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Home Cidades

DOM QUIXOTE E O LIXO ELEITORAL Grace Gomes *

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
24 de agosto de 2026
em Cidades, Destaques
3
DOM QUIXOTE E O LIXO ELEITORAL Grace Gomes *

Dirijo pelas ruas de minha cidade, que poderia ser qualquer uma no Brasil, e percebo que ela está totalmente poluída com essa propaganda eleitoral. Uma poluição visual devastadora.

Reflito sobre o absurdo de os candidatos colocarem dez, vinte wind banners nas ruas, avenidas e grandes cruzamentos. É a onda do momento. Não é exatamente um banner: é uma espécie de flâmula de tecido, sustentada por uma base pesada, que se multiplica pelas esquinas.

Bem, no início da campanha, à medida que fui vendo, fui criando ranço dos candidatos que não eram do meu partido, que não tinham nada a ver com a minha ideologia.

Ah… já começaram.

E foram, realmente, os primeiros. No momento em que abriu a campanha, lá estavam as carinhas deles estampadas: todos perfeitos, com sorrisos maravilhosos, carinhas de anjo.

Mas depois comecei a ver também candidatos da minha ideologia.
Não sei se foi uma questão de colocação no mercado, em busca de votos, ou se realmente é preciso gastar o dinheiro da campanha. Será que não existe uma forma melhor de gastar esse dinheiro do que poluir desta maneira a cidade com fotos de carinhas queridas sorrindo?

Pois até os candidatos da minha própria ideologia começaram a me incomodar.
E comecei a me questionar sobre a ocupação da cidade, o dinheiro público ou privado das campanhas, a estética da política e essa necessidade de transformar cada esquina em vitrine eleitoral.

O que exatamente estamos elegendo quando somos bombardeados por rostos, sorrisos e slogans? Porque conhecer um candidato não é necessariamente ver a cara dele cinquenta vezes no caminho para casa.
Comecei com um “ranço dos adversários” e terminei com um “ranço” democrático e igualitário de todos.

No fim, descobri que a poluição visual é apartidária. E talvez essa seja a única coisa em que todos os candidatos conseguiram, finalmente, chegar a um consenso.
Então veio uma ventania na cidade, quase um ciclone, e muitos banners caíram pelas ruas. Ninguém os reergueu, mesmo depois de quase uma semana, continuavam lá, tombados, espalhados pela cidade.

Eis que sofro um delírio, cômico e delicioso:
“Se eu pudesse, sairia pela cidade derrubando um por um. Aqui um sorriso, lá outro sorriso. Mais adiante, uma promessa. Derruba! Outro candidato. Derruba também! Pela primeira vez na vida, eu seria uma destruidora democrática de propaganda eleitoral.”

Assim como Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento. Sacudo a cabeça para afastar essa ideia absurda.
E sigo conjecturando.
Todos os candidatos prometendo mundos e fundos e poucos cumprindo. Todos dizendo que vão resolver o mundo, poucos conseguindo. Todos cheios de propostas maravilhosas, todos muito idôneos. Sem passado, sem dificuldades, sem erros.
Alguns, inclusive, com histórias de heroísmo e superação incríveis.

Eu estou um pouco descrente da política, embora continue votando. Exerço meu direito de votar.
E acho isso muito importante, justamente porque participei de uma juventude que votou, que lutou pelas Diretas Já, que fez movimento político e que acreditava que a participação cidadã podia transformar o país.
Mas não havia todo este alarde.

E há um significativo contraste entre essas duas épocas:
— uma geração que lutava para poder colocar sua voz na urna;
— e uma cidade atual tomada pelas vozes — e, principalmente, pelas caras — de quem quer chegar à urna.

A propaganda eleitoral vende candidatos como se vendesse produtos. Foto bonita. Sorriso bonito. Frase bonita. Promessa bonita. Só falta perguntar onde está o prazo de validade.

E fico pensando: para onde vai todo esse lixo depois? É reciclável?

Quando venta, muitos caem. Ninguém supervisiona. Sei que as pessoas que trabalham nas campanhas são contratadas, mas não deveria existir alguma regra? Um plano? Alguém que vá lá, cuide, veja se está no mesmo lugar, reorganize, distribua melhor?
Porque não faz sentido colocar todos os banners no mesmo lugar. Ao contrário: é tudo assim, displicente e sem controle.

Se existem vinte banners de um determinado candidato, o pessoal se acha no direito de colocar mais trinta de outro. E por aí vai.
E eu, na medida em que a campanha vai progredindo, vou ficando cada vez mais incomodada com tudo.
Incomodam-me muito essas caras plastificadas, sorrindo para mim em cada cruzamento.
Espero que não seja só eu.

Eis aí uma grande contradição: uma sociedade que já se preocupa — ou deveria se preocupar — com lixo, sustentabilidade e ocupação dos espaços públicos, mas que, em época eleitoral, parece aceitar uma espécie de licença para transformar a cidade em depósito de rostos sorridentes.

Depois que escolhermos nossos candidatos, quem vai escolher o que fazer com os restos deles espalhados pela cidade?
Eu acredito genuinamente na importância do voto, justamente porque já participei de um período em que votar era uma conquista pela qual se lutava.
Mas não havia todo este alarde. Hoje, parece que, para chegar até a urna, precisamos atravessar uma floresta de sorrisos.

Volto, então, a pensar em Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes.
Vejo-me como uma cidadã incomodada, armada apenas de indignação e senso estético, enfrentando os “gigantes” da propaganda eleitoral. Só que, desta vez, os gigantes não são moinhos de vento. São banners, cavaletes, placas, sorrisos plastificados e promessas de campanha.

E depois vem a consciência: É delírio, porque eu sei que não vou sair derrubando propaganda pela cidade. Não quero destruir a democracia, muito pelo contrário, quero preservar o direito de escolher.

O que eu quero destruir é a ideia de que, para conquistar um voto, é preciso conquistar também cada centímetro da cidade.
Dom Quixote lutava contra moinhos de vento. Eu, se pudesse, lutaria contra os banners.
A diferença é que os moinhos não sujavam a paisagem, não prometiam mundos e fundos e, principalmente, não pediam meu voto.

*Grace Gomes é psicóloga e facilitadora de Biodança, mora em Porto Alegre e escreve sobre a vida cotidiana.

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Comentados 3

  1. lazaro justo disse:
    2 meses atrás

    Bem assim mesmo.

    Responder
  2. BRUNO APARECIDO GOMES disse:
    2 meses atrás

    Muito bom, passa a impressão de que precisa investir todo o dinheiro que cada partido destina aos candidatos, é um desperdício de dinheiro público, nunca esquecendo que o fundo eleitoral gasto a cada dois anos é bilhonario. Criaram este fundo alegando que diminuiria a corrupção, mas não é perceptível está mudança, será que não seria o caso de rever este fundo!!

    Responder
  3. Sônia Miranda disse:
    2 meses atrás

    Olá

    Pois tens companhia na incomodação.
    Também acho ridículo tantos banners do mesmo candidato. Deveria ser proibido.

    Que peguem esse dinheiro e comprem alimento e medicação para quem não tem.

    Parabéns por informar e divulgar sua indignação.
    Do jeito em que está hoje, se precisa de vozes que acusem erros absurdos.

    Um abraço.

    Responder

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