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Home Destaques

MÃE ROMANA

POR MARIA ÉLIDA MACHADO

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
30 de novembro de 2025
em Destaques, Vida Viajante
13
MÃE ROMANA

            Não acho adjetivos para descrever o que vivenciamos em Natividade, um pequeno município do Tocantins. Chegamos à cidade por seu apelo histórico e cultural, visto tratar-se de importante local de mineração do tempo do ciclo do ouro no Brasil. Cidade linda, parece um cartão postal, casarios preservados, povo acolhedor. Logo no primeiro dia fomos levados para conhecer uma personagem muito conhecida por lá, Mãe Romana. Uma senhora mística, preta idosa, moradora de um sítio bem próximo ao centro da cidade. Confesso que até hoje não vi nada parecido. Tão curioso e inusitado que me é difícil descrever o lugar, mais difícil ainda expressar as sensações que esse encontro me provocou.

Aquele era um lugar especial. Já na chegada, vimos o grande muro que circundava toda a propriedade. Era feito de pedras, cimento e arame, de forma artesanal, aliás, tudo no local parecia ter sido feito a mão. Não só parecia, era mesmo, tudo feito pela dona da casa. Entramos por um corredor de pedras, um caminho tipo um labirinto, onde a entrada deveria ocorrer pela esquerda e a saída pela direita. Descobrimos outros caminhos por lá, sempre com essa orientação.

No amplo pátio a frente da casa era possível ver esculturas, sempre de pedra, cimento e arame, peças enormes, parecendo seres sobrenaturais, às vezes semelhantes a figuras humanas, às vezes animais com rabos, às vezes alados, pássaros, anjos ou sei lá o quê.

Entre as figuras, aqui e acolá, capelinhas com imagens de santos misturados com objetos daqueles usados em rituais de religiões de matriz africana. Encontramos Mãe Romana dentro da casa, sorriso aberto e abraço apertado de vó. Contou da sua infância pobre, a mais velha de 18 irmãos, foi meio mãe de todos e era cuidada por eles. Não sabe a idade que tem e riu quando perguntei, para ela isso não tem importância. Saiu de casa no início da vida adulta quando começou a ter visões e ouvir orientações de seus mentores espirituais, a família se afastou, era chamada de louca e de loucos todos queriam distância. Vive feliz até hoje em companhia de muitas pessoas que frequentam sua casa na terra, alguns em desenvolvimento de mediunidade e seus “curadores”, que habitam sua cabeça e seu coração. Explicou que 3 curadores a acompanham, dos quais não sabe o nome, não sabe de onde vêm, só sabe que orientam tudo que deve fazer. Comunica-se com eles de forma consciente, não incorpora, o que logo perguntei. Diz que passou a receber orientações sobre “o fundamento espiritual para firmeza da terra” há cerca de 30 anos. De lá pra cá divulga os fundamentos, atrai gente para o trabalho de preparação de um lugar para o “levantar da terra”, uma grande transformação que a terra sofrerá, o que já está ocorrendo em função das mudanças climáticas e violência, por exemplo. Entendi que é esperado algum fenômeno tipo o dilúvio bíblico. Além de preparar as pessoas através do desenvolvimento espiritual, Mãe Romana tem também a responsabilidade de estocar materiais, esperando o “grande momento”. Tudo lhe é orientado através de símbolos.

A casa de Mãe Romana é cheia de imagens, velas acesas, altares, as paredes são totalmente cobertas com desenhos que a gente poderia passar dias só a observá-los. Nesse ambiente Mãe Romana faz benzimento, dá passe e, claro, recebemos essa sua energia também. Passamos por uma cozinha enorme, tudo muito rústico, onde estava sendo preparado no fogão a lenha, um cozido com legumes, raízes e ossos em um enorme panelão. O cheiro estava bom. No pátio, atrás da casa, encontramos aquelas esculturas enormes por toda a parte, semelhante ao que vimos na entrada, só que nos fundos, caminhos de pedra nos levavam até dois pavilhões enormes, estruturas tipo ginásios, onde estão os grandes depósitos. Impossível reproduzir aqui tudo o que vimos. Milhares de garrafas pet com água potável, empilhadas em prateleiras como aquelas dos atacadões que conhecemos. Centenas de sacos com roupas e calçados, ferramentas por todo canto, utensílios de cozinha e de jardinagem aos montes. Sementes, sacos e sacos de sementes. Tudo muito empoeirado produzindo um ambiente meio beje, recortado em alguns pontos pelos desenhos coloridos nas paredes. Andamos devagar, as imagens nos enchendo os olhos.

