
Férias. Chegava o último dia de aulas e tudo se transformava em sonhos, diversão e crescimento. Sonhos, pois imaginávamos nossa viagem para a casa dos avós maternos e, normalmente, ela era feita de trem. Diversão, porque éramos muitos primos, meninos e meninas; juntos, misturávamos alegria e interesses comuns durante nossa convivência. As férias de janeiro, mês do meu aniversário, eram a ocasião em que meus parentes, ao me verem, diziam que eu estava crescendo. Na verdade, fosse nas férias de julho ou de janeiro, eu crescia de qualquer forma, ou no tamanho ou no aprendizado do saudável relacionamento com os adultos e com os primos e as primas.
Geralmente, viajávamos, meus irmãos e eu, para a estância hidromineral de Caxambu, onde moravam o meu avô “Totonho” e a minha avó Maria. Para lá íamos, normalmente, acompanhados de um parente mais velho e, quando as férias estavam por terminar, nossos pais nos buscavam para retornar a Itajubá e aos estudos.
Lembro-me de que, ao chegarmos à casa dos avós, eles nos acolhiam com satisfação. Nossas primeiras e derradeiras palavras, nas idas e nas vindas, eram: “bença, vô!”, “bença, vó!”. Abençoados, um diálogo se travava e as curiosidades por notícias se desenrolavam como um carretel. Um fio de prosa puxava outro, que se entrelaçava em tantos e novos assuntos. Uma refeição sempre nos aguardava – cheirosa, quentinha e envolvente como os nossos abraços, dados enquanto comíamos – pois mais pessoas, vindas de vários lugares, se aconchegavam à prosa em volta da mesa.
Se tínhamos alguma coisa, quitanda, presente ou embrulho, já, logo, entregávamos. Primeiro, devido às recomendações maternas. Segundo, para nos familiarizarmos, o quanto antes, e entrarmos direto nas informações prioritárias: qual primo já tinha chegado? Quem estava para chegar por aqueles dias? Onde estariam os outros que ainda não estavam em torno da grande mesa? Quando iríamos para a fazenda? Com quem?… Tudo girava como num mundo mágico. Pessoas que, unidas pelo sangue, desfrutavam e conviviam a experiência de se construir, em volta de uma mesa, de uma prosa, na casa dos avós, uma grande família.
O avô, sempre falante, logo contava “causos” e descontraía, sem exceção, a todos. Com seu jeito peculiar, ligava o fio da mais novíssima informação com alguma de suas histórias. O mais curioso é que muitas delas já haviam sido contadas ali mesmo, para aquelas mesmas pessoas, nas férias anteriores. Sua fala prendia e hipnotizava. Com verdadeiras pérolas, tecia suas habilidades e, como possuidor de um cordão mágico, entrelaçava cada um de nós, formando um lindo colar humano. Ficávamos, simplesmente, ali, imobilizados, mas presentes e atentos às suas divagações, experiências e sabedoria. Suas histórias interessantes fascinavam os interessados e ouvíamos atentamente, como se fosse pela primeira vez.
A avó, além de fazer quitutes e os melhores doces do mundo, guardava tempo para participar da conversa. Introvertida, deixava e ouvia o nosso avô discorrer suas frases e histórias, muitas delas impregnadas em nós até os dias atuais. Ao chegarmos de viagem, ela se preocupava em fazer duas ou três perguntas e já principiava em servir a mesa. Não falava muito, mas prestava atenção em toda conversa e sabia, sabiamente, o que acontecia nas linhas e nas entrelinhas de toda movimentação. Tenho minha vó como a mulher virtuosa citada no Antigo Testamento. Um alicerce sólido para toda a família e de um cuidado cirúrgico com o nosso avô.
Crescer, eu, por certo, cresci. Transformei-me num adulto que tem os olhos marejados quando passa a recordar pessoas e situações que ainda transitam pelo meu íntimo. Um adulto que quando volta àquela casa, sem mais a presença dos avós, viaja de carro e nos sonhos. Um adulto que se diverte com todos aqueles que também cresceram e continuam a viver.
Como num mundo mágico, sinto que a criança que cada pessoa tem dentro de si ainda saboreia o sonho que nós experimentamos acordados, sob as bênçãos de nossos avós.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
atrottamg@gmail.com













Singela crônica! A leitura me levou junto para a sua infância e também para a minha…
Bom que voltamos ao tempo da infância e da diversão. Que nossas crianças livres se divirtam.
O texto mexe com nossa memória afetiva! Lindo e delicado, com sabor da infância onde tudo era mágico! Não perdemos a magia dentro de nós, mas precisamos buscá-las sempre em cada momento especial !
Trotta, que recordação mais bonita e cheia de afeto!
Minha infância era a transição do silêncio da zona rural de Minas Gerais para o turbilhão de novidades de Belo Horizonte.
Foi uma experiência marcante, capaz de moldar as melhores memórias de infância.A capital mineira, com o movimento da Praça da Sete, o vai e vem na Rodoviária, as luzes dos comércios. Parecia um universo mágico para uma criança acostumada com o ritmo da roça.
A casa da avó materna e da Tia Geralda no bairro Anchieta, era o porto seguro onde o carinho se misturava ao cheiro de café fresco, pão de queijo e broa, mantendo as raízes do interior vivas mesmo no coração da cidade grande!!
Férias com a família: como traduzir em palavras? Talvez seja simples demais. É observar os filhos rindo até chorar, abraçados aos avós, como se o tempo parasse para registrar aquele instante.Um gesto, uma cena singela, já revela tudo: a descontração que nasce da convivência, a felicidade que transborda em cada sorriso, a intimidade que só o lar proporciona. É a liberdade de estar em casa, livre, envolto em amor e reconhecimento.As férias, nesse cenário, deixam de ser apenas dias de descanso. Tornam-se celebração da vida, encontro de gerações e lembrança que se grava no coração.
Uma viagem no tempo… Quem teve esse privilégio carrega para sempre uma saudade que o tempo não consegue desfazer. Belas memórias. Parabéns!!!