
Voltei novamente àquela casa. Parei-me em frente e observei-a por um instante. Meu olhar correu atentamente de um lado ao outro. Realmente, era a mesma casa e guardava as características de sempre. Nem mesmo o tempo foi capaz de desfigurá-la.
Ninguém mais morava naquela casa. Infelizmente, ela estava vazia. Cheia de móveis, guardada no tempo, no espaço e na lembrança. Permanecia praticamente intocável, depois da partida definitiva de sua última moradora.
Era a casa de meus avós maternos. Com a minha avó, a casa ganhava vida e a vida vivia lá. Minha avó sabia aconchegar as pessoas, a família e quem mais por lá passasse.
Hoje, o silêncio toma conta da casa. O vazio é o seu maior guardião. A saudade, uma sentinela que nos espera na entrada e nos acompanha incomodamente por todos os cômodos. O presente é só ausência e lembrança. A solidão que senti não era pelo fato de estar sozinho, naquele momento, mas pelo fato de me sentir só sem aqueles que sempre se faziam presentes, em um lugar que esteve repleto de gente.
Recordações preencheram a minha memória no vazio daquela casa.
Cada passo meu em direção ao interior da casa parecia me levar para dentro de mim mesmo. Ao penetrar nos cômodos da casa, as minhas lembranças escancararam portas e me remeteram a momentos e situações diversas. Os olhos sentiram o que o coração não queria enxergar. O hoje e o ontem se misturaram.
Por alguns instantes, cheguei a acreditar que o vazio é que era um sonho. Fui interrompido pelo silêncio que me aguardava pelo lado de fora de minhas lembranças. Tudo voltara a ficar vazio de gente; apenas os móveis permaneceram imóveis e insensíveis à minha presença.
Minhas mãos tocaram alguns objetos. No contato, senti os fatos, o calor de tantas vidas que por ali passaram e deixaram lembranças, marcas profundas de dias inesquecíveis registrados pela emoção.
Entrei mudo naquela casa vazia e saí calado pelo vazio que aquela casa me transmitiu. O que era vida, agora, é passado. E o que era passado foi a minha vida.
Deixei a casa, mas o seu passado ainda vive em mim.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg















Lindo texto! Senti-me assim também em visita à casa de meus avós. Mas você soube traduzir esses sentimentos magistralmente. Parabéns!
Então…sentir a SAUDADE de alguém é fato, todos sentiram ou sentirão. Agora VAZIO, já senti. E no início não entendia, mas um dia a convite de 2 Amigas para um grupo de Estudos Espirituais, BUMMMM percebi que tinha estado vazia, por um período longo! Tinha me abandonado, tinha abandonado Jesus. Mas após o primeiro estudo me enchi de Alegria, me senti COMPLETA, a muito tempo não me sentia daquela maneira transbordando!! Alguns acreditam estar só por não possuírem algo ou alguém, mas se ENXERGAR e SENTIR JESUS acredito que seja o VAZIO que muitos procuram preencher!!!!! Não sou religiosa, mas Espiritualista é se alguém sente vazio..Somente a parte Espiritual pode lhe preencher!! Experimente!
Legal. São tantos vazios. Tem o vazio da saudade. Da falta de Deus. Vazios do tempo. Do papo, do abraço… Que seja do bem e para o bem.
Sempre que visitava a casa onde me criei eu me lembrava da minha vida todinha! Tua crônica me inspirou a também escrever sobre ela….a casa foi demolida mas permanece inteira na minha memória!
Que beleza. Vai poder reegué-la novamente da memória para o papel. Do coração para uma leitura fos olhos.
Que texto emocionante! A descrição perfeita da casa da minha avó em Belo Horizonte, Minas Gerais! Era exatamente assim, cheia de vida, de primos, tios e agora só restam a saudade e as lembranças!
Vivemos o que o nosso coração guardou e resgata na memória: ‘saudades e lembranças’.
Sim. Sempre tem alguém que desejamos que estivesse ao nosso lado em alguns momentos e as circunstâncias da vida não nos permite. E temos que encarar essa inevitável realidade e o sentimento de saudades.
Verdade. E se temos saudade é porque tivemos a chance de slgo que valeu a pena.
Nossa, entrei na cada da minha mãe que morreu aos 101 anos. Tinha vida e era do jeito que você falou, sempre aconchegante, com netos, almoço aos domingos, natais
Acolhia também quem vinha de Cachoeira de Minas, sua terra natal para visitas médicas em Pouso Alegre ou apenas para visitas e um café. Ninguém saía de mãos vazias. Hoje a casa está lá, só a casa. A vida foi-se embora junto com minha mãe. Passo lá de carro e vejo as roseiras sem flores. Elas também estão indo….
É algo muito contagiante a emoção que o cronista sente e a transmite com sapiência ao leitor ao visitar a casa de seus avós, hoje vazia mas com considerável poder de motivar saudades.
A vida pulsava ali. Vivemos momentos que ficaram e transformaram. A multiplicidade de tantos e de todos.
Muitas vezes, a falta mais dolorosa que sentimos não é a de outra pessoa, mas a de nós mesmos. Quando uma crise de mobilidade reduz drasticamente nossos movimentos e recebemos o diagnóstico de Espondilite Anquilosante, o mundo ao redor parece continuar perfeitamente no lugar. A casa mantém a mesma ordem, os objetos estão nas mesmas prateleiras, mas o corpo que os habita mudou. Olhar para a rotina intacta e sentir o peso das limitações físicas traz um vazio profundo: a saudade nua e crua de quem eu era antes. Sentir falta da antiga agilidade é um processo legítimo de luto. No entanto, a verdadeira superação começa quando paramos de lutar contra o que o corpo não consegue fazer hoje e passamos a celebrar cada pequena vitória do presente. A ordem externa que antes parecia fria se transforma em um porto seguro para novos hábitos. Conviver com a Espondilite não é aceitar a derrota; é aprender uma nova coreografia para a vida. Posso ter perdido parte dos meus movimentos, mas não perdi a capacidade de me reinventar, de encontrar novos caminhos e de preencher o vazio com uma coragem que eu nem sabia que tinha
Excelente. Há sempre um caminho, o que se aprende é um novo caminhar. Parabéns por se permitir ir sempre mais além.
Me emocionei com sua crônica que me fez lembrar tantas casas passadas. As que moramos, as de meus irmãos, de minha sogra na Itália, de meus tios… Deu- me saudades e um nó no peito! Obrigada por ter escrito com tanta ternura essa ” casa da Vó “.
Acredito que todos nós temos esse silêncio de memórias falando com a gente… Essa narrativa me remeteu não apenas em um lugar, mas em vários…
A casa da minha mãe, mesmo só do lado de fora, pois foi vendida e ocupada por outros moradores…mas ao parar lá em frente, vejo as lembranças saltando por cima do muro alto…o banco de alvenaria do outro lado da rua é a cara dela, pois ela amava se sentar ali e observar o movimento da vizinhança e da Av ao lado… A outra lembrança é da casa perdida muito velha la em Minas, que vejo apenas em fotos, onde morou minha bisavó paterna. E a outra é da casa onde minha segunda filha morou…Quando passo em frente aquele portão não tem como conter as lágrimas…Não posso mais entrar lá, mas o coração pula para dentro e lá me vejo em cada momento que estive com ela antes de sua partida para o céu… Não sei se é dor ou saudade…Talvez um misto das duas… Talvez nossa vida tenha mais sentido nessas ausências porque as memórias nos nutri calibrando momentos que jamais voltarão, mas ao mesmo tempo vive em nós!
Tantas experiências. Uma de joas recordações e outras de dores, todas nos ensinam a viver e a resignificar memórias e saudades.
Sinto este vazio nas minhas viagens oníricas, quando revisito locais que tiveram muitos significados na infância e juventude. Acordo grata pelas lembranças indeléveis e vazias de pessoas…
Nada é para sempre, mas as lembranças, muitas vezes, preenchem esses vazios.
Olá amigo!
Um lugar de ausência. Foi assim que se referiu ao vazio mesmo quando tudo está no seu lugar. O vazio não é simplesmente não ter alguém. A subjetividade das emoções daquele local, insistem em fazer com que as pessoas continue viva dentro de nós.
Mudamos quando sentimos o “vazio”. Não porque não encontramos o que queríamos, mas porque nunca mais seremos os mesmos diante daquilo que não há mais!
Estar no lugar de ausência, é como revelar um sofrimento intenso por algo que meu corpo imaginário não consegue mais ser atravessado: saudades!
É um vazio repleto de memórias e de lembranças. Penso que a saudade deve durar um momento, uma crônica pois o amor desses momentos são atemporais e nos acompanham toda a nossa vida…
As casas de meus avós, maternos e paternos, não existem mais, mas continuam vivas em minha memória e as visito sempre em meus sonhos… sonhos bons, repletos de doces momentos e muita saudade.
Olá Antônio Trota, como vai. Me identifiquei com esse conto. A maneira de expressar e abordar os detalhes me fizeram relembrar experiências semelhantes. O passado ajuda a tornarmos pessoas melhores. Parabéns. Grande abraço.
O vazio do silêncio nos inspira ou imaginário mas o vazio existencial aponta para o desejo, inclusive de viver pois, este vazio nunca será preenchido e assim, viver é buscar através do desejo o preenchimento deste vazio jamais preenchido…
Lindo lindo… Casa dos avós é aquele lugar onde a infância permanece acesa, mesmo depois que a vida apaga as luzes.