As emoções, curiosidade e espanto, tomando conta dos nossos corações. Prateleiras cheias de cadernos, livros, papéis empilhados, como pilhas de cartolina em livrarias. Segundo Mãe Romana tudo aquilo faz parte da preparação para o “levantar da terra” e o reinício da vida. Disse que todos os escritos, desenhos, são orientados e ela por seus curadores, por ora ninguém pode abri-los, somente quando receber a permissão. Que curiosidade de ler aquilo! E tem também as pequenas esculturas amontoadas nas prateleiras. Pequenos objetos confeccionados a partir de chifres de boi, cobertos com lacre de latinha, arames e pérolas. Todas as formas muito parecidas, um misto de jacaré e estrelas do mar. Prateleiras cheias de todo tipo de material, tudo misturado, tudo empoeirado, como se estivessem ali há séculos! Tudo ao redor muito místico, cheio de significado. Em um determinado ambiente, é preciso circular algo tipo uma grande bacia, do tamanho de uma piscina, onde estão acumulados todo tipo de material, semelhante aos das prateleiras, parecendo que aquele é um lugar especial. Tudo sendo preparado para o levantar da terra. Tudo doações! Local muito simples. Não circula dinheiro por lá.  Mãe Romana andava pelo ambiente e falava naturalmente, usando termos e expressões difíceis de entender para quem não compartilha daquele universo místico. Mãe Romana e seu espaço me provocaram um turbilhão de emoções, quase indefiníveis! Quando chegar o “grande momento”, eu já sei para onde ir…

Maria Élida Machado

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Comentados 13

  1. GILBERTO JOAQUIM PAIXAO disse:
    6 meses atrás

    Momento mágico e intrigante, visitar a Mãe Romana te trás além de curiosidade muita paz, tudo que ela fala e mostra te leva a reflexões, se tiverem oportunidade é imperdível.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      6 meses atrás

      Boa dica. Mãe Romana recebe a todos com o maior carinho!

      Responder
  2. José Claudio dos santos Araujo disse:
    6 meses atrás

    Obgdo pelo compartilhamento dessa experiência única.Bjos

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      6 meses atrás

      E põe única nisso! Intrigante!

      Responder
  3. Grace Gomes disse:
    6 meses atrás

    Impressionante! Uma mulher idosas com tanta vitalidade vivendo entre suas crenças e, sob certa forma, sua arte.
    Belo texto consegui “visualizar” o espaço e tudo que você descreve… parabéns!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      6 meses atrás

      Obrigada! E sigamos juntas aqui no Exempplar…

      Responder
  4. Roselia disse:
    5 meses atrás

    Adorei o texto!

    Responder
    • GILBERTO JOAQUIM PAIXAO disse:
      5 meses atrás

      Que bom que estás aqui conosco…

      Responder
  5. Maria Eni Machado Vieira disse:
    5 meses atrás

    Q lindo. Deve provocar mesmo muitas emoções.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      5 meses atrás

      Encontro, no mínimo, intrigante! Baita experiência!

      Responder
  6. Laura Lisboa de Magalhães Cantuária disse:
    5 meses atrás

    Que história! Fiquei muito curiosa e encantada por essa figura rara.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      5 meses atrás

      Vai morar um pouquinho em Natividade e conhecer Mãe Romana. Vcs vão gostar!

      Responder
  7. Vera Luci Machado Prates da Silva disse:
    4 meses atrás

    Parabéns pela tua escrita, leva a gente junto em ruas viagens. Quantas mães Romanas devem viver por este Brasil a fora que ainda não foram “visitadas” pela chamada “civilização”. Esta história me fez lembrar o Bispo do Rosário, um misto de místico e de artista.

    Responder

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