Num sábado à noite, ligo a televisão enquanto aguardo o sono chegar. Deixo-a ligada em um canal qualquer.
Enquanto me preparo para dormir, ouço vindo da TV:
“Ela está sangrando devido a uma séria lesão na região do supercílio, e sua oponente a encurrala na grade da jaula (!?)”
E a descrição continua, acompanhada de gritos ao fundo, indistintos, mas que me parecem de incentivo, vaias ou aclamação. Fico intrigada com o que estou ouvindo e venho ver qual cena estaria sendo exibida, pois, a princípio, pensei tratar-se de uma luta entre feras… sabe-se lá!
Mas encontro, estarrecida, duas mulheres de média estatura se engalfinhando em um ringue de lutas. Uma delas realmente sangra. E a outra prossegue socando-lhe o rosto e tentando imobilizá-la com pernas, braços, chutes, cabeçadas e nem sei mais o quê.
A princípio, fico horrorizada com a brutalidade da cena. Nunca apreciei campeonatos de luta — seja luta livre, boxe ou MMA — entre homens, e muito menos entre mulheres.
Penso que as artes marciais, a título de defesa pessoal e disciplina, sejam viáveis para todos que precisam aprender a se defender. Mas a luta em si, pelo campeonato, pelo gosto da brutalidade, do nocaute e dos títulos, lembra-me os gladiadores que lutavam para deleite de pessoas que aclamavam sangue e mortalidade nas arenas de Roma.
Mas não pretendo aqui falar sobre a legitimidade — ou não — das lutas.
Pois, na segunda-feira, vejo-me transitando pelos corredores de uma escola, entre meninas vestidas como fadas, princesas e outras personagens infantis.
Parece outro mundo. Elas seguem orgulhosas com suas fantasias — ou realidades — dirigindo-se à sala de aula.
Os meninos, sem grande glamour, vestidos de super-heróis.
Noutro dia, um pouco mais tarde, na saída da escola, vejo meninas treinando judô e muay thai, com muita seriedade em seus quimonos.
Meninos jogando futebol ou treinando artes marciais.
No clube, também observo meninas treinando futebol, além das artes marciais.
E me pergunto:
“Quem serão estas mulheres no futuro?”
“Permitirão sofrer violência ou abuso praticados por homens?”
Vejo pais preocupados com a segurança de suas filhas no futuro. Mães que, apesar de incentivarem a fantasia e o sonho de princesas, também se preocupam com a independência e a segurança física de suas filhas.
Mas e os meninos? Vocês já pensaram a respeito?
Estão sendo incentivados a dançar balé, brincar com bonecas, panelinhas e outras brincadeiras ditas femininas? Estão conseguindo vestir rosa ou pink sem preconceito?
Parece-me que essas mudanças de paradigmas na criação das meninas não vêm sendo acompanhadas por mudanças equivalentes na criação dos meninos.
Para que não se tornem homens perdidos em um mundo onde as mulheres estão alcançando posições cada vez mais diversificadas.
Pois somente assim — vivenciando ou ensaiando novos papéis na sociedade — conseguiremos uma verdadeira igualdade entre os sexos.
Com mais afeto e sensibilidade na criação dos meninos, tal como ocorre hoje com as meninas, cada vez mais incentivadas nas habilidades ditas masculinas.
*Grace Gomes, psicóloga, psicoterapeuta e facilitadora de Biodança escreve sobre suas reflexões embasadas no cotidiano.













