Hoje é Dia dos Pais. Eu, sem um pai para homenagear há mais de quinze anos, penso nele. Falecido, esteve presente até seus últimos dias. Não foi um pai muito afetuoso — talvez porque também não tenha aprendido a ser assim —, mas foi participativo em nossa educação. Como avô, tornou-se amoroso e cuidadoso, atento ao desenvolvimento e às necessidades dos netos.
Pensativa, dirijo de um extremo ao outro da cidade para me encontrar com familiares. Da Zona Sul à Zona Norte, com uma parada na Zona Leste, nas proximidades de um grande presídio masculino.
Penso em tantos pais presos, impossibilitados de estar com seus filhos. Penso também naqueles que, mesmo livres, permaneceram indiferentes à prole que geraram.
Está perto da hora do almoço. Minha primeira impressão é que, diferentemente do Dia das Mães, não há uma grande movimentação pela cidade. Não vejo filas nos restaurantes, nem o trânsito parece alterado para uma manhã de domingo.
Com pouco movimento de carros nas ruas, consigo observar melhor as pessoas que circulam, principalmente nas paradas de ônibus e nas praças.
Percebo, inicialmente, mulheres sozinhas com seus filhos. Algumas carregam crianças de colo e, nas costas, uma enorme mochila, equilibrando o peso entre os braços e os ombros, fortes o suficiente para não sucumbirem. Outras conduzem crianças pequenas pela mão, em passos rápidos, talvez para não perder o horário do ônibus.
Noutra região, visualizo mulheres em pequenos grupos. Algumas empurram carrinhos de bebê; outras acompanham seus filhos de bicicleta. Há ainda aquelas que não carregam crianças, mas conduzem seus cachorros pelas coleiras.Em certo momento, pergunto a mim mesma: Onde estão os pais dessas crianças?
Estariam trabalhando? Seriam pais ausentes? Seriam famílias constituídas por mães que escolheram criar seus filhos sozinhas?
Mas, como peças de um quebra-cabeça, a cidade começa a me oferecer outras imagens.
Na avenida seguinte, passo por uma grande praça. Cães correm livres, crianças jogam bola e um homem mais velho brinca com algumas delas.
Seria a figura paterna que eu estava procurando? Ou talvez um avô dedicado. Um tio. Um amigo da família. Um homem qualquer que, naquele momento, ocupava o lugar de uma figura masculina cuidadora. Não tenho como saber.
Mais adiante, percorro novamente uma região menos privilegiada economicamente e me surpreendo com um rapaz muito jovem carregando duas crianças. Uma está sobre seus ombros; a outra caminha solta ao seu lado, enquanto ele, ocupado com o celular, parece não perceber completamente o que acontece ao redor. A mochila está jogada displicentemente sobre um dos ombros.
Prefiro não formar nenhum julgamento. Apenas penso nas muitas maneiras de exercer a paternidade — e também nas tantas formas de não exercê-la.
Chego ao Lar de Idosos, onde preciso buscar uma familiar para o almoço em família. Encontro alguns homens idosos, sozinhos, convivendo com outras moradoras.
Não me atrevo a fazer qualquer referência ao Dia dos Pais.
Sei, por ter trabalhado em Instituições de Longa Permanência para Idosos, que muitos dos homens abrigados reconhecem que não foram pais presentes. Alguns foram alcoolistas, negligentes ou ausentes de suas próprias famílias. E há aqueles que, ao tentarem se colocar no lugar de vítimas, acabam sendo confrontados pela história trazida por algum familiar: histórias de abandono, negligência e sofrimento que atravessaram os anos e chegaram até a velhice, justamente quando esses homens passaram a necessitar dos cuidados que um dia não ofereceram.
Ao chegar à Zona Norte, em um bairro economicamente mais privilegiado, encontro outra realidade. Casais passeiam com seus filhos. Alguns levam cães pelas coleiras. Outros caminham apenas com seus animais. Pessoas aproveitam a bela tarde de sol ao lado de seus pais idosos, em um parque da cidade.
A cidade parece respirar de outra maneira. Os ipês estão floridos, talvez confundidos por um aquecimento fora de época. Amarelos, roxos e rosados, espalham suas cores pelas ruas.
O canto das caturritas é ensurdecedor. Voam em bandos, em busca de alimento, em encontros, movimentos e rituais próprios da espécie.
E penso, então, nas diferentes formas de cuidado que a natureza nos apresenta.
Nos pinguins, em que o macho participa intensamente da incubação do ovo enquanto a fêmea parte em busca de alimento.
Nos cavalos-marinhos, em que é o macho quem carrega os ovos e participa diretamente da gestação.
Nas famílias de elefantes, em que as crias são protegidas por uma rede de cuidado coletivo.
Em tantas outras espécies nas quais proteger, alimentar e acompanhar os filhotes não parece ser uma tarefa restrita a um único indivíduo.
Talvez a natureza tenha muito a nos ensinar sobre presença.
E, naquele domingo, enquanto atravessava Porto Alegre de um extremo ao outro, percebi que eu procurava pais pela cidade. No entanto, encontrei homens. Alguns cuidando. Alguns distantes. Alguns presentes. Outros ausentes.
Encontrei homens que talvez fossem pais, avôs, tios, amigos. Homens que, por alguns minutos, ocupavam o lugar de uma presença masculina junto a uma criança.
Encontrei também mulheres sustentando sozinhas pesos que pareciam grandes demais para um único par de braços.
E encontrei idosos carregando histórias que ninguém consegue mais modificar.
Talvez a diferença entre procurar um pai e encontrar um homem seja justamente aquilo que eu estava tentando compreender.
Porque ser pai pode começar na geração de um filho. Mas a paternidade, talvez, só aconteça quando existe presença, cuidado, responsabilidade e disponibilidade para acompanhar alguém enquanto ele cresce.
E talvez seja isso que eu tenha procurado pelas ruas hoje. Não simplesmente pais, mas presenças.
*Grace Gomes é psicóloga e facilitadora de Biodança, escreve sobre situações do cotidiano e as emoções que encontra em sua atividade profissional.













