
Na fazenda de minha avó em Soledade de Minas, além da possibilidade de poder curtir o campo e de todo deleite que uma vida bucólica oferece, eu provava da ambrosia dos deuses – o bolão de fubá, que era feito pela Carmem e a Terezinha, duas irmãs que tomavam conta da cozinha da fazenda. Eram dois momentos mágicos. Primeiro, o da confecção do bolão. O outro, poder saboreá-lo com a satisfação de quem come uma delícia pela primeira vez a cada mordida. Nada se comparava àquele sabor.
Certamente, não havia uma receita escrita. Uma vez aprendido pela observação e com a prática das duas, o bolão tomava gosto e forma e muita gente se reunia em volta para comê-lo. Quando se juntava um pedaço de bolão com uma caneca de café moído e feito na hora, o duro era parar. Sinto, como se fosse hoje, o aroma do café fresquinho e o gosto do bolão desmanchando em minha boca. O bolão frio, eu adorava; quente, eu simplesmente amava. O café da tarde era um banquete.
Nas vezes em que comi do bolão de fubá, de uma certa forma, participava de sua confecção; É que, para assá-lo, ele não era levado ao forno, mas ficava em cima do fogão a lenha e em fogo brando. O detalhe que me chamava a atenção de menino era um “testo de brasa” – pedaço de lata tampando a panela de ferro que continha a massa do bolo. Em cima da lata eram colocadas brasas. Era fogo por baixo e por cima, num controle habilidoso feito pelas duas irmãs.
Minha avó me perguntava: “você quer comer bolão de fubá?”. Sem pensar e com a vontade acima de qualquer raciocínio, respondia que sim. Então, ela me dava uma cesta e pedia para que eu apanhasse gravetos para ser colocado em cima do testo de brasa. Nas primeiras vezes, achava aquilo emocionante e divertido. Fui crescendo e percebendo que para assar o tal bolão bastavam apenas alguns gravetos em brasa. O que acontecia era que a minha avó me fazia encher várias cestas de gravetos. Ela olhava a cesta cheia e dizia: “Hum! Acho que ainda não dá. Vou precisar de mais gravetos para assar. Traga mais, menino esperto!”.
Os anos passaram e eu percebi que minha avó não tinha sempre um moleque “dando sopa” por lá para catar gravetos para ela. Quando aparecia um pela fazenda, ela, na primeira oportunidade, se oferecia para “cozinhar” um bolão. E passei muitas férias catando gravetos.
Na hora de comer, era tudo de bom. Nem o cansaço de andar em busca de gravetos vencia o meu desejo e a minha vontade de saborear um pedaço. O bolão fervia de quente. A fumaça subia, levando o cheiro por toda casa. Uma casca envolvia um cremoso creme de fubá que, muitas vezes, levava nacos de queijo mineiro, feito lá mesmo na fazenda.
Café na caneca. Bolão no prato. Banco na beira do fogão. Dedo de prosa. Canto dos pássaros. Cheiro de roça. Vida solta. Tudo isso naquele tempo…
Hoje, me alimento de saudades.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg












