, ao chegar no céu, ou no inferno, quando indagado sobre como viveu o amor, lembrará, sem muito esforço, qual foi o seu maior amor. Esse, segundo ela, é inesquecível, só existe um, o não vivido! Para ser o grande amor, o amor maior não pode ultrapassar o limite da euforia, não pode virar cotidiano. Perguntada pela amiga se ela tinha vontade de revê-lo, respondeu que jamais! Que viveu mais de quarenta anos, muito bem vividos, com seu único marido. Está viúva, não entendi há quanto tempo. Dedica-se agora a tocar piano, está fazendo um novo curso de partitura, ajuda a filha divorciada a cuidar dos seus filhos, seus netos preenchem seu tempo. Mora sozinha e não sente falta de nada, está plena, vivendo seu envelhecimento de forma confortável. Não relembra muito seu marido, cumpriu todo o protocolo, cuidou dele na doença, que não foi longa, fez velório e enterro como ele queria, o enterrou com a camiseta do seu time do coração, o Nacional do Uruguai. Viveu o luto, chorou a perda, o tempo passou, acabou. Segue a vida em companhia do seu grande amor, o maior amor. Esse está integrado ao seu corpo e à sua alma. Não sabe se está vivo ou morto, não quer saber, não importa. Sente-se privilegiada por ter em si um grande amor, aquele em que tudo era perfeito, conversas, risadas, viagens, tesão em tudo, da cozinha à cama. Repetiu várias vezes que não sente saudade, que o que carrega em si é o que basta, o seu grande amor, que é o maior amor porque não vivido! Falava sorrindo e a sua amiga, ao final da conversa, parecia não estar entendendo mais nada. Pensava, talvez, que a essa altura da vida, entender não importa mais…Levantaram-se as duas e foram embora. Eu dei um mergulho e logo fui para a borda novamente, louca para ouvir outra conversa.

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Comentados 32

  1. GILBERTO JOAQUIM PAIXAO disse:
    4 meses atrás

    Ouvir conversas alheias, também faz parte de nossas andanças.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Eu escuto e viajo na imaginação…

      Responder
      • LicalilLLica disse:
        4 meses atrás

        Gostei! Escutar coisas do coração é bom!

        Responder
        • MARIA ELIDA MACHADO disse:
          4 meses atrás

          Que bom que gostaste! E continua conosco aqui no Exempplar!

          Responder
  2. Laura Lisboa de Magalhães Cantuária disse:
    4 meses atrás

    Uau! Que delícia de história! Um grande amor de que se lembra, mas não quer mais saber ..basta a lembrança. Penso que essa senhora é a própria evolução.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Também senti isso! Transcende o lugar comum…

      Responder
  3. Visão Caleidoscópica disse:
    4 meses atrás

    A conversa foi muito interessante!! Ainda bem que ouviste para trazer para cá!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Tô sempre ligada, ouvindo conversas de estranhos! Kkkk

      Responder
  4. RuiPortanova disse:
    4 meses atrás

    “Amor, meu grande amor, (sem nome ou telefone) não chegue na hora marcada.”

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Que lindoooo…inspirações!

      Responder
  5. LUIZ AFONSO ALENCASTRE ESCOSTEGUY disse:
    4 meses atrás

    Talvez seja isso o que carregamos para o outro lado, se é que existe…

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Se existem…o maior amor e o outro lado! Muitas dúvidas, não é?

      Responder
      • LicLaLicalilLLica disse:
        4 meses atrás

        Coisas do coração!! legal. Lica

        Responder
        • MARIA ELIDA MACHADO disse:
          4 meses atrás

          São muitas as histórias vindas do coração!

          Responder
  6. FATIMA DE BARROS PLEIN disse:
    4 meses atrás

    Muito lindo. Daria um tratado filosófico. Mas é bem melhor só curtir. O tempo urge.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Obrigada por curtir!

      Responder
  7. José Claudio dos santos Araujo disse:
    4 meses atrás

    Muito bem escrito…Parabéns!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Obrigada amigo querido!

      Responder
  8. Luciano Machado disse:
    4 meses atrás

    O amor sempre existe em nós…a questão é como sentimos e alimentamos ele.
    Uma ótima conversa.
    Parabéns!!!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Obrigada! E siga conosco aqui no Exempplar!

      Responder
  9. Mário César Both disse:
    4 meses atrás

    O grande amor da jornada é guardado no fundo furado da mochila que carregamos

    Responder
  10. MARIA ELIDA MACHADO disse:
    4 meses atrás

    Está lá, faz parte de nós…pelo menos esse foi o papo das amigas na piscina!

    Responder
  11. ligia zappe disse:
    4 meses atrás

    Quem não gostaria de viver um grande e verdadeiro amor de vida. Uma boa história de vida e vivência de um amor que transcende o material e fica na memória para sempre.suspiro…….

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Boas histórias tocam a todos! E de amor…mais ainda!

      Responder
  12. Cleusa Helena Rockembach Mazuim disse:
    4 meses atrás

    Muito bom ouvir histórias de amor!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Muito bom! Eu adorei ouvir essa conversa…

      Responder
  13. Vera Luci Machado Prates da Silva disse:
    4 meses atrás

    Também gosto de ouvir histórias alheias. É interessante conhecer as maneiras diversas com que as pessoas constroem o sentido para suas vidas.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Que bom que gostaste! Eu adoro viajar na imaginação a partir das histórias que escuto!

      Responder
  14. zaira cantarelli disse:
    4 meses atrás

    Amor intenso, aquele que não foi vivido na juventude e vive na imaginação. Persiste na memória e nos sonhos e basta-se com a própria existência.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Eu achei linda a história! E a emoção da conversa! Obrigada pelo poético comentário.

      Responder
  15. Luiz Eduardo Prates da Silva disse:
    4 meses atrás

    Bha! Vou me cuidar em minhas conversas quando estiveres por perto! kkkkkkkkkkkk
    (mas uma delicia ouvir a dos outros)
    (e também ler tuas crônicas)

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      4 meses atrás

      Fica ligado! Eu ando por aí ouvindo conversas e contando…kkkkk

      Responder

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